I Ching, o Livro das Mutações - Livro Primeiro, Hexagrama 2: K'un / O Receptivo

Imagem de K'un, o Receptivo, segundo dos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações

Esse texto faz parte da série a respeito do I Ching, o Livro das Mutações, que estamos publicando no blog semanalmente. A proposta é apresentar os textos sobre os 64 hexagramas publicados nos livros Primeiro e Terceiro do livro de Richard Wilhelm.

Para entender melhor o que é o I Ching, sugerimos dar uma olhada no post:


Para consultar o índice dos 64 hexagramas, basta acessar:


Conforme aprendemos no post do primeiro link acima, cada hexagrama inclui:

  • nome do hexagrama (卦名 guàmíng), que por si só já é repleto de simbolismos;
  • texto, também chamado julgamento ou oráculo, que revela em linguagem simbólica o significado do hexagrama e possui poucas frases, tendo a ele sido adicionados comentários e interpretações ao longo dos séculos, a fim de para ajudar o leitor a traduzir o ensinamento ancestral;
  • imagem ou símbolo, que apresenta uma mensagem adicional, com um modelo de conduta ou um conselho estratégico para lidar com a situação indicada pelo hexagrama; e
  • Os textos das linhas, em número de seis, indicam alternativas ou transformações possíveis das condições retratadas no hexagrama.

Além disso, antes de entrar nos detalhes acima, há uma espécie de introdução que está identificada como "nota do autor".

E isso é basicamente tudo que você precisa saber para continuar. E boa leitura!

Livro Primeiro (o Texto), Hexagrama 2: K'un / O Receptivo



Nota do autor

Este hexagrama se compõe de seis linhas abertas. A linha aberta representa o poder primordial obscuro, maleável e receptivo de Yin. O atributo do hexagrama é a devoção e sua imagem, a terra.

É o perfeito complemento do Criativo, a contraparte, não seu oposto, pois o Receptivo não combate o Criativo, mas o completa. Representa a natureza em contraste com o espírito, a terra em contraste com o céu, o espaço em contraste com o tempo e o feminino-maternal em contraste com o masculino-paternal.

Aplicado ao âmbito humano o princípio dessa relação complementar encontra-se tanto nas relações entre homem e mulher quanto entre príncipe e ministro, e entre pai e filho. Mesmo no interior do indivíduo esta realidade aparece na coexistência do mundo espiritual com o mundo dos sentidos.

Não se deve, entretanto, ver aqui um real dualismo, pois existe entre os dois princípios um relacionamento claramente definido em termos hierárquicos. O Receptivo em si é, evidentemente, tão importante quanto o Criativo, mas o atributo da devoção define a posição desse poder primordial em relação ao Criativo.

O Receptivo deve ser ativado e dirigido pelo Criativo, quando, então, produzirá resultados benéficos. Só quando abandona essa posição e tenta colocar-se ao lado do Criativo como um ser igual torna-se nefasto.

A consequência seria, então, oposição e luta contra o Criativo, trazendo infortúnio para ambos.

Julgamento


O RECEPTIVO traz sublime sucesso, propiciando através da perseverança de uma égua.
Se o homem superior empreender algo e tentar dirigir, ele se desviará; porém se ele seguir, encontrará orientação.
É favorável encontrar amigos a oeste e ao sul, evitar amigos a leste e ao norte.
Uma perseverança tranquila traz boa fortuna.

Os quatro aspectos fundamentais do Criativo - "sublime sucesso, favorecido através da perseverança" - são também atribuídos ao Receptivo. Aqui, porém, a perseverança é definida com maior precisão como sendo a de uma égua.

O Receptivo designa a realidade espacial em contraste com a potencialidade espiritual do Criativo. O potencial torna-se real e o espiritual torna-se espacial através de uma definição especificamente qualificativa que limita e individualiza.

Por isso a qualificação "de uma égua" é adicionada à idéia de "perseverança". O cavalo pertence à terra como o dragão ao céu.

Percorrendo incansavelmente a vastidão das planícies, o cavalo simboliza a imensa extensão da terra. A égua foi escolhida como símbolo porque combina a força e a agilidade do cavalo com a docilidade e a devoção da vaca.

