A Arte da Guerra, o livro e os 13 capítulos


Ao longo dos últimos (muitos) anos, de vez em quando a gente vê em um ou outro filme (ou série de TV) alguém falar num tal de Sun Tzu ou em seu livro, o tratado militar escrito por volta do século IV AEC, intitulado A Arte da Guerra.

De fato, o livro ganhou popularidade no ocidente, e nos Estados Unidos em especial, ao ser citado no filme Wall Street, Poder e Cobiça. No longa dirigido por Oliver Stone, a personagem de Michael Douglas, Gordon Gecko, vai direto ao ponto em uma de suas falas:

Eu não atiro dardos em um alvo. Aposto em coisas certas. Leia Sun Tzu, A Arte da Guerra. Toda batalha é conquistada antes de ser combatida.

Aliás, essa frase é emblemática e retrata muito bem, pelo menos em minha visão, o pensamento central do livro: o uso da inteligência em detrimento (ou complemento) da força. Mas isso é assunto para outro momento, já que agora vamos fazer uma apresentação mais resumida da obra.

E, sendo assim, cabe a pergunta:

O que há de tão especial nesse livro que, apesar de no Brasil ainda ser relativamente pouco conhecido, tem ganhado cada vez mais espaço mundo afora?

E as possíveis respostas:

  1. Pra começo de conversa, é um dos primeiro livros da história mundial a registrar as técnicas e métodos utilizados para se vencer o inimigo na guerra. 
  2. Além disso, ele é daquele tipo de livro cujas ideias essenciais se ajustam a praticamente qualquer contexto, mas especialmente o competitivo - o que faz dele uma leitura praticamente obrigatória para quem atua no universo corporativo ou político-eleitoral
  3. Com seu caráter sentencioso e um tanto quanto lacônico, A Arte da Guerra de Sun Tzu também se apresenta como uma obra que exalta a liderança e a capacidade de superar obstáculos.

E não há muito mais do que isso. Sério!

No entanto, parece ser mais do que suficiente para que ele figure na lista dos queridinhos de muita gente graúda.

Sendo assim, continue a leitura para encontrar:

  • A história do livro;
  • Um resumo dos 13 capítulos;
  • As principais edições em francês, inglês e português; e
  • 10 livros de autoajuda baseados na marca A Arte da Guerra.

Uma breve história do livro A Arte da Guerra



Foi ali mais ou menos pelo primeiro século Antes da Era Comum (AEC) que o historiador Sima Qian, nos seus Registros do Grande Historiador (Shiji), fez uma das primeiras e certamente a mais famosa menção ao livro A Arte da Guerra.

Nesse texto, Sima Qian ressalta que o livro havia sido lido e estudado por Helu, rei (wang) da província de Wu, no finalzinho do séc. VI AEC. Ou seja, um dos primeiros registros históricos a mencionar A Arte da Guerra, dá conta de que o livro já existia quando Clístenes dava o ponta-pé inicial num negócio chamado democracia.

No entanto, estudos mais atuais apontam inconsistências históricas na versão que chegou aos dias de hoje, de modo que, pelo menos parte dele, surgiu depois, no período dos Estados Beligerantes - que foi da primeira parte do séc. V AEC até o último quarto do séc. III AEC.

Ainda assim, considerando a obra de Sima Qian, é possível afirmar sem sobra de dúvidas que tal livro supostamente escrito por Sun Wu já existia antes da virada das Eras.

Também anterior ao ano zero é a obra de Sun Bin (ou Pin), um suposto descendente de Sun Tzu, intitulada... A Arte da Guerra de Sun Bin.  Aposto que você não esperava por essa, hein!

Mas não vamos entrar em detalhes sobre isso agora e pularemos para o séc. III da Era Comum (EC). Nessa época, uma figura proeminente chamada Cao Cao, fez publicar o livro de Sun Tzu acrescido de seus comentários e com o texto original editado - tendo inclusive removido certas passagens, muito embora não se saibam exatamente quais.

Foram os primeiros de uma série de comentários feitos ao longo dos séculos seguintes pelas mais diversas figuras.

Aliás, não apenas comentários foram realizados ao longo do tempo: A Arte da Guerra, de fato, aparece nos catálogos bibliográficos históricos das dinastias chinesas, com grandes divergências sobre seu tamanho e divisões internas.

Vale destacar que, naturalmente, o livro espalhou-se pela Ásia - incluindo aí Japão e Coreia. A versão japonesa mais antiga é datada do séc. VIII EC.

Um grande achado

Em 1.972, foram descobertas as famosas tiras de bambu de Yinqueshan Han em duas tumbas da dinastia Han, que situavam-se perto da cidade de Linyi, na atual província de Shandong.

