10 mulheres exemplares da história da China

Pintura de Wang Zhaojun, tocando cítara, com uma plateia ao redor

Falta pouco para celebrarmos mais um Dia Internacional da Mulher (o famoso 8 de março) e, embora eventualmente tenha escrito sobre mulheres chinesas aqui no blog, sempre foram referências meramente incidentais.

Ainda não tinha escrito um post especialmente pensando nelas ou em você... Pois bem, isso acaba agora e, se tudo der certo, espero revisitar este assunto cheio de adjetivos em muitas outras ocasiões.

Sim, vamos dar um tempo do Confúcio. Mas não se preocupe, daqui a quinze dias ele estará de volta.

Para este post inaugural das mulheres chinesas, por assim dizer, farei uma abordagem singela. Nada mais que uma relação de mulheres que tiveram papel central em várias passagens da história da China.

Conheceremos esposas, filhas, concubinas, irmãs que se destacaram desde "priscas eras" - com a derrocada da dinastia Shang, por exemplo - até o início do segundo milênio da Era Comum, no período dominado pela dinastia Song do Norte.


Sim, tanto quanto na atualidade, a história chinesa está repleta de mulheres de destaque.

Isso a despeito de normalmente a sociedade androcêntrica lhes atribuir um papel secundário e subserviente, como pode-se deduzir tão somente pelo título de um livro bastante conhecido pelos sinólogos:


Ainda bem que esse tipo de coisa, dizem as más línguas, nunca aconteceu no mundo ocidental. Já pensou? Cruz credo!

Deixando de lado o mimimi os entretantos, vamos logo para os finalmentes, conhecer essas mulheres que desafiaram ou abraçaram o status quo e, bem ou mal, mereceram seu lugar na história.

E nada melhor que começar por três das 125

mulheres exemplares da China antiga


Pintura antiga representando concubinas da dinastia Tang tomando chá

Já deu pra entender que nesse grupo apresentaremos tão somente as mulheres que abraçaram o status quo.

Ou seja, serviram de exemplo para outras mulheres seguirem as regras de vida em sociedade estabelecidas ou reforçadas pelas sumidades masculinas de suas respectivas épocas.

Inclusive o incensado Confúcio.

Além disso, todas as três são retratadas no livro histórico sobre o qual rapidamente discorremos acima, ok?

Boji, a garota em chamas

Naturalmente, iniciamos com a virtuosa Boji, filha do duque Huan de Lu e irmã mais nova do duque Cheng.

Ela casou-se com o duque da província de Song, conhecido como Gong, e seu ingresso na nova vida foi um tanto quanto conturbado. No entanto, ela sobreviveu às intempéries e acabou tornando-se viúva desse mesmo duque.

É por conta de um evento ocorrido após a morte de seu esposo que nossa personagem tornou-se famosa e ganhou o direito de entrar nessa lista. Já durante o governo do duque Jing, a casa de Boji pegou fogo e seus servos rapidamente a incitaram a deixar a moradia para escapar da morte certa.


Pura e casta e observadora dos bons costumes como era, Boji não titubeou e negou-se a acompanhá-los, afirmando:

Não é apropriado para uma senhora sair à noite antes de sua instrutora chegar. Aguardarei a chegada de minha guardiã e de minha instrutora.

Chegou a guardiã, mas nada de a instrutora dar as caras. Seus servos novamente a incitaram a escapar do fogo. A casta senhora, outra vez, foi assertiva:

Não é apropriado para uma senhora sair à noite antes de sua instrutora chegar. É melhor preservar o decoro e morrer do que ir além do que é adequado, a fim de sobreviver.

Acho que não preciso dizer o final dessa história, não é mesmo?

Ok, eu digo, não precisa insistir... não há surpresas aqui, ela morre e se torna um dos primeiros e mais conhecidos exemplos a serem seguidos pelas mulheres de toda a China.

Feministas, tremei!

A mãe de Mêncio e a educação pela perna



Esta é outra frequentemente lembrada como uma figura feminina exemplar na Cultura chinesa.

Isso ocorre basicamente por que o pai de Mêncio morreu quando ele era muito jovem e ela, cujo nome é Zhang ou Chang-shih, teve que cuidar sozinha do filho.

Até aí, nada demais - a dona Valdelice cuidou praticamente sozinha de minha mãe e de seus oito irmãos e irmãs, e posso dizer que fez um excelente trabalho.

