I Ching, o Livro das Mutações e os segredos do oráculo chinês

3 Hexagramas, com seu nome em inglês, do I Ching, o Livro das Mutações

É praticamente impossível, para alguém que tem o mínimo de interesse pela China, não se deparar em algum momento com um dos mais antigos sistemas oraculares do mundo, o I Ching, o Livro das Mutações.

Mesmo quem não está nem aí para o país asiático, não tem como escapar do assunto - que penso ser mais famoso que o horóscopo chinês, o calendário chinês e o ano novo chinês.

Eu, então, que escrevo sobre as coisas da China especialmente relacionadas a Sun Tzu e A Arte da Guerra há algum tempinho, já estava mais que devendo um texto sobre o famoso oráculo.

Na verdade, sabia que era importante conhecer mais o I Ching, uma vez que desde os primórdios da China ele era parte essencial da cultura, com soberanos e personalidades das mais diversas estirpes, vez ou outra, apelando aos seus préstimos.

Um deles, no entanto, não parece ter sido o Sun Tzu. Aliás, tenho certeza de que você se lembra de sua famosa frase:

Proíbe os augúrios para evitar as dúvidas, e os soldados nunca te abandonarão.

Por outro lado, Confúcio parece não apenas ter recebido influência do I Ching, mas também influenciado seu desenvolvimento.

Mas o que vem a ser mesmo esse negócio?

Aqui, vale uma espiadinha no que o site da Superinteressante publicou a respeito do assunto:

O I Ching é a base da sabedoria chinesa, um conjunto de estudos que analisa o mundo e o homem, passando por astronomia, matemática, fenômenos, etc. O Livro das Mutações é a obra sagrada e milenar sobre esse ensinamento, que tem como um dos objetivos o autoconhecimento. É mais famoso no mundo ocidental por ser um oráculo (ensina dois rituais, um com moedas e outro com varetas para que o leitor o consulte com perguntas), o que de fato é, mas não apenas.

Claro, isso aí é só o começo. Ao longo deste post, vamos passear um pouco pela história do I Ching, na primeira parte, e entender um pouco mais seu conteúdo e sua utilização como oráculo, na segunda parte.

Junto com o texto, como sempre, há muitos links onde poderá obter mais informações complementares sobre o Livro das Mutações e, ao final, dicas de livros para se aprofundar no assunto.

Espero que seja do seu agrado… Vem comigo!

A história do I Ching



O mais antigo dos Cinco Clássicos chineses possui uma história de mais de dois milênios e meio, sendo influente e lido em todo o mundo, fornecendo inspiração para os mundos da religião, psicanálise, negócios, literatura e arte - para dizer o mínimo.

Em sua origem, tratava-se de nada mais que um manual de adivinhação, tendo sido transmutado com o passar do tempo em um texto cosmológico com uma série de comentários filosóficos conhecidos como as Dez Asas - sobre as quais escrevemos um pouco mais adiante.

O núcleo do I Ching é um texto de adivinhação da dinastia Zhou Ocidental chamado Zhou Yi - ou, as Mudanças de Zhou, no bom e velho mandarim -, sendo que um texto muito parecido com a forma atual já existia entre os séculos X e IV AEC.

Tradicionalmente, o Zhou Yi foi atribuído aos heróis culturais Rei Wen de Zhou e Duque de Zhou, mas também foi associado ao lendário Fu Xi, que teria observado os padrões do mundo e criado os oito trigramas (bāguà), segundo o principal textos das Dez Asas,

para se familiarizar completamente com o numinoso e brilhante e para classificar a miríade de coisas.

O Clássico dos Ritos afirma que os hexagramas do Zhou Yi foram derivados de um conjunto inicial de oito trigramas - assim como na lenda de Fu Xi. No entanto, ao longo da dinastia Han houve diversas opiniões sobre a relação histórica entre os trigramas e os hexagramas.

As narrativas dos Anais da Primavera e Outono de Zuo Zhuan e do Guoyu contêm as mais antigas descrições de adivinhação usando o Zhou Yi. Ambos os textos descrevem mais de vinte doutrinas conduzidas por adivinhos profissionais para famílias reais, entre 671 AEC e 487 AEC.