É apenas porque a natureza, em suas incontáveis formas, corresponde aos incontáveis impulsos do Criativo, que ela pode realizá-los. A riqueza da natureza jaz em seu poder de alimentar todos os seres, e sua grandeza em seu poder de lhes conceder beleza e esplendor.


Assim ela faz prosperar tudo que vive.

Enquanto o Criativo gera os seres, estes são partejados pelo Receptivo. Aplicado ao âmbito humano o hexagrama indica que se deve agir em conformidade com a situação.

Trata-se aqui de alguém que não se encontra numa posição independente, e sim atuando como assistente. Isso significa que ele deve realizar algo.

Não é sua tarefa tentar dirigir - isso apenas o desviaria de seu caminho - e sim se deixar conduzir. Se ele souber enfrentar o destino com uma atitude de aceitação, certamente encontrará a orientação correta.

Aqui o homem superior se deixa conduzir. Não avança às cegas, mas aprende a ver nas circunstâncias o que se espera dele, seguindo então esta exigência do destino.

Já que se deve realizar algo, são necessários auxiliares e amigos na hora do trabalho e do esforço, quando as idéias a serem cumpridas estiverem firmemente estabelecidas. O tempo do trabalho e do esforço é indicado pelo oeste e pelo sul, pois o sul e o oeste simbolizam o lugar onde o Receptivo trabalha para o Criativo - como a natureza no verão e no outono.

Se todas as forças não forem reunidas, o trabalho a ser realizado não será efetuado. Por isso encontrar amigos significa, aqui, realizar uma tarefa.

Mas além do trabalho e do esforço há também um tempo de planejar, e para isso se requer solidão. O leste simboliza o lugar em que um homem recebe ordens de seu mestre e o norte, o lugar em que presta contas do que realizou.

Neste momento ele precisa estar só e ser objetivo. Nesta hora sagrada ele deve evitar os companheiros, para que a pureza do momento não seja maculada pelo ódio e pela parcialidade.

Imagem


A condição da terra é a devoção receptiva.
Assim o homem superior com sua grandeza de caráter sustenta o mundo externo.

Assim como só existe um céu, existe apenas uma terra.

No hexagrama do céu a repetição do trigrama significa duração no tempo; no hexagrama da terra essa repetição de seu trigrama significa a extensão no espaço e a firmeza com que a terra sustenta e preserva tudo o que vive e se move sobre ela.

Em sua devoção, a terra sustenta, sem exceção, todas as coisas, boas e más.

Assim, o homem superior torna seu caráter amplo, puro, resistente, de modo a poder dar apoio aos homens e às coisas.

Textos das linhas


Pés de uma estátua cobertos por geada - ilustrando a seção sobre textos das linhas de K'un, o Receptivo - segundo dos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações

Linha móvel na primeira posição


Seis na primeira posição significa:
Quando se caminha pela geada,
o gelo sólido não estará longe.

Assim como o poder luminoso representa a vida, o poder obscuro e sombrio representa a morte. No outono, quando cai a primeira geada, o poder da escuridão e do frio começa a manifestar-se.

Depois dos primeiros indícios, os sinais da morte irão se multiplicando gradualmente, segundo leis imutáveis, até que chegue o rígido inverno com seu gelo.

O mesmo acontece na vida. A decadência surge, ao início sugerida através de sinais apenas perceptíveis, para em seguida se avolumar até a chegada da dissolução final.

Porém, na vida podem-se tomar precauções, se houver atenção aos primeiros sinais de decadência, evitando-a a tempo.

Linha móvel na segunda posição


O Seis na Segunda posição significa:
Reto, quadrado, grande.
Sem propósito, porém, nada permanece desfavorecido.

O símbolo do céu é o círculo; o da terra, o quadrado. Logo, o quadrangular é a qualidade primordial da terra.

Por outro lado, o movimento retilíneo ou de primeira grandeza é também a primeira qualidade do Criativo. Todas as figuras planas têm sua origem na linha reta e formam, por sua vez, as figuras sólidas.

Quando em matemática se estabelecem distinções entre linhas, planos e sólidos, verifica-se que das linhas retas resultam figuras sólidas. O Receptivo orienta-se segundo as propriedades do Criativo e as incorpora.

