Quem foi Sun Tzu


Não sei dizer ao certo quando tive meu primeiro contato com o livro A Arte da Guerra e seu suposto autor, Sun Tzu. Acho também que esse primeiro contato não me impressionou muito.

No entanto, por alguma razão que eu também desconheço (talvez as frases famosas), acabei me interessando pelo livro e, mais ainda, por seu autor. Tanto que, em algum momento, me ocorreu esse questionamento:

Porque será que ninguém até hoje escreveu um livro sobre Sun Tzu?

Então aconteceu isso que descrevi nessa outra página e aqui estou eu tentando escrever um livro inspirado, de algum modo, na vida e na obra do general chinês.

Quando tomei essa decisão, o caminho natural era pesquisar tudo que fosse possível a seu respeito e ao período em que ele viveu - e ao longo das dezenas de posts deste blog já é possível ter uma boa ideia disso tudo.

Mas agora vamos tentar desvendar um pouco do mistério por trás do nome Sun Tzu.

Então, quem foi Sun Tzu mesmo?



A resposta curta e grossa é: também conhecido como Sun Wu ou Sunzi, foi um general, estrategista e filósofo chinês a quem é tradicionalmente atribuída a autoria do livro A Arte da Guerra.

Segundo as informações mais amplamente difundidas, Sun Tzu teria nascido em 544 antes da era comum (AEC), morrido em 496 AEC e prestado seus serviços a Holu, o soberano da província de Wu, a partir do ano 512 AEC.

Essas datas simplesmente nos dizem que ele teria nascido, vivido, matado e morrido no finalzinho do famoso Período da Primavera e Outono (722 a 481 AEC). E é praticamente tudo que sabemos sobre ele.

Ou seja, o cara é um grande mistério, já que nem os estudiosos mais estudiosos conseguem se entender sobre quem foi Sun Tzu -  ou sequer se ele realmente existiu.

São poucas as fontes históricas que o citam, sendo que o único Sun Tzu que aparece nos Anais da Primavera e Outono, considerada a principal fonte para o período, não tem nada ver com o autor do livro a Arte da Guerra.

Ainda assim, pelo menos duas obras importantes fazem referência ao cara:

  1. Os Registros do Grande Historiador (Shiji) - obra escrita por Sima Qian, entre 109 e 91 AEC, na qual ele descreveu a história chinesa, desde a época do mítico Imperador Amarelo até a seu próprio tempo; e
  2. Os Anais da Primavera e Outono das províncias de Wu e Yue - esses são outros Anais, diferentes dos referidos dois parágrafos acima.

No caso dos Anais, Sun Tzu é citado nas crônicas do rei Holu, inclusive com participação em duas importantes campanhas. Já nos Registros, ele é citado:

  • em sua própria biografia;
  • na biografia de Wuzixu; e
  • nos anais da província de Wu.

A mais famosa referência é sem dúvida a dos Registros, especialmente pelo fato de ser uma fonte mais conhecida.

Pequenas diferenças e o local de nascimento de Sun Tzu


Foto em preto e branco de um berço antigo de balançar, feito de madeira, no meio de um quarto vazio.

Apesar de pequenas diferenças, ambos os documentos contêm passagens semelhantes, inclusive sobre quando Sun Tzu teria conhecido Holu e foi instado a treinar as concubinas do chefe para comprovar suas habilidades.

Também tratam de como ele, tendo impressionado Holu, passa a fazer parte, como general, das hostes do exército da província. Ao lado de Wuzixu, teria sido um dos responsáveis então pela vitória espetacular sobre a rival Chu.

Uma diferença marcante entre ambos diz respeito ao suposto local de nascimento de Sun Tzu. Enquanto os Registros o situam em Qi, os Anais relatam que ele teria nascido na própria Wu.

Eu particularmente acho que o local de nascimento dos Registros tem mais a ver com livro em que trabalho, tanto que já escrevi vários posts a esse respeito, entre eles, os que discorrem sobre a provável família de Sun Tzu (dê uma olhada, mais abaixo, na seção "A família de Sun Tzu, antepassados e descendentes").

Também, aparentemente, faz mais sentido, pelo menos de acordo com Ralph D. Sawyer - um dos principais estudiosos de Sun Tzu na atualidade.

Sun Tzu nos Anais de Wu e Yue

Em relação aos Anais, nas já referidas crônicas do rei Holu, há uma discussão entre os ministros de Chu, na qual eles concluem que Sun Tzu é um dos três generais responsáveis por sua derrota perante Wu.

Mais adiante, Holu ordena a ele e a Wuzixu que montem o contra-ataque contra Chu que resulta na vitória de Wu em Yu-chang. Na sequência, Sun Tzu e Wuzixu aconselham o soberano sobre a viabilidade de uma invasão tão profunda que alcance a capital Ying:

No nono ano, o rei de Wu se dirigiu a Wuzixu e Sun Wu: “No início vocês disseram que Ying não poderia ser invadida. Agora, finalmente, o que dizem?”

