Zhaozi, o senhor dos aneis e Miriam Leitão da China antiga

Eclipse solar, em forma de anel, ao fundo de uma paisagem em que um homem está de pé em um morro

Se você leu o post da retrospectiva 2015, publicado em janeiro deste ano, talvez não tenha entendido um comentário que fiz sobre personagens do livro. Na ocasião, informei ter me aprofundado um pouco mais em textos sobre as

personagens que (provavelmente) fariam parte do meu livro.

Lá não deixei muito claro, mas acontece o seguinte: quando comecei essa história de escrever um livro inspirado em Sun Tzu e seu famoso A Arte da Guerra, inicialmente me ocorreu o óbvio, contar uma história em treze capítulos, representando a ideia central de cada um dos capítulos originais do tratado chinês.

Felizmente, essa ideia durou pouco tempo e me concentrei no pouco que se sabe sobre sua atuação na província de Wu, pela qual Sun Tzu ficou famoso. Tive bastante dificuldade de inseri-lo na história, o que me levou a mudar o foco para seu suposto local de nascimento e sua vida antes da fama.

Uma nova esperança perspectiva

Assim, pesquisei muito sobre Qi e as principais personagens que poderiam fazer parte da história que escrevo. O resultado foram diversos posts sobre a província e também, como você pode ver nesse link aí de cima, a respeito dessas personagens.

Ocorre que essa nova perspectiva também me levou a um beco sem saída, de modo que resolvi estreitar o foco. Nem a história de antes da fama, nem toda a história dele em Wu.

Escreverei (assim espero... hehe) tão somente com base na campanha final de Wu contra Yue, que resultou na derrota desta última - e você pode saber mais a respeito no vídeo que está publicado neste link.


Claro que muito do que pesquisei para as outras possíveis histórias acabará sendo aproveitado, essencialmente como flashes do passado que ajudarão a contextualizar e enriquecer as coisas. Aliás, falando em aproveitar, é o que estou fazendo a respeito de Zhaozi.

Esse texto abaixo já estava escrito desde o fim de 2015 e é o último da série de posts sobre as personagens de Qi e Lu, que fariam parte do livro caso a segunda ideia tivesse prosperado.

Sendo assim, divirta-se, enquanto eu volto as mãos à obra. Vem comigo!

O filho da puta concubina?



A primeira menção de Zhaozi nos Anais ocorre em 538 AEC (quando Sun Tzu mesmo tinha uns 6 anos).

Na ocasião, um sujeito chamado Niu, que trabalhava para seu pai (por sua vez conhecido como Shusun Bao, ou simplesmente Muzi), articulou para que Zhaozi se tornasse o chefe do clã, tão logo sucedesse a morte do progenitor.

E parece, inclusive, que Niu foi apoiado por Pingzi, com a intenção de enfraquecer a família Shusun, elevando à liderança o filho de uma concubina (caso de Zhaozi) em lugar do filho da esposa legítima.

A sucessão mesmo, no entanto, somente concretizou-se em 537 AEC. Então, Zhaozi já havia aberto a capa do olho e percebido o quão prejudicial era Niu.

Chamou seus chegados e lhes falou algo mais ou menos assim:

O ajudante de ordens Niu fez mal à Casa de Shusun e atirou em confusão o grande princípio da ordem natural. Tendo condenado à morte os filhos legítimos de meu pai e assegurado a sucessão ao filho de uma concubina, ele passou a distribuir suas cidades, para que pudesse deste modo obter perdão por seus crimes, que não poderiam ter sido mais hediondos. Temos que executá-lo o quanto antes.

Niu soube da treta e não hesitou em fugir para Qi, o que não adiantou nadica de nada, já que foi assassinado quando estava para entrar na província.

O elogio de Confúcio

Diante da atitude de Zhaozi - não tendo-se deixado levar pelo fato de Niu ter influenciado em sua própria ascensão e tratando, assim, de procurar puni-lo por seus erros - ninguém menos que Confúcio (Zhongni) o elogiou.

