Confúcio, o consertador de nomes e a moralidade das odes

Estátua de Confúcio, mãos cruzadas sob um plácido céu de brigadeiro

Feriadão chegando e, nada-nada, é uma ótima oportunidade para colocar a leitura em dia, não?

Então, enquanto eu dou uma escapadinha ali para o Pará, para o mundialmente famoso encontro dos Felas, deixo você com o último post da série sobre o sábio mais reverenciado da China: Confúcio.

Caso você não se lembre, já tivemos três textos sobre esse rapaz:

  1. Confúcio, o primeiro come-quieto da história
  2. Confúcio, o justiceiro e os suspeitos
  3. Confúcio, o marketing pessoal e a regra de ouro

O primeiro foi uma mega introdução e o segundo teve foco, principalmente, em suas viagens e discípulos. No terceiro , discorremos sobre seu pensamento e alguns pontos essenciais de sua doutrina.

Neste quarto, trataremos de entender alguns outros pontos relacionados a seu pensamento. Isso inclui a filosofia política, a visão de realidade, a virtude e a educação.

Por fim, daremos o arremate com um vislumbre de seu legado ao longo da história. Topa? Então, vem comigo!

Filosofia política

Aparentemente o ponto fraco de Confúcio, sua filosofia política é fundamentada na crença de que um regente deveria:

  1. aprender auto-disciplina
  2. governar seus súditos pelo próprio exemplo e
  3. tratá-los com amor e preocupação


No entanto, essa filosofia não era lá muito popular à época, especialmente em virtude da concorrência. É que as ideias dos filósofos e pensadores legalistas, fundamentadas nas leis e punições, era bastante mais atraente aos olhos dos líderes de então.

Pior ainda para Confúcio foi ele perceber que as instituições políticas de seu tempo estavam completamente falidas. Ele atribuiu esse colapso ao fato de aqueles que possuíam o poder, tanto quanto os que ocupavam posições subalternas, o  fazerem porque reclamavam para si títulos que não mereciam.

Olha só o argumento do sujeito:

Eu deveria reivindicar um título para mim apenas no caso de ele ser legitimamente meu e quando eu possuir esse título e tiver que participar nas diversas relações hierárquicas ensejadas por esse título, então eu deveria viver de acordo com o significado do título que eu reivindico para mim.

De uma certa maneira, isso tem a ver com o

Zhengming, os nomes e as coisas



A análise de Confúcio quanto à falta de conexão entre as realidades e seus nomes, bem como a necessidade de corrigir tais circunstâncias é frequentemente referenciada como a Teoria de Confúcio do Zhengming.

Ele dá tanta importância a esse negócio que, nos Analetos, há um diálogo entre ele e um de seus discípulos, o Zilu, no qual o mestre deixa claro que a primeira coisa que faria ao assumir a administração de um governo seria o tal Zhengming.

Para tentar esclarecer um pouco, uma tradução comum para o termo é "retificação dos nomes", muito embora Zhengming não signifique necessariamente algo como "nomear corretamente as coisas".

Trata-se, na verdade, de se ajustar o comportamento das pessoas e a realidade social de modo que eles correspondam à linguagem com a qual as pessoas identificam a si mesmas e descrevem seus papeis na sociedade.

Indo ao infinito e além, Confúcio acreditava que esse tipo de retificação tinha que se iniciar no nível mais alto de governo, porque é lá que a discrepância entre nomes e realidades se origina. Se o comportamento do regente é retificado, então as pessoas abaixo dele seguirão na mesma toada.

Veja só um exemplo disso em uma conversa que o cara teria tido com um fulano chamado Ji Kangzi, que havia usurpado o poder em Lu e foi aconselhado por Confúcio:

Se seu desejo é pelo bem, as pessoas serão boas. O caráter moral do regente é o vento; o caráter moral daqueles abaixo dele é a grama. Quando sopra o vento, dobra-se a grama.