Os dois generais responderam: “Agora, a guerra que toma emprestada a vitória para completar sua grandeza não é o constante Tao da vitória.”

O rei de Wu perguntou: “O que vocês querem dizer?”

Os dois generais responderam: “O exército que Chu formou constitui o inimigo mais forte sob o Céu. Agora, se nós engajarmos sua vanguarda de elite na batalha, dez serão perdidos para cada homem deixado vivo, e se sua majestade entrará em Ying dependerá dos Céus. Não nos atrevemos a dizer que a vitória é certa.”

O rei de Wu disse: “Se eu quiser novamente de repente golpear Chu, o que devemos fazer para sermos bem sucedidos?”

Wuzixu e Sun Wu disseram: “Nang Wa é ganancioso e ofendeu os senhores feudais muitas vezes, enquanto T’ang e Ts’ai o odeiam. Se você deve atacar, ganhe T’ang e de Ts’ai.”

A partir daí o diálogo continuou com os generais contando novamente a história de como Nang Wa deteve os soberanos de T’ang e Ts’ai quando eles falharam em satisfazer seus desejos.

Após a conquista da capital de Chu, as crônicas descrevem os esforços de Wuzixu para vingar a morte de seu pai.

Esse trecho é finalizado com a  indicação de que Sun Tzu, bem como os outros generais mais graduados, tomaram para si as concubinas de figuras importantes da província derrotada - para a desgraça de seu soberano e de seus ministros.

Sun Tzu e os louros da vitória



Certamente suas recompensas não se resumiram apenas a concubinas.

Uma novela muito popular da dinastia Ming, baseada em material histórico do período Chou (ou Zhou) do Leste, que apresenta uma versão romantizada da partida de Sun Tzu depois de vencida a guerra contra Chu, dá uma dica a esse respeito:

Quando Holu comparou as realizações de seus oficiais no que diz respeito à destruição de Chu, classificou Sun Wu no mais alto nível. Ele não estava disposto a ocupar uma posição oficial, por isso firmemente pediu permissão para voltar às montanhas. O rei ordenou que Wuzixu o impedisse.

Sun Wu pessoalmente se dirigiu a Wuzixu: "Você conhece o Tao do Céu? Quando o verão se vai, o inverno vem; depois que a primavera retorna, o outono chegará. O rei confia agora em sua força que floresce; as quatro fronteiras estão livres das preocupações; a arrogância e o prazer inevitavelmente nascerão. Agora que o objetivo foi alcançado, não se retirar vai invariavelmente resultar em infortúnio mais tarde. Eu não estou tentando me preservar sozinho, mas eu também quero preservá-los”.

Wuzixu disse que não acreditava nisso. Sun Wu subsequentemente afastou-se. Tendo sido presenteado com várias carruagens de ouro e sedas, espalhou-os todos entre as pessoas comuns empobrecidas ao longo de sua rota. Mais tarde, ninguém soube que fim ele teve.

Pouco antes disso, porém, há um diálogo interessante nos Anais, entre Wuzixu e Sun Tzu, a respeito de acontecimentos posteriores à invasão da capital de Chu:

Wuzixu e os outros falaram entre si: “Mesmo que Chu tenha derrotado nossa força secundária, eles ainda não nos feriram.”

Sun Wu disse: “Com os escudos e alabardas de Wu eu destruí Chu a oeste e expulsei o rei Chao. Você escavou o túmulo do rei P'ing de Chu, cortando e profanando seu cadáver. Já é suficiente.”

Wuzixu disse: “Desde os primórdios dos reis hegemônicos nunca houve um súdito que exigisse vingança como esta. Vamos partir.”

E um resumo disso tudo, bem como da importância do sujeito, é o que nos mostra esse pequeno trecho dos Registros do Grande Historiador:

A oeste, [o rei de Wu] derrotou o poderoso estado de Ch'u e adentrou Ying [sua capital]. Ao Norte, ele intimidou Qi e Chin e manifestou seu nome entre os senhores feudais. Isso foi devido a Sun Tzu emprestar poder a ele.

Mais referências sobre Sun Tzu

Anteriores à dinastia Qin, há ainda, de acordo com Ralph D. Sawyer, dois livros que fazem prováveis referências a Sun Tzu. No Hsün-Tzu, o Senhor de Lin-wu enfatiza a importância de métodos táticos em detrimento de preocupações sobre as pessoas e seu bem estar:

O que o militar estima é aproveitar vantagens; o que pratica é mudança e distração. Aquele que se destaca em empregar os métodos militares responde rápida, distante e sombriamente. Ninguém sabe de onde ele sai. Quando Sun e Wu os empregaram, eles não tiveram inimigos sob o Céu.

No Han Fei-tzu, aparece um trecho que também foi incorporado aos Registros:

Dentro das fronteiras todos falam de assuntos militares. Toda família tem os livros de Sun e Wu guardados, mas o exército fica mais fraco. Os que falam sobre a guerra são numerosos, mas os que carregam a armadura são poucos.