Uma delas, inclusive, está representada no post que publicamos aqui sobre Tian Wan, um provável ancestral de Sun Tzu.

Em relação à autoria, eventualmente um consenso se formou em torno da tese do acadêmico Ma Rong, do século II EC, que atribuiu o Zhou Yi a um trabalho conjunto, mas obviamente não concomitante, de Fu Xi, do Rei Wen de Zhou, do Duque de Zhou e de Confúcio - atribuição que já não é geralmente aceita.

Em 136 AEC - influenciado por um amplo leque de influências culturais que incluíam o confucionismo, o taoísmo, o legalismo, a cosmologia do yin-yang e a teoria física Wu Xing -, o Imperador Wu de Han nomeou o Zhou Yi “o primeiro dentre os clássicos”, dando-lhe o nome de Clássico das Mudanças ou I Ching - que hoje em dia é mais conhecido no Brasil com o nome Livro das Mutações.

A edição oficial do texto foi literalmente canonizada em pedra, como um dos clássicos de pedra Xiping. O I Ching canonizado tornou-se o texto padrão por mais de dois mil anos, até versões alternativas do Zhou Yi e textos relacionados serem descobertos no século 20.

O I Ching e as Dez Asas (ou: voar, voar… subir, subir…)


Painel com os 8 trigramas do I Ching, o Livro das Mutações, ao redor do símbolo de yin-yang
Parte da canonização do Zhou Yi ligou-o a um conjunto de comentários chamados Dez Asas - produzidos muito tempo depois do Zhou Yi, mas que reflete um reconhecimento generalizado na China antiga, encontrado no Zuo Zhuan e em outros textos pré-Han, de que o I Ching era um rico documento moral e simbólico, útil para mais do que mera adivinhação.

Na Minhateca há uma relação sintética delas, que reproduzo a seguir (de forma ainda mais sintética):

  1. T’uan Chuan, Comentários Sobre os Julgamentos, parte I;
  2. T’uan Chuan, parte II;
  3. Hsiang Chuan, Comentários Sobre as Imagens, parte I;
  4. Hsiang Chuan, parte II;
  5. Hsi Tz’u ou Ta Chuan, o Grande Comentário, parte I;
  6. Hsi Tz’u ou Ta Chuan, parte II;
  7. Wên Yen, Comentários Sobre as Palavras do Texto;
  8. Shuo Kua, Discussão dos Trigramas;
  9. Hsu Kua,Sequência ou Ordem dos Hexagramas; e
  10. Tsa Kua, Coletânea de Indicações.

Provavelmente, as mais importantes das Dez Asas são as que formam o chamado Grande Comentário (5 e 6), que data de cerca de 300 AEC. Ele apresenta o I Ching como um microcosmo do universo e uma descrição simbólica dos processos de mudança e explica como os oito trigramas procediam da eterna unidade do universo através de três bifurcações.

Ainda segundo o Grande Comentário, ao participar da experiência espiritual do I Ching o indivíduo pode entender os padrões mais profundos do universo - será que a pessoa meio que se transforma num Dr. Manhattan?

Pense nisso!

As Dez Asas eram tradicionalmente atribuídas a Confúcio, possivelmente devido a uma leitura errada dos Registros do Grande Historiador. Entretanto, em que pese esse pequeno detalhe, a associação de Confúcio com o I Ching deu peso ao texto, especialmente no período das dinastias Han e Tang.

O I Ching na dinastia Han Oriental



Durante a Dinastia Han Oriental, (25 EC a 220 EC) a interpretação do I Ching foi dividida em duas escolas, a partir de uma disputa sobre pequenas diferenças entre as diferentes edições do texto recebido.

A primeira escola, conhecida como Crítica do Novo Texto, era mais igualitária e eclética, e procurou encontrar paralelos simbólicos e numerológicos entre o mundo natural e os hexagramas. Seus comentários serviram de base para a Escola de Imagens e Números.

A outra escola, a Crítica do Velho Texto, era mais acadêmica e hierárquica, e focada no conteúdo moral do texto, servindo de base para a Escola de Significados e Princípios.

