Concubinas - histórias de prazer e sacrifício na China de ontem e de hoje

Quatro atrizes em poses sensuais encenando espetáculo sobre concubinas da dinastia chinesa Tang

Pouco tempo depois que teve a ideia de escrever um livro sobre Sun Tzu e A Arte da Guerra, publiquei um post aqui, neste mesmo bom e velho blog, sobre uma suposta passagem da vida do general chinês em que ele teria  mandado decepar as cabeças de duas das concubinas favoritas do rei de Wu.

De lá para cá, escrevi muita coisa sobre a China antiga, mas diversos assuntos, por razões diversas, acabaram não sendo abordados aqui. E é exatamente de um desses assuntos, as famosas concubinas, que vamos tratar neste texto.

Vale dizer que alguns posts anteriores, além do já citado texto sobre as mulheres do rei de Wu, trataram de assuntos que tangenciavam de alguma forma essas nossas queridas beldades.

Podemos citar, por exemplo, um sobre as mulheres exemplares, outro sobre o papel das mulheres na guerra e, ainda, diversas das odes traduzidas do famoso Shiji, o Livro das Canções.

No entanto, como está claro, tais textos apenas tangenciavam o assunto - e eventualmente.

Faltava algo mais profundo, com mais informações. Agora, finalmente, vamos conhecer um pouco mais do fascinante universo das concubinas chinesas.

Para tanto, vamos usar basicamente trechos traduzidos do artigo The secret life of an ancient concubine, de April Holloway, publicado no site Ancient Origins.

Concubinas no mundo e na China

E começo destacando o fato de que, não apenas na China antiga, mas ao longo de toda a história da humanidade nas mais diversas sociedades, inclusive com outros nomes, as concubinas sempre existiram.

Sobre isso, o artigo do Ancient Origins é cristalino:

Em muitas culturas e tradições religiosas antigas, governantes e membros de elite da sociedade não apenas tinham esposas, mas também concubinas. Elas normalmente serviam a um duplo propósito: aumentar o prestígio de um homem por meio da sua capacidade de produzir filhos e, claro, oportunidades ilimitadas para satisfazer os desejos sexuais. 
(...) A prática de tomar uma concubina remonta a milhares de anos nas civilizações da antiga Mesopotâmia e Babilônia, onde os membros da elite tomavam concubinas, muitas das quais eram escravas. No entanto, a primeira esposa sempre manteve um lugar de supermacia na família. Em algumas cidades-estado, as mulheres serviam como sacerdotisas e possuíam uma classificação social muito alta. Geralmente, essas mulheres não se casavam. Em algumas culturas da Mesopotâmia, os homens visitavam essas mulheres como prostitutas, o que a sociedade não apenas tolerava, mas considerava um cumprimento honorável do dever religioso, independentemente do estado civil do homem.

Voltando à China, o texto explica rapidamente como elas chegavam à corte:

Em muitas histórias, as concubinas eram levadas pela força e tinham suas vidas vendidas, mas esse nem sempre era o caso. Não era incomum em algumas culturas que as famílias mais pobres apresentassem suas filhas a um regente para ver se elas seriam escolhidas como concubinas. Isso muitas vezes servia ao duplo propósito de se livrar de uma boca extra para alimentar, bem como dar à filha uma vida de conforto, privilégio e proteção.

No entanto, não bastava passar a fazer parte do harém, já que

o concubinato era uma prática complexa em que as concubinas eram classificadas de acordo com seu nível de favor com o imperador. A situação das concubinas variava de pseudo-esposas bem tratadas a prostitutas mal tratadas. (...) Se uma concubina não tivesse filhos, a vida tornava-se menos agradável.

Mas a situação de uma concubina não era necessariamente imutável. Em muitos casos, havia a possibilidade de elas mudarem de status, como o texto do Ancient Origins explica:

Uma concubina poderia melhorar sua situação ao produzir um herdeiro (embora seus filhos fossem inferiores aos filhos legítimos) e poderia subir na escala social, caso caísse nas graças do governante. Um exemplo disto foi a consorte Wu. Ela era consorte e a concubina favorita do imperador Zuanzong da China. Conhecida por sua beleza, ela se elevou ao mais alto nível que uma concubina conseguiu. Depois que a esposa do imperador morreu em 724, a consorte Wu foi tratada como uma imperatriz por todos os criados que viviam no palácio.