Se você está em dúvida, a dinastia Han é aquela que encerrou o período dos Estados Beligerantes, no final do séc. III AEC, e que perdurou por mais de quatro séculos. E, caso você também não saiba, os livros na China antiga eram escritos verticalmente, de cima para baixo, em tiras de bambu amarradas umas às outras.

Nesse sítio arqueológico, foram encontradas várias obras, entre as quais, duas de extrema importância para o que nos diz respeito:

  1. Uma, atribuída a Sun Tzu, correspondente ao texto conhecido no ocidente; e 
  2. Outra, atribuída a Sun Bin (lembra dele?) - que explica e expande a anterior.

De fato, o material do texto de Sun Bin se sobrepõe a grande parte do texto de Sun Tzu e é possível até que ambos façam parte de uma única tradição intelectual, constantemente em desenvolvimento, unificada debaixo do guarda-chuva do sobrenome Sun.

Essa descoberta não apenas lançou uma nova luz sobre A Arte da Guerra e sua autoria, mas também inaugurou uma nova era de estudos e debates - dos quais não trataremos aqui.

A Arte da Guerra no ocidente

A primeira tradução da obra para o ocidente foi feita pelo padre jesuíta francês Jean Joseph Marie Amiot, em 1.772.

Inclusive, foi sua tradução para o português feita por Sueli Barros Cassal que andei consultando, muito no início do blog, até descobrir que não era lá tão fiel assim ao texto original - embora tenha suas curiosidades.

Que fique claro: o problema não é a tradução do francês para o português, mas do original para o francês. Já em inglês, as traduções mais notórias são:

  • a do britânico Lionel Giles (não confundir com o argentino Lionel Messi, nem com o cantor Lionel Ritchie), publicada em 1.910;
  • General Samuel B. Griffith, de 1.963;
  • Thomas Cleary, de 1.987;
  • Roger T. Ames, de 1.993 e de 2.010 - esta última tendo sido a primeira a traduzir para o inglês os textos encontrados, em 1.972, nas famosas tiras de bambu de Yinqueshan;
  • Ralph D. Sawyer, 1.994 - que eu li e recomendo;
  • John Minford, 2.002; e
  • Victor H. Mair, de 2.007, intitulada "Métodos Militares de Sun Tzu", muito enfática em seus argumentos de que Sun Tzu jamais existiu.

Depois de desencanar da versão francesa, passei a utilizar tanto a tradução para o inglês feita pelo Sawyer, quanto a tradução feita diretamente para o português por André Bueno.

Os treze capítulos do livro A Arte da Guerra


Detalhe de uma edição chinesa bilíngue de colecionador do livro A Arte da Guerra

A obra é composta por treze capítulos curtos que abordam, cada um, aspectos diversos da estratégia militar, de modo a compor um panorama dos principais eventos e estratégias que podem ser aplicados não apenas em situações de combate, mas também (e talvez principalmente) para evitar o engajamento:

  1. Da Avaliação
  2. Do Comando da Guerra
  3. Da Arte de Vencer Sem Desembainhar a Espada
  4. Da Arte de Manobrar as Tropas
  5. Do Confronto Direto e Indireto
  6. Do Cheio e do Vazio (I) | Do Cheio e do Vazio (II)
  7. Manobras Da Arte do Confronto
  8. As Nove Mudanças Da Arte das Mudanças
  9. Sobre a Movimentação Da Importância da Geografia
  10. O Terreno Da Topografia
  11. Os Nove Territórios Dos Nove Tipos de Terrenos
  12. Ataque com Fogo Da Pirotecnia
  13. O Uso de Espiões Da Arte de Semear a Discórdia

Os links acima são para os comentários que já fiz, neste blog, a respeito de cada capítulo e você pode ficar à vontade pra visitar um a um - seu fosse eu, faria isso. Mas se você não quiser, ou não puder fazer isso agora, vou agilizar o seu lado e dar uma palhinha a seguir.

I. Da Avaliação

O capítulo inicial estabelece, logo de cara, o motivo pelo qual o livro existe, sendo aberto com uma das mais célebres frases do livro:

A guerra tem importância crucial para o Estado.

Nele são apresentados alguns temas recorrentes ao longo da obra, bem como os cinco fatores essenciais para o sucesso.

Para mais detalhes sobre o capítulo, clique no link a seguir:


II. Do Comando da Guerra

O segundo capítulo trata da necessidade de se estar preparado, discorre um pouco sobre disciplina e também sobre a questão crucial do tempo, frisando que é necessário fazer campanhas rápidas e assertivas.

Também destaca, aplicando um golpe de judô certeiro, os benefícios de se manter às custas do inimigo, minando suas forças e, ao mesmo tempo, se fortalecendo.