Os estudiosos do Novo Texto distribuíram versões alternativas do texto e integraram livremente comentários não-canônicos em seu trabalho, além de propagar sistemas alternativos de adivinhação como o Tai Xuan Jing.

Com a queda dos Han, os estudos de I Ching deixaram de ser organizados em escolas sistemáticas. O escritor mais influente desse período pós-Han foi Wang Bi, que descartou a numerologia dos comentadores Han e integrou a filosofia das Dez Asas diretamente no texto central do I Ching, criando uma narrativa tão persuasiva que os comentaristas Han não eram mais considerados significativos.

Um século depois, Han Kangbo acrescentou comentários sobre as Dez Asas ao livro de Wang Bi, criando um texto chamado Zhouyi Zhu. A principal interpretação rival foi um texto prático sobre adivinhação editado por pelo adivinho Guan Lu.

O I Ching nas Dinastias Tang e Song


Capa do livro Zhou Yi, sobre o I Ching, o Livro das Mutações
No início da Dinastia Tang (618 a 907) o Imperador Taizong ordenou a Kong Yingda a criação de (mais) uma edição canônica do I Ching. Escolhendo o Zhouyi Zhu do século III como comentário oficial, ele acrescentou um comentário adicional, desenhando os níveis mais sutis das explicações de Wang Bi, e criando o Zhouyi Zhengi.

Ainda no período dos Tang, tornou-se amplamente utilizado outro método de adivinhação, empregando moedas, que ainda é usado hoje em dia.

Durante o período da Dinastia Song (960 a 1.279 EC), o Zhouyi Zhengi veio a tornar-se a edição padrão do I Ching, que estava sendo lido como um trabalho de filosofia intrincada, um ponto de partida para examinar grandes questões metafísicas e éticas. Cheng Yi, patriarca da escola neo-confucionista Cheng-Zhu, leu o I Ching como um guia para a perfeição moral.

Ele descreveu o texto como uma maneira de os ministros formarem facções políticas honestas, erradicar a corrupção e resolver problemas no governo. O estudioso Shao Yong, contemporâneo de Cheng Yi, reorganizou os hexagramas em um formato que se assemelha aos números binários modernos, embora ele não pretendesse que seu arranjo fosse usado matematicamente.

O I Ching e a escola Neo-confucionista



Zhu Xi,neo-confucionista do século XII e co-fundador da escola Cheng-Zhu, rejeitou ambas as escolas do I Ching da Dinastia Han, propondo que o texto era uma obra de adivinhação, não de filosofia.

E apesar de ainda o considerar útil para a compreensão das práticas morais dos antigos, sua contribuição foi mesmo na linha profética. A reconstrução de Zhu Xi da adivinhação com talos de milefólio, baseada em parte no texto do Grande Comentário, das Dez Asas, tornou-se a forma padrão e ainda está em uso em pleno século XXI.

À medida em que a China entrou no início do período moderno, o I Ching assumiu uma relevância renovada no estudo confucionista e taoista. O Imperador de Kangxi gostava especialmente do I Ching e ordenou novas interpretações dele.

Os eruditos da dinastia Qing concentraram-se mais intensamente na compreensão da gramática pré-clássica, auxiliando o desenvolvimento de novas abordagens filológicas no período moderno.

O I Ching na Coréia e no Japão


Bandeira da Coréia, com seus 4 característicos trigramas do I Ching, o Livro das Mutações
Em 1557, o neo-confucionista coreano Yi Hwang produziu um dos mais influentes estudos de I Ching do início da era moderna, no qual alegava que o espírito era um princípio (li) e não uma força material (qi). Hwang acusou a escola neo-confucionista de ter interpretado mal Zhu Xi e sua crítica provou-se influente não só na Coréia, mas também no Japão.

Além desta contribuição, o I Ching não foi central para o desenvolvimento do confucionismo coreano e, no século XIX, os estudos sobre a obra foram integrados no movimento de reforma do Silhak.

No Japão medieval, ensinamentos secretos sobre o I Ching foram divulgados pelo mestre Rinzai Zen Kokan Shiren e pelo xintoísta Yoshida Kanetomo. Os estudos do texto no Japão assumiram uma nova importância no período Edo, durante o qual mais de mil livros de mais de 400 autores foram publicados sobre o assunto.