Sua fama veio mesmo do fato de ela ter se esmerado para oferecer as melhores condições possíveis ao discípulo de Confúcio. E isso chegou até nós na forma de uma anedota sobre três mudanças de endereço que ela empreendeu:

  1. Quando foram morar próximo ao cemitério e ela achou que não era muito bacana Mêncio ficar imitando a versão chinesa antiga das velhas carpideiras que conhecemos Brasil afora.
  2. Quando tornaram-se vizinhos de um mercado e seu filho passou a imitar os feirantes (que não eram lá muito bem vistos na época).
  3. Nível Arqueiro Verde na pontaria, quando mudaram-se para perto de uma escola pública, cujas atividades rapidamente chamaram a atenção do menino.

Ela teria dito, então, algo mais ou menos assim:

Este, sim, é o lugar adequado para o meu filho.

O ansioso - Há ainda outros episódios envolvendo Zhang e seu filho Mêncio. Quase todos, de um jeito ou de outro, ressaltando a importância que ela atribuía à educação do rebento.

No entanto, pelo menos a meu ver, um deles se destaca - e aqui acho que as feministas voltariam a tremer!

Mêncio estava ansioso porque não lhe davam ouvidos em Qi, onde moravam, e ele pretendia ir embora para onde suas ideias fossem melhor recebidas. Porém, preocupava-se em sua mãe ir junto, devido à idade avançada.

A velhota não se fez de rogada e deu-lhe mais uma lição de moral (chinesa... antiga... entenda):

Uma mulher não tem a prerrogativa de determinar qualquer coisa sobre si mesma. Apenas está sujeita à regra das três obediências. Quando jovem, ela deve obedecer a seus pais; quando casada, deve obediência ao marido; quando viúva, é o filho quem manda. Você é um homem em sua plena maturidade e eu sou velha. Aja de acordo com o que você considera correto e eu agirei de acordo com a regra que se aplica a mim. Por que você deveria estar ansioso a meu respeito?

Se você está chocado ou chocada com isso, informo que não é nada muito diferente do que prega um livro escrito há uns 2 mil anos e muito conhecido no ocidente.

Mas deixemos isso de lado e passemos à próxima vítim... digo, ao próximo exemplo de mulher.

Zheng Mao, a boa companheira

Zheng Mao foi a principal esposa de Cheng - o líder maior da província "bárbara" de Chu, durante o Período da Primavera e Outono na China antiga.

Se você é uma leitora ou leitor que acompanha atentamente já há algum tempo nosso blog, deve ter reconhecido o Período e a província. Se não, puxarei o fio da meada.

Trata-se da mesma época histórica em que viveu Sun Tzu - nosso já conhecido autor d'A Arte da Guerra. Quanto à província, é a arquirrival de Wu, o local que deu fama e fortuna ao mestre da estratégia.

No entanto, Zheng viveu mais ou menos entre 671 e 626 AEC, ou seja, uns bons cem anos antes de Sun Tzu.


Concubina e esposa - Nascida na família (ou clã) Ying, da província de Zheng, ela foi enviada a Chu com a esposa do regente Cheng para ser sua concubina. Não demorou muito para destronar as outras mulheres e tornar-se a esposa principal.

Em tal condição, juntou-se ao ministro-chefe para advertir seu marido sobre os perigos de nomear o filho Shangchen como herdeiro - não está claro em minhas fontes, mas provavelmente não seria filho dela, apenas de Cheng.

Por óbvio, foi solenemente ignorada e Shangchen deu um jeito de derrubar o ministro que queria derrubá-lo.

De olhos bem abertos - Isso teria contribuído para abrir os olhos de Cheng, que mudou de ideia e quis nomear um filho mais novo como herdeiro. Novamente, Zheng Mao foi contra, desta vez argumentando que a nomeação provocaria uma guerra civil.

Em determinado momento, ela começou a imaginar que o regente suspeitava ser baseada em ciúme sua oposição contra Shangchen - provavelmente a favor de algum filho seu, embora isso não esteja claro.

De qualquer maneira, por conta dessa sua crença, acabou por cometer suicídio.

Não muito tempo depois, Shangchen perpretou um golpe de Estado e forçou Cheng a também cometer suicídio. Com a alcunha de Mu, Shangchen assumiu o posto de líder supremo de Chu.

Confirmou assim a previsão de Zheng Mao e contribui para alçá-la ao panteão de mulheres exemplares da China.

Mulheres não tão exemplares


Pintura antiga representando a recusa da consorte em acompanhar o imperador em seu palanquim

Aqui, passamos às mulheres que não dá pra dizer que tenham sido um exemplo de virtude - pelo menos não da virtude que se esperava delas na China histórica.