Para mais detalhes sobre o capítulo, clique no link a seguir:



III. Da Arte de Vencer Sem Desembainhar a Espada

É o capítulo ao qual Gordon Gecko, que citamos no início deste texto, faz referência no filme - e também onde começa a ficar mais em destaque a ideia de usar da inteligência para vencer o inimigo.

Tanto, que aí vamos nos deparar com outra das mais famosas frases do chinês, que é mais ou menos assim:

Se conhece o inimigo e a si mesmo não precisa temer o resultado de cem batalhas.

Também há uma lista dos sete erros fatais normalmente cometidos pelos líderes e outra com as cinco circunstâncias necessárias para assegurar a vitória.

Para mais detalhes sobre o capítulo, clique no link a seguir:


IV. Da Arte de Manobrar as Tropas

Aqui, ele volta a frisar a importância de se vencer a batalha antes mesmo de seu início e apresenta alguns conselhos práticos sobre isso.

Apresenta, ainda, uma lista com cinco elementos importantes para fazer o planejamento, mas ao mesmo tempo começa a ressaltar a questão da adaptabilidade.

Para mais detalhes sobre o capítulo, clique no link a seguir:


V. Do Confronto Direto e Indireto

Antes de adentrar o assunto principal do capítulo, Sun Tzu volta a abordar a arte de comandar as tropas, com o destaque indo para sua constatação de que tanto faz o número de liderados, quando se tem método e organização - ideia básica que também vemos em Musashi.

No que diz respeito ao confronto direto e indireto, a ideia principal é a necessidade de se utilizarem tanto abordagens diretas de ataque, do tipo campo de batalha mesmo, quanto indiretas, a exemplo do uso de espiões e táticas fugidias.

Para mais detalhes sobre o capítulo, clique no link a seguir:


VI. Do Cheio e do Vazio

Aqui há um certo aprofundamento na questão de uso de subterfúgios para subjugar o inimigo, especialmente no que diz respeito a como se comportar perante o inimigo e, por tabela, infernizar a vida dele.

Nessa linha, há mais alguns conselhos práticos, tais como não dividir o próprio exército, mas provocar tal divisão nas hostes inimigas, e conhecer a fundo não apenas o local, mas também o dia, a hora e o momento exatos do combate.

Para mais detalhes sobre o capítulo, clique no link a seguir:


VII. Manobras

Começando do momento em que o general recebe as ordens do governante para uma missão e reúne suas tropas, logo antes de cairmos direto no campo de batalha somos devidamente alertados de que

Nada é mais difícil do que o combate armado.

Sim, o capítulo se aprofunda ainda mais na arte de se movimentar, de tal maneira que se aproveitem ao máximo as vantagens de dominar tempo e distância, bem como se evitem os perigos de se realizarem manobras equivocadas.

Para mais detalhes sobre o capítulo, clique no link a seguir:


VIII. As Nove Mudanças


Lagunas Altiplânicas, no deserto do Atacama, Chile.

O capítulo VIII começa pela "regra geral para o início das operações militares", que consiste "na convocação de um general pelo seu governante" e, dando uma certa continuidade ao capítulo anterior, aprofundando-se mais um pouco na arte de se movimentar.

Nesse contexto, relaciona nove regras para se dar bem quando estiver em locomoção, entre elas a de se usar da diplomacia e fazer aliados quando estiver em terreno fronteiriço.

Também frisa que quem manda no campo de batalha não é o soberano, mas o general, e que este tem que evitar as cinco características fatais de um líder no campo de batalha.

Para mais detalhes sobre o capítulo, clique no link a seguir:


IX. Sobre a Movimentação

Este é o terceiro capítulo seguido que gira em torno do mesmo tema, com mais ênfase em como se posicionar frente ao inimigo e na leitura do ambiente, para saber o que o inimigo está fazendo. Falando em termos atuais, parece muito com um negócio chamado análise SWOT...

... ou será que estaria eu variando?

Elucubrações à parte, além dos tópicos acima, o capítulo ainda trata de ensinar a ler o comportamento do inimigo, bem como apresenta algumas atitudes que devem ser ponderadas no que diz respeito ao relacionamento do general com as tropas.

Para mais detalhes sobre o capítulo, clique no link a seguir:


X. O Terreno

O tema central deste capítulo é a classificação dos terrenos em seis tipos, ou as "seis condições sobre os terrenos", que devem ser examinadas com cuidado pelo general, abordando ainda um panorama de como se portar em cada um destes terrenos.

Na sequência, engata uma relação de seis condições que devem ser atentamente estudadas e que podem levar um general à derrota - entre elas, obviamente, diferenças de força significativas entre os exércitos.