A virtude e o li


Imagem do céu estrelado noturno, com destaque para a estrela polar, ou polaris

Para Confúcio, o que caracterizava um governo de excelência era a presença de algo conhecido como de, ou "virtude".

Concebida como um tipo de poder moral que habilita as pessoas a angariar seguidores sem a necessidade de recorrer à força física, tal "virtude" também habilita um regente a manter a ordem em seu reino sem preocupações e apoiando-se em auxiliares leais e eficazes.

Confúcio afirmava que

aquele que governa por meio de sua virtude é, para usar uma analogia, como a estrela polar: ela permanece em seu lugar, enquanto todas as estrelas menores prestam homenagem a ela.

A maneira de manter e cultivar tal "virtude" da realeza era através da prática e promulgação do li ou "rituais", as cerimônias que definiram e marcaram a antiga aristocracia chinesa. Essas cerimônias abrangiam:

  1. os ritos de sacrifício realizados em templos ancestrais com o intuito de expressar humildade e gratidão
  2. as cerimônias de enfeudamento, brinde e troca de presentes que uniam a aristocracia em uma complexa teia de obrigações e endividamentos e
  3. os atos de cortesia e decoro - coisas como curvar-se e demonstrar submissão - que identificavam seus praticantes como cavalheiros.

Educação pela pedra



Uma característica marcante do pensamento de Confúcio é sua ênfase na educação e estudo. Ele menospreza aqueles que têm fé no entendimento natural ou intuição e argumenta que a única verdadeira compreensão de um assunto surge de longo e cuidadoso estudo.

O site da revista Mundo Estranho tem um texto a respeito de Confúcio que destaca justamente a ênfase que o chinês dava à educação. Lá, está escrito que ele pregava

a importância da educação para melhorar a sociedade, com destaque à construção do caráter e não apenas ao acúmulo de conhecimentos.

Lá também eles fazem referência à criação de "programas de treinamento para líderes em potencial". Segundo o historiador da USP Ricardo Gonçalves, citado no texto da Mundo Estranho, ele teria criado esses programas porque

seu objetivo era formar homens perfeitos, que, tornando-se membros da burocracia estatal, ajudassem a construir o estado ideal.

De acordo com a Enciclopédia de Filosofia da Universidade de Stanford, para Confúcio estudo significa encontrar um bom professor e imitar suas palavras e ações. Um bom professor seria alguém mais velho que estivesse familiarizado com os caminhos do passado e as práticas dos antigos.

Embora às vezes ele advirta contra excesso de reflexão e meditação, sua posição parece ser um meio termo entre a aprendizagem e a reflexão sobre o que se aprendeu.

Aquele que aprende mas não pensa está perdido. Aquele que pensa mas não aprende está em grande perigo.


Ele ensinou a seus alunos sobre:

  1. moralidade
  2. discurso adequado
  3. governo e
  4. as artes refinadas.

Essas últimas eram, na verdade, as chamadas "seis artes":

  1. ritual
  2. música
  3. tiro com arco
  4. condução de carruagens
  5. caligrafia e
  6. aritmética

Apesar de o cara dar bastante ênfase a essas artes, para ele, nada era mais importante que a moralidade.

A pedagogia do oprimido da moral e das odes

Os métodos pedagógicos de Confúcio são peculiares. Ele nunca discorre longamente sobre um assunto. Em vez disso, apresenta questões, cita passagens dos clássicos ou usa analogias e aguarda que seus alunos cheguem às respostas certas.

E era abusado:

Só por alguém profundamente frustrado com o que não sabe eu irei fornecer um ponto de partida; apenas para alguém lutando para transformar seus pensamentos em palavras eu irei prover um início. Mas se eu exibir um canto e ele não puder responder com os outros três, não vou repetir-me.

O objetivo de Confúcio era criar cavalheiros dotados de graça, que falassem corretamente e demonstrassem integridade em todas as coisas. Sua forte antipatia aos bajuladores, a quem a conversa esperta e a maneira pretensiosa garantem uma audiência, se reflete em numerosas passagens dos Analetos.