A maioria destes livros eram trabalhos sérios da filologia, reconstruindo usos e comentários antigos para finalidades práticas, embora uma minoria considerável estivesse focada em numerologia, simbolismo e adivinhação. Durante este tempo, mais de 150 edições de comentários chineses anteriores foram reimpressas no Japão, incluindo vários textos que se perderam na China.

No início do período Edo, escritores como Itō Jinsai, Kumazawa Banzan e Nakae Toju classificaram o I Ching como o maior dos clássicos confucionistas. Muitos autores tentaram, ainda, usar o I Ching para explicar a ciência ocidental.

Um escritor, Shizuki Tadao, até tentou empregar a mecânica newtoniana e o princípio copernicano dentro de uma cosmologia de I Ching. Esta linha de argumento foi retomada mais tarde na China por Zhang Zhidong, oficial e erudito da Dinastia Qing.

O I Ching na Europa e no mundo moderno



Leibniz (sim, o famoso matemático), se correspondia com jesuítas na China e escreveu o primeiro comentário europeu sobre o I Ching em 1703, argumentando que provava a universalidade dos números binários e do teísmo (mas não vamos entrar nesses detalhes aqui).

Na sequência, foi criticado por Hegel, que proclamou que o sistema binário e caracteres chineses eram “formas vazias” que não conseguiam articular as palavras faladas com a clareza do alfabeto ocidental - seja lá o que ele quis dizer sobre isso.

No século XX, Jacques Derrida identificou o argumento de Hegel como logocêntrico, mas aceitou sem questionar a premissa de que a língua chinesa não pode expressar idéias filosóficas.

Depois da Revolução Xinhai, o I Ching deixou de fazer parte da filosofia política chinesa, mas manteve a influência cultural como o texto mais antigo da China. Tomando emprestado de Leibniz, escritores chineses ofereceram paralelos entre o I Ching e assuntos como álgebra linear e lógica em ciência da computação, com o objetivo de demonstrar que a antiga cosmologia chinesa havia antecipado as descobertas ocidentais.

O sinologista Joseph Needham tomou a posição oposta, argumentando que o I Ching tinha de fato impedido o desenvolvimento científico, incorporando todo o conhecimento físico em sua metafísica. O psicólogo Carl Jung interessou-se pela possível natureza universal das imagens do I Ching, e introduziu uma influente tradução alemã de Richard Wilhelm, discutindo suas teorias de arquétipos e sincronicidade.

Jung escreveu:

Mesmo para o olho mais preconceituoso, é óbvio que este livro representa uma longa admoestação ao escrutínio cuidadoso do próprio caráter, atitude e motivos.

O livro teve um impacto notável na contracultura de 1960 e em personalidades culturais do século XX, tais como Philip K. Dick, João Cage, Jorge Luis Borges e Herman Hesse. Por outro lado, o período moderno também trouxe um novo nível de ceticismo e rigor para os estudos de I Ching.

Li Jingchi passou várias décadas produzindo uma nova interpretação do texto, que foi publicado postumamente em 1978. Gao Heng, um especialista na China pré-Qin, reinvestigou seu uso como um oráculo da dinastia Zhou. Edward Shaughnessy propôs uma nova data para os vários estratos do texto.

Novas descobertas arqueológicas permitiram um nível mais profundo de entendimento sobre como o texto foi usado nos séculos anteriores à dinastia Qin. Os proponentes das recém-reconstruídas leituras da Dinastia Zhou Ocidental, que muitas vezes diferem grandemente das leituras tradicionais do texto, são às vezes chamados de “escola modernista”.

Entendendo o I Ching e seus hexagramas


Relação dos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações

O I Ching usa um tipo de divinação chamada cleromancia, que produz números aparentemente aleatórios.

Quatro números, de 6 a 9, são transformados em um hexagrama (卦 guà), que pode então ser procurado no livro I Ching, organizado na ordem conhecida como Seqüência do Rei Wen - assim chamada em alusão ao rei Wen de Zhou, que fundou a dinastia Zhou e supostamente reformou o método da interpretação.