Para mais detalhes sobre o capítulo, clique no link a seguir:


XI. Os Nove Territórios

A essa altura do campeonato já deve ter dado pra perceber o quanto o espaço, de maneira geral, é importante nas arte das pelejas: são nada menos que cinco capítulos dedicados de alguma forma a esse tema - quase metade do livro!

No caso do XI, são apresentados os famosos nove territórios do título, suas características e o que fazer em relação a cada um deles. Sobre esses territórios, gosto muito da ideia de territórios mortais.

Também neste capítulo são tratado outros temas, acessórios, mas importantes para o sucesso.

Para mais detalhes sobre o capítulo, clique no link a seguir:


XII. Ataque com Fogo

Sim, este capítulo é sobre como usar o poder do fogo para dar aquela zoada básica no inimigo. Inclusive, são destacados cinco meios de atacar com fogo, bem como conselhos mais operacionais.

O inusitado é que ele também discorre, muito de passagem, sobre como a água também pode ser utilizada como arma de batalha - assim como o fogo. E, pra variar, acaba tratando de temas que não tem muito a ver com o título do capítulo, inclusive de algo que poderíamos chamar de profissionalismo.

Para mais detalhes sobre o capítulo, clique no link a seguir:


XIII. O Uso de Espiões 

Bem na linha da ideia de conhecer o inimigo, não poderia existir um tratado sobre a guerra que deixasse essas criaturas sinistras de fora. Sim, já na China antiga existiam homens que sabiam de mais e que sabiam de menos.

No caso de nosso livro, temos os cinco tipos de espiões, com um carinho especial para os chamados duplos. Também são destacadas, no caso do soberano e dos generais, algumas qualidades úteis para lidar com espionagem - entre elas, a de saber recompensar muito bem esses profissionais.

Nada muito diferente do que acontece hoje em dia. Concorda?

Para mais detalhes sobre o capítulo, clique no link a seguir:


E agora, Mao Tse?


Grafite do antigo ditador da República Popular da China, Mao Tsé Tung

Bem, agora que você sabe algumas coisinhas básicas sobre o livro A Arte da Guerra, acho que já dá pra ter uma ideia melhor a respeito de sua importância.

Caso contrário, segue um trecho do artigo (em inglês) do site History.com sobre a obra. A tradução é livre, de minha própria cepa, mas tá bem feitinha:

Desde que A Arte da Guerra surgiu, os líderes militares seguiram seu conselho. No século XX, o líder comunista Mao Zedong disse que as lições que aprendeu com A Arte da Guerra o ajudaram a derrotar as forças nacionalistas de Chiang Kai-Shek durante a Guerra Civil Chinesa. Outros devotos do trabalho de Sun Tzu incluem os comandantes Vo Nguyen Giap e Ho Chi Minh, do Viet Minh, e os generais Norman Schwarzkopf e Colin Powell, da Guerra do Golfo.

No entanto, mais do que devido à guerra em si, a obra ganha notoriedade nos dias de hoje por ter sido adotada em mundos tão diversos quanto o corporativo e o esportivo. É o que também destaca o mesmo artigo do History.com:

...executivos e advogados usam os ensinamentos de A Arte da Guerra para ganhar vantagem nas negociações e vencer julgamentos. Professores de escolas de negócios indicam o livro a seus alunos e treinadores de esportes o usam para ganhar jogos. Tem sido até o tema de um guia de namoro de auto-ajuda. Claramente, este livro de 2.500 anos ainda ressoa com uma audiência do século XXI.

Mas não fica só por aí. Já existe uma infinidade (ok, exagero) de livros de autoajuda que usam a marca A Arte da Guerra em sua estratégia de marketing.

Uma pesquisa rápida na Amazon, por exemplo, oferece dez desses livros para os públicos mais diversos:


E isso apenas em português! É mole ou quer mais?

Claro, pode haver quem diga que o livro não tem lugar no séc. XXI. Mas, se for mesmo o caso, essa ainda é uma visão (muito) minoritária. A lista acima e os inúmeros artigos sobre os ensinamentos do livro A Arte da Guerra encontrados na internet, são uma boa evidência disso.

Eu particularmente acho que ao longo do século, com a evolução das tecnologias de ponta e suas incríveis implicações sociais, há alguma chance de ele perder espaço no mundo corporativo.

No entanto, enquanto o espírito competitivo e combativo pairar sobre a humanidade, as estratégias preconizadas no livro perdurarão e sempre haverá alguém a repetir as famosas frases de Sun Tzu.

Zài Jiàn!

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Créditos e referências

Ilustrações e fotos creditadas na ordem em que aparecem no texto.


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