Outro caso é o da famosa Imperatriz de Ferro, que virou até livro, sobre o qual falamos um pouco ao final deste post.

Ainda assim, essas duas mulheres foram excessão e não regra - inclusive devido ao grande número de mulheres que, segundo o site consultado, chegou a 20 mil na Cidade Probidida durante a dinastia Qing.

Vida diária de uma concubina na Cidade Proibida

Detalhe de tranca na porta dos aposentos das concubinas em um palácio chinês

Ainda de acordo com o texto do Ancient Origins, a respeito do cotidiano das concubinas imperiais, elas

eram guardadas por um número igualmente obsceno de eunucos (homens castrados) para garantir que não pudessem ficar grávidas de ninguém, a não ser do imperador.
A hierarquia interna era firme e inflexível e as consortes protegiam ferozmente seu ranking não oficial e faziam praticamente qualquer coisa para avançar. O ciúme e as discussões entre concubinas eram desenfreados e garantiam que a vida diária estava longe de ser uma vida de agradável lazer. Passar uma noite com o imperador era difícil, devido ao alto número de consortes disponíveis, de modo que as concubinas competiam ardorosamente umas contra as outras. 
Enquanto estava a serviço do palácio, nenhuma concubina podia se comunicar com o mundo exterior, pessoalmente ou mesmo por correio. Esta proibição chegou a tal ponto em que não se permitia que um médico entrasse no palácio e visse uma concubina doente. Sua doença era descrita e as prescrições adquiridas e administradas de acordo com o conselho do médico.

Por outro lado, havia algumas situações em que uma concubina poderia deixar o palácio:

Assim como o imperador poderia receber uma consorte como um presente de um governante estrangeiro, o mesmo imperador poderia escolher dar uma de suas concubinas como presente a um governante estrangeiro. No entanto, poderia argumentar-se que uma prisão tinha sido simplesmente substituída por outra. 
Algumas consortes foram autorizadas a retornar às suas famílias com uma pensão adequada após muitos anos de serviço. O período mínimo para servir foi fixado em cinco anos pelo imperador de Hongwu, em 1389. As consortes aposentadas eram livres para prosseguir uma vida normal, incluindo casar-se e estabelecer uma família. Muitas consortes muito velhas para serem úteis de alguma outra forma ao palácio imperial preferiam se tornar empregadas no palácio como criada ou buscar uma vida de monja.

Um aspecto espantoso, com requintes de crueldade mórbida, diz respeito ao fato de as consortes serem consideradas propriedade pessoal do regente. Segundo Holloway, elas

eram dele para fazer o que quisesse, o que incluia levá-las consigo para a vida após a morte. Em muitos túmulos antigos de nobres, encontramos os restos de várias mulheres de idade similar ou ligeiramente inferior enterradas perto de um único homem, um forte indicador de concubinato. As consortes imperiais eram executadas por eunucos de palácios ou optavam por se suicidar, normalmente se enforcando com um lenço de seda ou tomando veneno. 
Na primeira parte da dinastia Ming, as concubinas eram muitas vezes imoladas e enterradas em túmulos separados perto do imperador falecido. Em alguns casos, as consortes eram enterradas vivas em pé - esperando a chegada do imperador na vida após a morte.

A última concubina do último imperador da China

Os estertores finais da China imperial produziram, junto com um último imperador, também uma última concubina (pelo menos desse, vamos dizer assim, formato tradicional).

Trata-se de Li Yuqin, escravizada, segundo o texto do Ancient Origins, a partir dos 15 anos de idade (por volta de 1943),

quando a imperatriz de Pu Yi, Wan Rong, foi destruída pelo ópio, sua primeira concubina se divorciou dele e uma segunda concubina morreu em circunstâncias misteriosas. Os guardas do imperador decidiram que Pu Yi precisava de uma nova consorte e ele foi convidado a escolher com base em fotografias de estudantes locais. Ele escolheu Li Yuqin, que foi arrancada de sua casa e informada que ia ao palácio para aprender e estudar. A jovem não percebeu o que a esperava. "Porque eu pensei que fui lá para estudar, eu até levei a bolsa da escola. Eu era muito inocente então, pensando que eu poderia fugir se eu não gostasse. Na verdade, era absolutamente impossível fugir", disse Li Yuqin. 
Li permaneceu benevolente em seu julgamento de Pu Yi, e finalmente foi libertada da prisão em 1959 e enviada para trabalhar nos jardins botânicos de Pequim até a morte do imperador, sem filhos, de câncer, em 1967. "Pu Yi tem muitos aspectos, ele era tímido, suspeito, irritável ... mas como um ser humano, ele também sofreu muita dor e miséria muito mais pesada do que as pessoas comuns", disse ela.

