Confúcio, o justiceiro e os suspeitos

Estátua de Confúcio em Montevidéu, Uruguai

Ressaca de carnaval e nada melhor para abrir a mente que uma boa leitura sobre um dos grandes sábios da humanidade, concorda? Ok, se você é leitor deste blog, muito provavelmente não pulou carnaval, o que não quer dizer que não esteja vivendo a ressaca da festa.

Eu mesmo, nunca curti carnaval e mais uma vez passei a data muito de boa. E você sendo ou não da minha laia, vem comigo pra conhecermos um pouco mais de Confúcio, neste segundo texto da série que teve início quinze dias atrás com


Não viu ainda esse texto? Então vai lá e descobre o porquê do título. Depois volta aqui, para continuarmos de onde paramos, que vem a ser

O primeiro retorno a Lu

Após conhecer a música sagrada de Shao, na província de Qi, não demorou muito para Confúcio retornar a Lu. Em sua terra natal teve dificuldades para encontrar uma ocupação e até chegou a ser indagado a respeito, como demonstra mais uma passagem dos Analetos.

Nela, alguém pergunta por que ele não estava no governo e a resposta vem na boa:

Dizem os Documentos: "seja filial, oh, apenas seja filial! Seja amistoso com seus irmãos e estenda isso ao ato de governar". Praticar isso é também governar. Por que alguém deveria estar nomeado para governar?


Mesmo assim, ali por volta de 509 AEC ele assumiria o posto de Diretor de Crimes (si kou), tendo a responsabilidade de fazer cumprir a lei e aplicar punições físicas aos considerados culpados de cometer crimes. Tá parecendo muito que ele era uma encarnação do Justiceiro na China antiga, não?

Frank Castle, é você?

Pode deixar que eu mesmo respondo: parece que não. Dados os seus ensinamentos, difícil crer que ele exercesse apropriadamente tal cargo. Ele era famoso por se opor ao uso de multas e punições, considerando-os inefetivos e contraproducentes quando se tratava de governar as pessoas:

Se as pessoas são lideradas pela virtude e busca-se a uniformidade entre elas por meio da prática do decoro ritual, elas possuirão um senso de vergonha e virão a ti por si mesmas.

Mas também pode ser que ele tenha chegado a algumas de suas conclusões exatamente por ter exercido essa função. Fato é que as fontes não nos ajudam a esclarecer esse ponto e os próprios estudiosos não chegam a um acordo.

Enfim, 509 AEC é também o ano em que se inicia o ducado de Ding, sucessor de Zhao, em Lu. Não encontrei essa informação, mas fica parecendo que a mudança de governo foi o que viabilizou a nomeação de Confúcio.

O estrategista



Nove anos depois, acontece um dos fatos mais importantes de sua carreira e talvez até de sua vida. Houve um encontro em Jiagu, na província de Qi, entre os duques Ding de Lu e Jing, o anfitrião, com o objetivo de selar um acordo de paz entre ambos.

Confúcio foi convocado oficialmente para supervisionar os ritos protocolares do encontro. A julgar pelo que se registrou, no entanto, ele teria ido (também) com o intuito de proteger a vida de seu duque e defender a honra de sua província.

Jing e seus comandantes haviam armado para humilhar Lu na ocasião e, quem sabe até, capturar o duque Ding. Esse último, por sua vez, ou sabia ou suspeitava dos planos de Qi.

Acontece, entretanto, que Ding não tinha apoio interno (como já sabemos) e não podia contar com muitos homens para fazer frente à ameaça fantasma de Qi. Confúcio teria então sido astuto e hábil a ponto de não apenas bolar um jeito de fazer com que os exércitos de Qi recuassem, mas também conseguir de volta para Lu terras anteriormente tomadas pela província vizinha.

O inimigo mora ao lado

Posteriormente, Confúcio novamente atuaria em defesa de seu duque. A diferença é que agora o inimigo era interno.

Uma das poderosas famílias de Lu, os Ji, promoveu uma rebelião a partir da cidade de Bi e atacou a capital, colocando em risco a vida do duque. De alguma forma Confúcio teria dado um jeito de abafar o caso e o exército de Lu saiu-se vitorioso do episódio.