Assim o quadrado provém da linha reta e o cubo, do quadrado. Isso significa a simples devoção às leis do Criativo, sem nada acrescentar ou retirar.

Por isso o Receptivo não requer nenhum propósito e nenhum esforço especial, e tudo se desenrola da maneira adequada.

A natureza cria os seres sem erros, mostrando-se assim retilínea. Ela é tranquila e silenciosa, essa é a sua condição quadrangular. A todos dá apoio com equanimidade, essa é a sua grandeza.

Por isso ela atinge o que é justo para todos, sem artifícios, sem propósitos particulares. O homem atinge a culminância da sabedoria quando todas as suas ações tornam-se tão auto-evidentes em si mesmas quanto as da natureza.

Linha móvel na terceira posição



Seis na terceira posição significa:
Linhas ocultas. Alguém é capaz de permanecer perseverante.
Se acaso você está a serviço de um rei,
não procure trabalhos, porém leve à conclusão.

Se um homem está livre de vaidade, será capaz de ocultar suas habilidades de modo a não atrair a atenção cedo demais. Assim poderá atingir a maturidade em paz.

Se as circunstâncias o exigirem, ele poderá entrar na vida pública, porém de forma discreta.

O sábio deixa de bom grado a fama a outros. Ele procura liberar forças eficazes, sem se preocupar em ter atribuído a si os méritos do trabalho já realizado, isto é, ele completa suas obras de modo a serem frutíferas para o futuro.

Linha móvel na quarta posição


Seis na quarta posição significa:
Saco amarrado. Nenhuma culpa. Nenhum elogio.

O princípio da escuridão abre-se quando em movimento e fecha-se quando em repouso. A mais rigorosa reserva é aqui indicada.

O momento é perigoso; qualquer sinal de proeminência levará à animosidade por parte de adversários mais fortes caso o homem os desafie, ou a um falso reconhecimento baseado numa incompreensão, caso seja complacente.

Ele deve, portanto, manter a reserva, seja na solidão ou no turbilhão do mundo, pois, também aí, poderá ocultar-se de modo a passar desapercebido.

Linha móvel na quinta posição


Seis na quinta posição significa:
Roupa de baixo amarela traz suprema boa fortuna.

O amarelo é a cor da terra e do centro, o símbolo do que é autêntico e digno de confiança. A roupa de baixo é discretamente adornada, símbolo de aristocrático recato.

Quando alguém é chamado a atuar numa posição de destaque, porém, não independente, o verdadeiro sucesso dependerá de rigorosa discrição.

A autenticidade e o refinamento não devem destacar-se diretamente, porém devem expressar-se apenas de modo indireto como um efeito que surge do interior.


Linha móvel na sexta posição


Seis na sexta posição significa:
Dragões lutando no prado.
Seu sangue é negro e amarelo.

No ponto mais alto, o obscuro deve ceder ao luminoso. Se tentar manter uma posição que não lhe corresponde e, ao invés de servir, pretender dirigir, atrairá sobre si a ira do forte.

O resultado é uma luta na qual o obscuro será derrubado, porém com prejuízos para ambas as partes.

O dragão, símbolo do céu, vem combater o falso dragão que simboliza a atitude pretensiosa do princípio terrestre.

O azul-noite é a cor do céu, o amarelo é a cor da terra. Quando, portanto, o sangue negro e amarelo é derramado, isso indica que nessa luta antinatural os dois poderes primordiais sofrem dano.

Linhas móveis em todas as posições


Quando todas as linhas são seis, isso significa:
A perseverança constante é favorável.

Quando se tem apenas seis, o hexagrama do Receptivo transforma-se no hexagrama do Criativo.

Permanecendo firme no que é correto, conquista-se o poder da perseverança. Não há nenhum progresso, mas também nenhum retrocesso.

Depois de tudo

E aqui alcançamos o final do texto sobre o hexagrama K'un / O Receptivo, da primeira parte do livro I Ching, o Livro das Mutações.

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Para consultar o índice dos hexagramas, clique:


Próximo hexagrama:
  • 3. Chun / Dificuldade Inicial

Hexagrama anterior:

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Créditos e referências

Ilustrações e fotos creditadas na ordem em que aparecem no post.

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