Vale dizer que fiquei um pouco na dúvida a respeito da primeira - até porque ela é uma das integrantes do livro Biografia das Mulheres Exemplares, referido no início do post.

Mas considerando que conhecimento costuma ser visto como subversivo em muitas épocas e sociedades, resolvi mantê-la por aqui mesmo e não no grupo anterior.

Tem outros motivos também, só que você tem que ler pra descobrir. Deleite-se!

Consorte Ban, matrona de Erin Brokovich

Também conhecida como Senhora Ban ou Jieyu Ban, ela foi uma acadêmica e poeta que viveu mais ou menos entre 48 e 6 AEC, bem no coração da dinastia Han Ocidental (206 AEC a 23 EC). 

Jieyu era uma espécie de título para o terceiro "escalão" das esposas dos governantes naquele período da história chinesa. Por incrível que possa parecer, o segundo nível era o das concubinas (bin), que ficavam atrás apenas da esposa oficial, de fato e de direito.

Apesar de fazer parte das jieyu, a consorte Ban acabou por tornar-se uma concubina do imperador Chengdi e rapidamente ganhou destaque na corte.

Esse destaque talvez tenha-se devido a atitudes como a de recusar o convite do imperador para acompanhá-lo em um palanquim, argumentando que temia distraí-lo das questões do império. Eu mesmo acho que ela estava era fazendo doce, mas... bem, continuemos...

Eventualmente, Ban deu à luz e a Chengdi dois filhos, que morreram na infância. Também a imperatriz Xu teve dificuldades em garantir herdeiros, de modo que a imperatriz Wang Zhengjun (mãe de Chengdi) o encorajou a tomar novas concubinas.

Foi quando ele se engraçou pelas irmãs dançarinas Zhao Feiyan e Zhao Hede.

As bruxas de Chengdi - Além de tornarem-se concubinas, as irmãs Zhao também foram favorecidas em detrimento de Xu e de Ban. Claro que a arapuca estava armada e não demorou muito para que ambas fossem acusadas de bruxaria, ali por volta de 18 AEC.

Xu foi colocada sob prisão domiciliar, longe da corte. Ban resolveu entrar para nossa lista de mulheres exemplares da história da China: tratou de defender-se.

Ela era notória por ser uma grande estudiosa, capaz de recitar de cor poemas do Shi Jing (sim, o famoso Livro das Canções) e um monte de outros textos. Especulo eu que a acusação tivesse ido por esse caminho aí.

Mas ela era tão fodástica que impressionou o imperador com seu discurso, inclusive pelas citações de Confúcio. Aliás, citar Confúcio foi o que a tornou uma mulher (quase) exemplar, já que sua doutrina era usada na época para reafirmar os costumes patriarcais da sociedade.

Mas não foi apenas em causa própria que Ban utilizou seus conhecimentos.

Ela também defendeu seu irmão, Ban Zhi de uma acusação de traição, dando mais uma contribuição para a história da China. É que Zhi viria a se tornar pai do historiador Ban Biao que, por sua vez, teve um casal de filhos que completariam sua obra.

Coube a Ban Gu e Ban Zhao, sobrinhos-netos da consorte, bem como filho e filha de Biao, finalizarem o famoso Livro de Han.

Agora, você me diz se essa mulher merecia ou não fazer parte de nossa lista! E se ainda não se convenceu, te deixo com um dos poemas da consorte:

Recém-cortada seda branca de Qi,
Clara e pura como gelo e neve.
Fez um leque para encontros alegres,
Redondo como a lua brilhante.
Dentro e fora da manga querida do meu senhor,
Agitado para trás e para frente a fazer brisa leve.
Muitas vezes temo a chegada do outono,
Ventos frescos sobrepujando o calor do verão.
Descartado em uma caixa,
Afeto cortado antes de se consumar.


A tradução do inglês é livre, feita por esta pessoa que vos escreve, a partir deste link. Se encontrar algum problema, me avisa ali pelos comentários.

Se não, continua lendo que ainda tem muita coisa boa!

Yu Xuanji, a jovem e pequena orquídea (negra?)



Diferentemente da consorte Ban, que ainda tinha um comportamento relativamente adequado aos padrões da época, Yu Xuanji parece ter sido uma badass suicide girl da dinastia Tang.