Confúcio vivia em um período de intensas transformações políticas, sociais e culturais. Talvez observando e meditando sobre tais transformações, ele tenha chegado à conclusão de que palavras e títulos não mais significavam o que haviam significado antes.

Arte, poesia e moralidade

A educação moral é importante para Confúcio porque seria o meio pelo qual se poderia corrigir tal situação, bem como restaurar significado à língua e valores à sociedade. Ele acreditava que as lições mais importantes para a obtenção de uma educação moral poderiam ser encontradas no canônico Livro das Canções.

Assim, Confúcio coloca o texto em primeiro lugar em seu currículo e frequentemente cita e explica suas linhas de verso. Por esta razão, os Analetos também são uma importante fonte para se compreender seu entendimento a respeito do papel que a poesia e, de modo mais geral, a arte desempenham na educação moral dos cavalheiros, bem como na reforma da sociedade.

Recentes descobertas arqueológicas de manuscritos antigos anteriormente perdidos revelam outros aspectos da reverência de Confúcio ao Livro das Canções e sua importância na educação moral. Esses manuscritos mostram que Confúcio havia encontrado lições valiosas no texto canônico sobre como cultivar qualidades morais e como comportar-se humana e responsavelmente em público.

Legado

E é por tudo que já vimos até o momento (e por muito mais, certamente), que já no século IV AEC, Confúcio foi reconhecido como uma figura única, um sábio que foi ignorado, mas deveria ter sido reconhecido e se tornado um rei.

No final desse mesmo século IV, diz Mêncio:

Desde que o homem veio a este mundo, nunca houve um maior do que Confúcio.


E em dois momentos, Mêncio afirma que o filho de Qufu teria sido um dos grandes reis sábios que, de acordo com sua avaliação, surge a cada 500 anos. Ele também é objeto de anedotas e professor de sabedoria nos escritos de Xunzi, seguidor dos ensinamentos de Confúcio no século seguinte ao de Mêncio.

Há argumentos inclusive de que os capítulos 28 a 30 da obra de Xunzi não foram escritos por ele. Na verdade, seriam compilações de seus discípulos que pareciam ser uma versão alternativa, e consideravelmente mais breve, dos Analetos.

Crítica e redenção

Confúcio e seus seguidores também inspiraram críticas consideráveis ​​de outros pensadores.

Os autores do Zhuangzi, por exemplo, tiveram prazer especial em parodiar Confúcio e os ensinamentos convencionalmente associados a ele. Mas a reputação de Confúcio era tamanha que até mesmo o Zhuangzi se apropria dele para dar voz aos ensinamentos taoistas.

Durante a dinastia Han do Oeste, o confucionismo tornou-se a filosofia oficial do Reino do Meio e manteve-se nessa posição até o século XX. Claro que, inevitavelmente, os ensinamentos sofreram distorções ao longo do tempo.

Independente disso, não foi à toa que fiz as comparações com Jesus no post inicial desta série. Segundo a LP&M, os Analetos foram tão lidos na China ao longo do tempo quanto a Bíblia foi no Ocidente, deixando uma herança significativa para o mundo oriental.

Sobre essa herança, o historiador Ricardo Gonçalves, citado acima, afirma:

O confucionismo é a base da ética empresarial japonesa. Também em alguns dos chamados Tigres Asiáticos, como Coréia do Sul e Cingapura, ele é promovido como sistema filosófico a encorajar o desenvolvimento econômico.

Após sua morte, Confúcio recebeu o título de "Lorde Propagador da Cultura, Sábio Supremo e Grande Realizador" (大成至聖文宣王). A alcunha encontra-se registrada em seu túmulo e, de uma certa maneira, sintetiza tudo que vimos a aprendemos a respeito de uma das personalidades mais influentes da história da humanidade ao longo desses quatro posts.

Espero que tenha gostado e continue nos acompanhando, pois ainda teremos muita informação bacana sobre a cultura e a história da China. E, claro, no final do arco-íris, meu livro.

É pagar pra ver.

Zài Jiàn!


Créditos e referências


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