O hexagrama, a unidade básica do Zhou Yi, é uma figura composta por seis linhas horizontais empilhadas (爻 yáo), sendo que cada linha pode estar quebrada ou ininterrupta. A Seqüência agrupa os hexagramas em pares, cada um com seu equivalente de cabeça para baixo, embora em oito casos os hexagramas sejam emparelhados com seus inversos.

A tabela a seguir lista os hexagramas (verdes) na Sequência do Rei Wen, mas fique sabendo que a atribuição de números, binários ou decimais, a hexagramas específicos é uma invenção moderna.

O mais antigo manuscrito conhecido, encontrado em 1987 e agora mantido pela Biblioteca de Xangai, foi quase certamente organizado na seqüência de King Wen.

Embora não pareça evidente que a ordem dos hexagramas tenha sido de interesse especial aos autores originais do Zhou Yi, e atualmente se utilize a sequência acima, outra ordem, encontrada em Mawangdui em 1973, organiza os hexagramas em oito grupos compartilhando o mesmo trigrama superior.

Os hexagramas e seus elementos



O texto recebido do Zhou Yi contém todos os 64 hexagramas possíveis, que revelam em detalhes as 64 etapas dos ciclos universais do céu e da terra, de acordo com a visão dos chineses antigos.

Constantino K. Riemma, no site I Ching, nos ensina que cada hexagrama inclui:

  • O nome do hexagrama (卦名 guàmíng), que por si só já é repleto de simbolismos;
  • O texto, também chamado julgamento ou oráculo, que revela em linguagem simbólica o significado do hexagrama e possui poucas frases, tendo a ele sido adicionados comentários e interpretações ao longo dos séculos, a fim de para ajudar o leitor a traduzir o ensinamento ancestral;
  • A imagem ou símbolo, que apresenta uma mensagem adicional, com um modelo de conduta ou um conselho estratégico para lidar com a situação indicada pelo hexagrama; e
  • Os textos das linhas, em número de seis, indicam alternativas ou transformações possíveis das condições retratadas no hexagrama.

Como exemplo, vamos usar o texto do Livro Primeiro, da tradução de Richard Wilhelm, para o hexagrama de número 11:

O julgamento seria:

PAZ.
O pequeno parte, o grande se aproxima.
Boa fortuna.Sucesso.

A imagem:

Céu e terra unem-se:
a imagem da PAZ. Assim o governante divide e completa o curso do céu e da terra, favorece e regula os dons do céu e da terra e desta forma ajuda ao povo.

As linhas, de 1 a 6:

Nove na primeira posição significa:
Quando se arranca uma folha de grama,
junto vem o torrão.
Cada qual de acordo com sua espécie.
Empreendimentos trazem boa fortuna.

Nove na segunda posição significa:
Suportar gentilmente os incultos,
atravessar o rio com decisão,
não negligenciar o longínquo,
não privilegiar os companheiros.
Assim se poderá trilhar o caminho do meio.

Nove na terceira posição significa:
Não há planície que não seja seguida por uma escarpa.
Não há partida que não seja seguida por um retorno.
Aquele que se mantém perseverante quando em perigo
permanece sem culpa.
Não lamenta essa verdade:
usufrua a boa fortuna que ainda possui.

Seis na quarta posição significa:
Ele deve voando sem se vangloriar de sua riqueza.
Junto a seu próximo, sincero e sem malícia.

Seis na quinta posição significa:
O soberano concede sua filha em casamento.
Isso traz bênçãos e suprema boa fortuna.

Seis na sexta posição significa:
A muralha cai novamente no fosso.
Não use o exército agora.
Proclame suas ordens em sua própria cidade. A perseverança traz humilhação.

E, além de uma nota do autor para o hexagrama, cada item acima tem um texto adicional, que se pretende explicativo, como o seguinte, referente ao texto da linha 6:

Começou a ocorrer a mudança mencionada no meio do hexagrama. A muralha da cidade cai novamente no fosso do qual tinha sido erguida. Sobrevêm o desastre. Agora o homem deve se submeter ao destino, e não pretender detê-lo através de uma resistência violenta.

O único recurso restante é resguardar-se em seu círculo mais íntimo. Se quisesse, como de costume, perseverar na resistência ao mal, o colapso seria ainda mais completo, levando à humilhação.