Poetisa e cortesã, nasceu em Chag'an nos idos de 844 AEC e morreu por volta dos 25 anos de idade, em 868 ou 869 AEC. A título de curiosidade, Chang'an era a capital da dinastia Tang, o finalzinho da famosa Rota da Seda e uma das cidades mais sofisticadas de seu tempo.

Voltando ao que interessa, o nome de família da moça, Yu, é relativamente raro. Xuanji, seu nome pessoal, é também um termo técnico do taoismo e do budismo - significa algo como "teoria profunda" ou "princípio misterioso"

Youwei, um dos nomes de cortesia pelos quais também era conhecida, significa algo como "jovem e pequena". Huilan, o outro nome de cortesia, refere-se a uma espécie de orquídea perfumada - e considerando a história de vida dela, me vem à mente o nome Orquídea Negra.

Mas para entender melhor, acho bom passarmos rapidamente o pouco de informação confiável que se conhece de sua relativamente curta vida, que tal?

Depois dos nomes - Pois bem, aos 16 anos, Yu foi concubina ou esposa de nível inferior de um oficial chamado Li Yi. Separou-se três anos depois, quando tornou-se cortesã e monja taoista.

Foi companheira de Wen Tingyun, também poeta famoso, a quem escreveu uma série de poemas. Além do rolo com Tingyun, ou até por causa dele, Xuanji causou furor ao manter uma vida promíscua.

Acabou sendo executada por supostamente bater em sua empregada até a morte.

No entanto, dizem as más línguas, essa história atribulada de sua vida e morte severinas é considerada semi-lendária. Ou seja, pode não passar de um reflexo da desconfiança tradicional em relação às mulheres de temperamento forte e sexualmente independentes.

Literatura - Como poetisa, foi uma das mais famosas de Tang, juntamente com Xue Tao, que também foi cortesã.

Em sua vida, seus poemas foram publicados como uma coleção chamada Fragmentos de uma Terra dos Sonhos do Norte, que foi perdida. Os poemas sobreviventes foram reunidos na dinastia Song, principalmente pelo seu valor de "estranheza", em uma antologia que também incluía poemas de fantasmas e estrangeiros.

Além de ser considerada por aí a primeira mulher abertamente bissexual da China - quiçá feminista -, é também pioneira no uso da própria voz, em vez de falar por meio de uma persona em seus escritos.

Duvida?

Então dá uma olhada num trecho da resenha do livro Poesia Completa de Yu Xuanji, editado pela Unesp, na qual se afirma que ela destacou-se

justamente pela ousadia de seus textos, expressando, através de um caráter praticamente autobiográfico, as angústias e sentimentos femininos, e contestando a posição que as mulheres ocupavam na sociedade da época. Outro aspecto também muito explorado nos poemas de Yu Xuanji, e que contribuiu para torná-la notável, é a sensualidade, afirmando seus desejos carnais por meio de versos provocantes.

Entre os desejos carnais, diga-se de passagem, provavelmente contam-se os que ela tinha por outras mulheres. E não sei por quê, eis que me lembro do Arthur Rimbaud, já ouviu falar?

Ok, depois você clica no link. Por enquanto, dá uma espiada em um dos poemas da famosa cortesã, livremente traduzido por mim, do inglês:

Poema para o salgueiros à beira do rio

A cor do jade junta-se aos bancos estéreis do rio;
nuvens enfumaçadas dançam em mansões distantes.

Reflexos espalham-se pela superfície do rio outono;
flores caem sobre as cabeças dos pescadores.

Velhas raízes escondem as tocas dos peixes;
ramos dobram-se para atracar os barcos visitantes.

A noite suspira e suspira com vento e chuva,
e os sonhos inquietantes trazem de volta mais tristeza para mim.


Olha só, por conta dos posts sobre o Livro das Odes que retomarei este ano ainda, me deparei com muito poema chinês das antigas. E esse é de longe um dos melhores.

Então, faz ou não faz jus a integrar esse post especial? Para saber um pouco mais, clica nos links a seguir:


Ti Ying e as cinco punições

 
Foto de homem maori com rosto tatuado

A próxima mulher de quem vislumbraremos um perfil, coincidentemente, também atuou como advogada de defesa.

Diferentemente da consorte Ban, no entanto, não defendeu causa própria. Se bem que o réu era ninguém menos que seu próprio pai, Chunyu Yi, que ao ser acusado de negligência médica proferiu as palavras:

Filhas são inúteis durante uma emergência.

Obviamente, ela não era advogada, mas parece que naqueles tempos tudo era possível.