Bem, pelo menos eu acho que é um elogio:

A conduta dos Shusun Zhaozi em não ser influenciado por serviços prestados a si mesmo é o que poucos poderiam alcançar.

Zhaozi era na verdade um título póstumo e seu nome mesmo era She ou Chuo. É como Shusun She, por exemplo, que ele é referenciado em 535 AEC pelos Anais da Primavera e Outono, ao participar de um encontro de províncias em Qi.

Nesse encontro, é provável inclusive que tenha conhecido, entre outros, o suposto pai de Sun Tzu.

Os antagonistas


Rocky Balboa e Apolo Creed posando para foto depois da surra

De modo geral, sua história é muito vinculada à de Pingzi - como se eles fossem antagonistas que eram obrigados a tolerar um ao outro. Assim, a história da ascensão de Zhaozi com um dedo de Pingzi é apenas a primeira das muitas interações entre ambos ao longo dos Anais.

Cinco anos depois dessa primeira querela, em 533 AEC, e como a confirmar o que eu escrevi no parágrafo acima, nos aparece a história do parque que Pingzi queria construir apressadamente. Na ocasião ele teria sido alertado por Zhaozi dos problemas que isso poderia causar à população.

Depois, Pingzi é deixado um pouquinho de lado, já que ele não consta na aparição seguinte de Zhaozi, em 532 AEC. Na ocasião, nossa personagem alerta altos oficiais que participavam do funeral do duque Ping de Chin, em vão, a não insistirem em seu desejo de ter uma audiência com o novo duque, pois seria contrário às normas.

Também no mesmo ano, foi ele quem criticou Gao Qiang por ter metido as mãos pelos pés e não ter conseguido manter o legado de seu pai (Ziwei). Qiang, você deve lembrar, foi o fugitivo de Qi derrotado pelo pai de Sun Tzu, chamado Tian ou Chen Huanzi.

Agora você se lembra, né?


Crítico e diplomata... mmm, sei não...

Adiantando o passo, é preciso capitular: espírito crítico não faltava a Zhaozi, já que também censurou, agora em 530 AEC, um visitante de Song - Hua Ding, que representava seu duque. Motivo à toa e bestinha, simplesmente por ele não saber sobre as regras de etiqueta da época e, tampouco, segui-las.

Um falastrão de tal monta, obviamente, não ficaria impune. Ainda nesse mesmo ano, Zhaozi foi alvo de uma tramoia armada por um cabra chamado Shuzhongzi, a fim de jogar as famílias Ji e Shu uma contra a outra.

No fim das contas, Pingzi (olha ele de novo) tentou fazer com que Zhaozi desse um jeito de expulsar um fulano chamado Shuzhongzi, mas nosso homem era um tanto quanto diplomático e jogou o abacaxi no colo do duque. Audaciosamente.

Em 526 AEC, ele queixou-se da invasão de Xu efetivada por Qi, afirmando que esse tipo de coisa acontecia somente porque o Reino do Meio estava sem líderes. Naturalmente, a crítica é direcionada aos membros da dinastia Zhou, mas deixemos de futrica.

Melhor, deixemos a futrica para Zhaozi, que no ano seguinte tece comentários a respeito de como o duque Mu, da Pequena Zhu, era capaz de governar sua província e teria um reinado longevo.

Chegou a essa conclusão simplesmente pelo modo como o duque - ao contrário do Hua Ding de Song, citado anteriormente - dominava as famigeradas regras de etiqueta.


Pavões misteriosos

Pouco depois, entra em um debate com (adivinha) Pingzi a respeito do que fazer em relação a um eclipse solar que acontecia naqueles dias. Não chegam a um acordo e sua (acertada) conclusão é de que Pingzi logo iria se virar contra Zhao, o duque de Lu.