Como deu para perceber, não apenas foi a última concubina, mas também consorte do último imperador da China - aliás, filme que infelizmente eu não assisti (ainda), mas no qual Li Yuqin não é retratada (a julgar pelos créditos disponíveis no IMDB).

Concubinas hoje, poliandria e concubinos

E se você pensa que a história acabou aí, pode ser que esteja redondamente sem noção. Pelo menos é o que deixa claro o site Facts and Details:

Sob o comunismo, as concubinas tornaram-se símbolos de corrupção e de decadência. O concubinato foi abolido pelos comunistas depois de 1949. Durante o período maoísta, as pessoas não se atreviam a ter relações extraconjugais com uma concubina, ou com qualquer outra, por medo de serem pegas e punidas. O concubinato tem retornado nos últimos anos. As mulheres jovens que se tornam concubinas costumam fazê-lo pelo dinheiro e abordam a questão como um negócio: sexo por uma vida confortável. As inteligentes economizam seu dinheiro e o investem ou iniciam negócios. Algumas acabam com todo seu dinheiro em roupas e luxos. 

O site dá ainda outra informação interessantíssima, a de que existe também "alguma poliandria entre as minorias tibetanas, Naxi e Pumi".

Não que não houvesse antes, especialmente se estamos a falar do caso da imperatriz Wu e seus concubinos. Mas deixemos de bestagem e continuemos, agora em direção à telona.

Adeus minha concubina, muito além de Cannes

Cena da peça "Adeus, minha concubina", encenada pela tradicional Ópera de Pequim

Pois é, dá pra fazer um texto sobre concubinas sem discorrer sobre o mais que famoso "Adeus, Minha Concubina"?

Acho que não. Então, vai.

O filme de Kaige Chen concorreu a meio mundo de prêmios em 1993, não ganhou o Oscar, mas levou os não menos importantes Cannes, BAFTA e Globo de Ouro - entre outros.

A sinopse a seguir, que está disponível no Filmow, dá uma boa ideia da obra:

Na Pequim de 1925, a academia "Toda Sorte e Felicidade" ensina a arte da interpretação a meninos pobres e sem lar. Um deles, Douzi (Mingwey Ma), é filho de uma prostituta. O garoto Shitou (Yang Fei) o protege e se torna seu amigo. É um lugar com um sistema de aprendizado puxado, dirigido pelo mestre Guan Jinfa (Lu Qi). Por seus traços femininos, Douzi é treinado a fazer papéis de mulher, enquanto Shitou, um tipo mais rude, papéis masculinos. Os anos passam, Douzi e Shitou aprofundam seus estudos e se tornam atores famosos da Ópera de Pequim. Cheng Dieyi (Leslie Cheung) e Duan Xiaolou (Zhang Fengyi), nomes que adotam na vida artística, continuam amigos e interpretam a peça Adeus Minha Concubina. Quando Xiaolou se apaixona pela prostituta Juxiam (Gong Li), a amizade começa a se desfazer e eles param de trabalhar juntos. Não bastasse, o exército japonês invade Pequim, Xiaolou é preso e Juxian pede a ajuda de Dieyi. É o momento para decidir se prevalecerá a amizade de Dieyi e Xiaolou ou o amor de Juxian e Xiaolou.

E acho que deu pra notar que o ponto central aí, para os nossos auspiciosos fins, é exatamente o trecho que informa que as personagens principais interpretam a peça "Adeus, Minha Concubina".

Sim, antes de ser um filme, "Adeus..." era uma peça - das mais famosas, entre as montadas pela não menos famosa Ópera de Pequim.

Segundo o informado no mesmo site China Link, a peça "retrata os últimos momentos de um proprietário de terras e de sua concubina preferida".

Tem mais: entre ser uma peça da Ópera e um filme premiado, a história da película foi um livro, de autoria da escritora Lillian Lee. Sim, "Adeus, Minha Concubina" é uma adaptação muitíssimo bem produzida.