Chunyu havia tratado de uma nobre que viera a perecer sob seus cuidados. O marido da falecida, rico e influente, espalhou pela corte que o tratamento provocara a morte da esposa e pleiteou a punição do pai de nossa heroína, por sua suposta negligência.

Foi quando ele proferiu a fatídica frase sobre filhas.

Mandado à capital sem qualquer investigação, estava certo de que enfrentaria uma das Cinco Punições (五刑, wǔ xing), administradas por funcionários imperiais:

  1. tatuagem rosto
  2. mutilação do nariz
  3. decepação de um pé
  4. remoção de órgãos reprodutivos (no caso de homens), forçando-os a atuar como eunucos
  5. morte

Notou que as quatro primeiras envolvem algum tipo de mutilação?

Você pode até discordar da tatuagem, mas se pensarmos em mutilação como uma marca indelével que estigmatiza a pessoa como criminosa... bem, acaba sendo.

E se não concorda, explica lá nos comentários - ficarei feliz em discutir o assunto.

Apelo e ousadia - Continuando, Ti Ying decidiu que, apesar de seu sexo e dos apesares, iria fazer um apelo em nome do pai.

Mas a menina era ousada!

Não redigiu seu apelo a um qualquer e, sim, ao todo-poderoso imperador Wen. Quer mais ousadia? Além de testemunhar a favor da prática médica e do bom caráter de seu pai, condenou as Cinco Punições como antiéticas.

Um trecho de seu discurso é mais ou menos assim:

Uma vez que um homem é executado, ele não pode voltar à vida. Uma vez que um homem é mutilado, mesmo que ele prove ser inocente depois, não estaria habilitado à vida, e não há maneira de reverter o sofrimento que ele experimenta. Mesmo que ele queira começar de novo, não será capaz de fazê-lo.

Fazendo referência a uma antiga tradição - de que um filho poderia resgatar a culpa de um pai -, Ti Ying ofereceu-se para trabalhar como empregada no palácio para o resto de sua vida. A contrapartida é óbvia: que seu pai fosse libertado.

Reza a lenda que o imperador ficou tão comovido e impressionado com suas palavras, que recusou a oferta da boa filha e ainda libertou seu pai.

Não por coincidência, as Cinco Punições foram modificadas durante o reinado de Wen. Passaram a enfatizar açoites, em vez de mutilação, e sentenças de trabalho e prisão, em vez da pena de morte.

As sentenças jamais foram novamente tão duras como nos tempos antigos, assim permanecendo ao longo de muitas dinastias após Han.

E essa mudança foi fruto da dedicação de uma filha a seu pai. Da ousadia de uma das primeiras mulheres a escrever sobre ética e justiça na história da China.

4 beldades da China antiga


Pintura retratando as quatro beldades da história da China

Você provavelmente já viu ou ouviu essa expressão por aí: "as quatro beldades".

Trata-se de quatro mulheres chinesas, conhecidas principalmente por sua beleza. Muito dessa fama é constituída de pura lenda, especialmente no caso da quarta, cujos registros históricos são virtualmente inexistentes.

Lenda ou não, a fama delas também não se restringe apenas ao fato de serem belas. Deve-se ao uso que elas fizeram de sua característica marcante, à influência que exerceram na história chinesa ou à tragédia que se abateu sobre cada uma.

Às vezes, as três coisas juntas. Mas deixemos de lero-lero, continue lendo e você vai entender o que quero dizer.

Yang Guifei, a culpada

Talvez a mais famosa das quatro beldades, Yang Guifei é também conhecida como Yang Yuhuan e viveu entre 719 e 756.

Originalmente, tornou-se esposa de um dos filhos do imperador Xuanzong, da dinastia Tang. Mas era tão encantadora - daquele tipo destruidor de monarcas e nações -, que o próprio Xuanzong se engraçou para as bandas dela e a tornou sua consorte.

Acho que não preciso dizer que foi um erro... preciso?

Pois bem, ela tornou-se sua favorita e o cara deixou de cumprir com suas obrigações imperiais. Eventualmente, sua negligência resultou em uma rebelião em 755 - conhecida como Rebelião de An Lushan - e adivinha em quem impuseram a culpa?

Isso mesmo!

Yang foi considerada pelos ministros do império a raiz das atribulações e não deu conta da pressão. No ano seguinte ao da rebelião, forçada pelos guardas do imperador, cometeu suicídio em um lugar chamado Maweipo.

E lembra que escrevi lá no início que talvez ela seja a mais famosa das beldades?