Ainda em 525 AEC, por ocasião da visita de visconde de Tan, o duque Zhao ofereceu ao visitante um banquete do qual também participou Confúcio (Zhongni), além do próprio Zhaozi.

Este perguntou ao convidado o motivo de dar nomes de aves a seus oficiais. A resposta nos oferece um panorama interessante de como se organizava o governo de uma província da época, mas deixo os detalhes para outro momento.

Dois anos depois, em 523 AEC, Zhaozi aparece nos Anais fazendo uma breve análise a respeito da situação de Chu. No ano seguinte, aparece de novo, agora complementando um comentário de Zi Shen sobre o futuro de Song (confusão e quase ruína) e de Cao (morte importante).

Em seu comentário, Zhaozi inclusive explica o motivo por que a tragédia se abaterá sobre Song - mas também é algo cujos detalhes não precisamos agora.

O mestre dos eclipses



Já em 521 AEC, ele aparece para comentar a situação de outra província, Cai, a partir de uma informação que recebeu sobre o novo duque não ter usado seu lugar de direito (fisicamente falando) durante o funeral do pai, o falecido Ping.

E o cara era chegado a essas análises, pois logo depois faz uma outra, incluindo uma previsão, vaticinando a morte de Shu Zhe (Zishu, filho de Shu Gong, ou Bozhang - provavelmente seus parentes) simplesmente por ele ter chorado sem outra razão que não o eclipse solar.

Como você já percebeu, o cara parecia ser uma espécie de Miriam Leitão da época, pois dava pitaco em tudo (ou talvez fosse esta mesma sua função). Sobre o eclipse do verão de 518 AEC, por exemplo, discutiu com Zi Shen seu significado e aparentemente estava certo.

Já em 516 AEC, vai a Song em uma missão diplomática e também para buscar a noiva de Pingzi. Lá, um sujeito o visita, desanda a falar mal de alguns oficiais seus colegas e faz com que Zhaozi, a posteriori, comente com seus seguidores que o cara ia acabar se dando mal.

Você duvidaria que isso aconteceu mesmo? Eu não...

Finis hominis

Na sequência, mesmo ano e missão, é recebido pelo duque de Song e, não se sabe o motivo, ambos choram enquanto conversam.

Outro pitaqueiro, um fulano chamado Yue Qi, mandou uma real dizendo que era muito provável que ambos morressem em breve. Quanto ao duque, eu não sei, mas no que diz respeito a Zhaozi, o tal Yue estava certo.

Nosso homem viria a morrer pouco tempo depois, no décimo mês e inverno do fatídico 516 AEC.

Reza a lenda que ele jejuou em seus aposentos e fez com que seu sacerdote e mantenedor de seu templo ancestral orasse por sua morte, que ocorreu sete dias depois do pedido. Relembrando Getúlio Vargas, a vida o deixou e a história da China o colocou ali num cantinho não muito visível.

Falando em vida e em história, neste momento deixamos nossa história para você seguir com sua vida (até o próximo post, óbvio).

Pequenos detalhes

Não apresentei muitos detalhes a mais da biografia de Zhaozi, porque, apesar de importante, ele seria uma personagem secundária na trama. Não valia a pena se aprofundar tanto assim no seu histórico.

Mesmo assim, Zhaozi, junto com sua família, teve lá sua influência, participando de episódios importantes da história da China no Período da Primavera e Outono e interferindo, em vários momentos, no rumo dos acontecimentos.

Agora, vamos dar um tempo das personagens e terminar a série sobre algumas das disciplinas da administração que tem tudo a ver com Sun Tzu e a Arte da Guerra.

Na sequência, voltaremos o foco do blog para outros aspectos da história e cultura da China.

Como eu já escrevi lá em cima, de um jeito ou de outro eles devem contribuir para o enriquecimento do livro que (não muito) em breve, ganhará a luz do dia.

Um título, pelo menos, já está se firmando. Quem viver, verá!

Zài Jiàn!


Créditos e referências


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