Porém, tem um detalhe a respeito desses dois trechos sobre o qual o próprio Sawyer chama atenção. Você deve ter notado que eles se referem a Sun e a Wu como entidades separadas, o que, pra variar, deixa margem a interpretações.

Os trechos poderiam estar se referindo, por exemplo, a Sun Pin, suposto descendente de Sun Tzu, e a Wu Qi, famoso líder militar do período dos Estados Beligerantes - contemporâneo de Pin.

A família de Sun Tzu, antepassados e descendentes


Quatro anus-brancos aninhados em um galho de uma árvore no meio do mato.

Por falar em descendente, vamos falar rapidamente sobre a provável família de Sun Tzu e seu suposto descendente Sun Pin.

Como eu já escrevi, mais no início deste post, existe uma controvérsia sobre o verdadeiro local de nascimento de Sun Tzu.

Enquanto os Anais de Wu e Yue relatam que ele teria nascido em Wu, local que fez sua fama, os Registros o situam em Qi. Sendo eu mais simpático a essa última hipótese, resolvi escrever uma série de posts a esse respeito:


Neles, destaco a história dos Tian (ou Chen) e da própria província, com o máximo detalhe possível, desde a fuga do príncipe Wan de sua província natal (Chen), até o momento em que Tian Wuzi (ou Kai, possivelmente o nome familiar de Sun Tzu) é ferido em batalha e desaparece da história de Qi.

Tudo com base em outros Anais, os da Primavera e Outono supostamente escritos por Confúcio. Aliás, caso você tenha a curiosidade de pesquisar, nesses Anais ele é chamado Ziqiang.

Também escrevi textos especiais a respeito de três de seus (prováveis) antepassados:


Seguindo esses textos, vemos que Sun Tzu teria tido pelo menos um irmão, mais velho, chamado Tian Qi.

Sun Pin: o único descendente?

Na outra ponta, a de seus prováveis descendentes, o único nome que surge é mesmo o de Sun Pin.

Algumas fontes consideram que ele era neto de Sun Tzu, o que é virtualmente impossível, considerando que a data aceita da morte de Sun Pin, 316 AEC, difere em 180 anos em relação à morte de seu suposto e mais famoso ascendente.

Não consegui encontrar informações sobre onde Sun Pin teria nascido. No entanto, é normalmente aceito que ele obteve seu conhecimento militar em Wey com um eremita chamado Guiguzi.

Um fato curioso, é que ele ganhou fama como estrategista militar exatamente em Qi, como conselheiro do general Tian Ji, mais ou menos a partir do ano 340 AEC.

Qi, você lembra, é a província onde teria nascido Sun Tzu. E Tian Ji era membro de sua provável família, que havia tomado o poder na província por volta do ano 384 AEC.

Dá ou não dá voltas esse mundo muito louco?

Afinal, Sun Tzu existiu ou não?


Estátua representando o sexto trabalho de Hércules

A despeito dos registros históricos citados neste post, ainda há muita polêmica quanto à real existência de Sun Tzu.

Tal ceticismo é alimentado por fatores que incluem discrepâncias e anacronismos históricos, bem como o elevadíssimo grau de improbabilidade de nosso herói ter executado as preferidas do rei e permanecido a seu serviço sem maiores consequências - com o quê eu concordo.

Outro fator que influencia o ceticismo é o fato de nem se saber exatamente qual era seu verdadeiro nome.

Há sites por aí que informam que ele era conhecido como Qing Chun e como Chang Qing. Outros, o ligam aos Tian (ou Chen), conforme já vimos mais acima.

Mesmo estudiosos sérios e renomados divergem a respeito da existência do Sun Tzu autor do livro A Arte da Guerra. Victor H. Mair, por exemplo, em seu Métodos Militares de Sun Tzu, apresenta argumentos contundentes de que ele jamais existiu.

Por outro lado, Ralph D. Sawyer, em sua tradução do livro, considera muito provável que o chinês, de fato, tenha existido. Também considera provável não apenas ele ter servido como general em Wu, mas ter escrito o cerne do famoso livro cuja autoria lhe é atribuída.

O que parece certo, no final das contas, é que dificilmente teremos uma resposta definitiva para esse mistério. A menos, é claro, que surjam novos e decisivos fatos arqueológicos a confirmar, ou não, a existência do Sun Tzu histórico.

Enquanto isso,vamos ficando com o que temos. Para nós não faz mesmo muita diferença ele ter ou não existido.

O que importa mesmo é que dentro em breve teremos uma ficção histórica made in Brazil sobre esta figura que, tendo ou não sido real, já merece seu lugar entre as grandes personagens da história da humanidade.

Assim como Hércules. Assim como Bonaparte.

Zài jiàn!


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Créditos e referências

Ilustrações e fotos creditadas na ordem em que aparecem no post.

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