A segunda partida e os suspeitos discípulos


Fotograma do filme de Bryan Singer, com os principais suspeitos posando pra foto

Não muito tempo depois, em 498 AEC, ele juntou seus discípulos e partiu para o exílio, realizando uma peregrinação por diversas províncias, entre elas: Wei, Song, Chen, Cai e Chu. Procuravam um soberano que os empregasse, mas acabaram se deparando com indiferença e enfrentando dificuldades e perigos.

Notou a palavra "diversos" ali em cima? Pois é, o número de discípulos de Confúcio tem sido muito exagerado, controverso e, por isso mesmo, difícil de saber ao certo.

Sima Qian e outras fontes, por exemplo, alegavam que houve uns três mil deles. O mesmo Sima Qian, no entanto, afirma:

Aqueles que tornaram-se familiarizados pessoalmente com as seis artes ensinadas por Confúcio contavam setenta e dois.

Os suspeitos

O Mêncio e alguns outros trabalhos iniciais apontam para o número de setenta. Mesmo sendo mais razoáveis, ambos os números são suspeitos, dada a suposta idade com a qual Confúcio morreu e o fato de 72 ser um número meio cabalístico na China antiga.


Independentemente dos números, é possível nominar vários dos discípulos. Entre os principais (mas principais mesmo), podem ser citados:

  1. Zilu (You) - o mais velho de todos e, mais que um discípulo, amigo de Confúcio;
  2. Ran Qiu - responsável por arranjar o retorno do Jedi mestre a Lu, após suas peregrinações;
  3. Zai Wo (Yu);
  4. Yan Yuan (Hui) - o discípulo favorito, que viveu na pobreza e morreu jovem;
  5. Zigong (Si) - um dos principais responsáveis por espalhar os ensinamentos de Confúcio após sua morte.

Há ainda pelo menos outros três discípulos de destaque entre o séquito confuciano: Zeng Shen (Shen), Zixia (Shang) e Zizhang (Shi).  Se quiser saber mais sobre esses caras, esse artigo da Wikipedia (em inglês) é um bom começo.

O segundo retorno



Quanto às andanças em si, muitos dos episódios que vivenciaram parecem nada mais ser que versões em prosa de odes encontradas no Livro das Canções. Assim, esse pedaço da vida de Confúcio seria uma reencenação do sofrimento e alienação vividos pelas personas dos poemas.

Confira a seguir algumas das aventuras e agruras vividas nessa fase de sua vida:

  1. Um encontro com a perversa (ou seria imoral?) Nanzi, consorte do soberano de Wei;
  2. Um atentado contra sua vida perpetrado por um nobre de Song, o Marechal Huan;
  3. A separação e o subsequente reencontro com seu discípulo favorito, Yan Hui;
  4. Seu encontro com o desonroso duque de Shen, na pequena província de Cai;
  5. A estadia em Chen, período no qual chegaram a passar fome e questionar seus princípios morais.

Após uma segunda e breve passagem por Wei (que especulo muito levianamente ter algo a ver com a mulher do duque), o cara retorna para Lu em 484 AEC, quatorze anos depois de sua partida. Havia um novo soberano, o duque Ai, mas a família Ji ainda mandava e desmandava no pedaço.

Confúcio interagiu em algum nível com ambos, mas aparentemente passou o resto de sua vida ensinando. Caso não se trate apenas de uma lenda, também deve ter utilizado seu tempo restante para editar os 5 clássicos já citados, bem como um texto perdido, o Clássico da Música.


Os finalmentes

Percebeu que estamos chegando ao final da vida do sábio chinês, não percebeu? Pois é, mas antes de efetivamente falarmos disso, vamos nos entender um pouco mais seu pensamento, seus ensinamentos e sua visão de mundo.

Só que no próximo texto, que deve sair apenas daqui a mais ou menos um mês. O motivo é um texto especial em alusão ao Dia Internacional da Mulher, que será o próximo post do blog.

Após, voltamos com o terceiro e, na sequência, quarto texto desta série sobre Confúcio. Continuo contando com você.

Para saber mais, acesse o primeiro post da série, que tem os principais links no finalzinho.

Zài Jiàn!


Créditos e referências


  • Escultura de Confúcio - Foto de uma pessoa chamada Azsur, obtida na Wikimedia Commons.
  • Os Suspeitos - Fotograma do filme obtido no blog Chanel Fake.

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