Basicamente, quando se faz uma consulta ao I Ching, o acaso escolhe um hexagrama e alguém interpreta toda essa treta aí de cima, a respeito do hexagrama em questão.

Tá bom, Gameirinho, mas como eu consulto o I Ching? Resposta: olhe para baixo!

Como consultar o I Ching


Moedas usadas para consultar o I Ching, o Livro das Mutações
Embora atualmente também se usem métodos alternativos, como dados especiais e cartomancia, a forma mais comum de adivinhação com o I Ching em uso hoje é uma reconstrução dos métodos descrito nas histórias do Zuo Zhuan, no Grande Comentário das Dez Asas, no Huainanzi e no Lunheng.

A partir da descrição do Grande Comentário, o neo-confucionista Zhu Xi reconstruiu um método de adivinhação com talos de milefólio (ou varetas) que ainda é usado em todo o Extremo Oriente. No período moderno, Gao Heng tentou sua própria reconstrução, diferente da de Zhu Xi.

Muitos entendidos no assunto, baseados nos métodos acima referenciados, fazem a consulta com o lançamento de moedas.

Como objetivo desse post não é entrar nos detalhes, digamos, místicos do I Ching, mas apenas apresentar o mais didaticamente possível a história e as principais características do Livro das Mutações, vamos apenas reproduzir um breve texto sobre como consultar o I Ching, utilizando o lançamento das moedas, direto do site Personare:

A pessoa formula uma pergunta precisa, sobre algum esclarecimento do qual tem curiosidade em saber. Depois disso, são lançadas moedas para a obtenção da resposta. Estes instrumentos são agrupados seis vezes, formando linhas, também chamadas de hexagramas - que podem ser firmes ou maleáveis/mutáveis. Linhas firmes ocorrem quando as moedas caem em lados diferentes. Quando caem todas do mesmo lado, dá-se a linha mutável - a ocorrência de uma linha como essa, ou mais, cria um novo hexagrama, representando o que acontecerá no futuro em relação à pergunta feita pelo consulente.

Cada uma dessas linhas sorteadas contém um significado específico baseado no princípio da dualidade Ying e Yang, através do qual compreendemos que não existe bom ou mau, positivo ou negativo, mas uma complementaridade entre opostos. A ideia é equilibrar tudo que existe ao nosso redor.

Para entender como é a consulta ao I Ching usando varetas, vale fazer uma visita a este link. Este outro link também explica o uso das varetas, além de detalhar como usar as moedas.

Se você entende de inglês, pode dar uma olhada nos vídeos a seguir, disponíveis também no site do Lars Bo Christensen:




Conhece a ti mesmo e aos demais

Como deu para notar, há pelo menos duas maneiras de olhar para o I Ching, o Livro das Mutações:

  • A primeira, é como um tratado filosófico-espiritual, onde se encontram ensinamentos da milenar sabedoria chinesa;
  • A segunda, um oráculo puro e simples, como o tarô ou os búzios (mal comparando, talvez).

Há também a possibilidade de ignorar por completo a obra chinesa mais lida em todo o mundo - o que de fato a maioria das pessoas faz - e deixar passar uma oportunidade de conhecer mais a fundo o pensamento chinês.

Para nós, pessoas comuns, não há problema.

Mas se eu tivesse que lidar com os chineses, seja no âmbito governamental, seja no âmbito comercial, sem dúvida tentaria entender melhor essa ideia que está embrenhada na mente coletiva chinesa, tanto quanto o taoismo e o confucionismo.

Como diz uma das famosas frases de Sun Tzu:

Quando conheces a ti mesmo e conheces os demais, a vitória não é um perigo; quando conheces o céu e a terra, a vitória é inesgotável.

Zài Jiàn!

Livros sobre I Ching, o Livro das Mutações

Preparei uma lista de livros que podem ser úteis a quem quiser se aprofundar no assunto. O primeiro é o grande clássico moderno, a partir do qual deriva parte significativa dos demais livros e conteúdos sobre o I Ching.





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Créditos e referências

Ilustrações e fotos creditadas na ordem em que aparecem no post.

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