E caso você tenha se interessado, pode ler uma resenha do livro aqui, e uma crítica do filme aqui.

Vale também mencionar, só a título de curiosidade curiosa, que o cinetoscópio elencou o filme entre os vinte e cinco melhores, dos ganhadores da Palma de Ouro em Cannes.

A concubina que criou a China moderna

Capa do livro "A Imperatriz de Ferro", de Jung Chang, sobre uma das mais famosas concubinas da China

Para (quase) finalizar, conforme prometido, vamos conhecer um pouco do livro A Imperatriz de Ferro: a concubina que criou a China moderna, de Jung Chang. Para isso, nada melhor que recorrer à sinopse disponível no site da Amazon:

Não há dúvida de que a imperatriz viúva Cixi (1835-1908) é a mulher mais importante da história chinesa. Tendo governado o país por décadas, ela hoje é considerada a principal responsável por ter conduzido o império medieval à era moderna. 
Aos dezesseis anos, numa seleção nacional para acompanhantes reais, Cixi foi escolhida para ser uma das concubinas do imperador. Quando ele morre, em 1861, é o filho de cinco anos de ambos que assume o trono. Mas a imperatriz organiza um golpe contra os regentes indicados pelo marido e passa a ser a verdadeira líder da China. 
A biógrafa Jung Chang descreve com toda vivacidade a luta de Cixi contra os enormes obstáculos que precisaram ser derrubados para mudar o império chinês. Ela foi a responsável por implantar os atributos de um Estado moderno, como a indústria, ferrovias, eletricidade e novos armamentos, e mesmo por avanços como a abolição de torturas milenares e o reconhecimento dos direitos das mulheres. A autora desmonta, portanto, a visão tradicional de que a imperatriz viúva não passava de uma déspota sanguinária e conservadora. 
Baseada em documentos fundamentais que só ficaram disponíveis recentemente, esta biografia veio para revolucionar o entendimento sobre um período crucial da história da China e do mundo. Narrado num ritmo rápido e envolvente, é tanto um panorama do nascimento de uma nação moderna como o retrato íntimo de uma grande mulher.
E para que não fique apenas no texto feito para vender da gigante amazônica aí, segue também um pedacinho do que foi publicado pela Christine Marote em nosso blog parceiro, China na Minha Vida:

Para mim, foi um livro que fez repensar o conceito que tinha de Cixi. Pelos demais livros que havia lido sobre ela, só se mostrava um lado de prazeres, gastos desnecessários e falta de competência na administração. “A Imperatriz de Ferro” mostra uma Cixi capaz de lutar pelos seus ideais e mudar a história da China. Realmente uma mão de ferro, determinada a conseguir o poder e manter o império sob seu comando. Claro que ela cometeu atos insanos também, mas que líder que, no final das contas, não comete. Ainda mais numa época em que eram dados ao Imperador o ‘poder do céu’! 
Não dá para deixar de lado o fato dela ter conseguido abrir a China para o mundo, aceitando os estrangeiros, recebendo autoridades ocidentais e dando alguns privilégios a eles. Se hoje estamos aqui, ela teve um papel nessa possibilidade de abertura. Um ‘chute inicial’, mas teve.

Se você se interessou pelo livro, dá pra comprar na Amazon, neste link. Vai lá!

Uma fonte para relaxar com sua concubina preferida (ou, os finalmentes)


Foto de uma fonte termal onde o imperador e a concubina saciavam seus desejos

Deu pra perceber que não era nada fácil a vida de uma concubina, mesmo daquelas que conseguiram se aproveitar de sua condição para ascender.

Naturalmente, ficaram de fora ainda muitas outras informações a respeito delas, inclusive sobre outras concubinas que se destacaram, como a não menos famosa Yang Guifei - paixão da vida do imperador Xuanzong (685-762).

A foto aí de cima, inclusive, tem a ver com a história de ambos. Quem sabe essa prosa não aparece por aqui num futuro qualquer?

Enquanto isso, espero que tenha gostado e que nos ajude a espalhar esse conteúdo por aí - ou pelo menos nos diga o que você achou, deixando seu comentário abaixo.

Zài jián!


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Créditos e referências

Ilustrações e fotos creditadas na ordem em que aparecem no post.

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