Pois é, existem inúmeras óperas, poemas, danças e até um filme contando sua história. Aliás, essa história cruzou o oceano e tornou-se famosa também no Japão e seu teatro kabuki.

Confere aí nos links:


Em tempo, é de Yang Guifei a imagem que ilustra o post Sun Tzu e as mulheres do rei de Wu, no qual discorro sobre o famoso episódio em que ele treina as concubinas do regente em questão. 

Wang Zhaojun, a pacificadora


Desenho em cores de Wang Zhaojun na neve, com sua cítara e um animal ao lado

Também conhecida como Wang Qiang, nasceu na vila de Baoping, no condado de Zigui, durante o período da dinastia Han do Oeste (206 AEC a 8 EC).

Além de belíssima, também era extremamente inteligente, gostava de soltar pipa e dominava as quatro artes então valorizadas:

  1. Guqin - relacionada a música
  2. Weiqi - um jogo de tabuleiro
  3. Caligrafia
  4. Pintura

Sua mente afiada, no entanto, não evitou que ela fosse a primeira escolha do imperador Yuan, entre as moças da província de Nan, para fazer parte de seu harém - ali por volta de 36 AEC.

Parafraseando o samba, morre a mulher, fica a fama - no caso, a fama de beldade. A despeito dos protestos do pai, ela foi enviada à corte.

Segundo uma das histórias mais contadas a seu respeito, ela teria deixado sua terra natal a cavalo, em uma brilhante manhã de outono. Ao longo do caminho, os relinchos do cavalo a deixavam extremamente triste e incapaz de controlar suas emoções.

Sentada na sela, cantava melodias repletas de mágoa com um instrumento de cordas. Os gansos de um bando que voava rumo ao sul, ao ouvirem a música e perceberem a bela jovem a cavalgar, simplesmente esqueceram-se de bater as asas e beijaram a lona.

Não demorou muito para que Zhaojun ganhasse as alcunhas de "abate-gansos" ou "derruba-pássaros".

O retrato - Lendas à parte (ou não), ela acabou ficando ao largo das graças do imperador. Acontece que, segundo os costumes da China de então, ao imperador era apresentado um retrato das novas esposas antes que ele as conhecesse de fato.

Diferente das outras garotas, e confiante no seu taco, ela não subornou o pintor oficial Mao Yanshou, que em reprimenda não foi lá muito generoso em seu retrato.

Assim, ela jamais foi procurada pelo imperador. Pior (ou melhor), por conta do retrato enganoso, acabou sendo oferecida em casamento a Huhanye Chanyu - regente de um reino conhecido como Xiongnu.

Claro que depois de perceber a merda que fez, o imperador não titubeou em mandar executar o pintor por tê-lo enganado. Por outro lado, as relações entre Han e Xiongnu melhoraram substancialmente com o casamento da beldade.

Pelo menos por algum tempo, parece que ela também se deu bem. Teve dois filhos e uma filha, que veio a tornar-se a princesa Yimuo e uma figura poderosa em Xiongnu.

Mas como tudo que é bom dura pouco, poucos anos após o casório, em 31 AEC, Huhanye Changyu morreu.

Ela pediu para retornar à China imperial e não obteve sucesso. Pior, foi obrigada a casar-se com o filho do defunto - bem ao estilo do bom e velho levirato bíblico, obviamente que à moda Xiongnu.

Nesse outro casamento, teve mais duas filhas e, no final das contas, acabou sendo honrada com o epíteto de Ninghu Yanzhi - algo como "a principal consorte pacificadora".

Seu nome e história fazem-se presentes em mais ou menos 700 poemas e canções, bem como uns 40 tipos diferentes de histórias, folclóricas ou não, de autores antigos e contemporâneos.

Xi Shi, a espiã


Pintura representando Xi Shi, com um texto escrito em caracteres chineses

Dentre as famosas quatro beldades da China antiga, Xi Shi teria sido a mais bela das belas.

Reza a lenda que ela era tão bonita, mas tão bonita, que sua beleza faria as flores murcharem de vergonha. Faria também os peixes se afogarem e a garça azul cair de seu voo.

Tipo:

  • pega essas mulheres de Hollywood (sem trocadilho, please)
  • mistura as três mais bonitas de um jeito que a soma seja melhor que as partes
  • bota um corpitcho estilo paniquete sem os músculos
  • adapta essa Frankenstei para o padrão de beleza China antiga e...

Voilá! Taí um retrato preciso (hehehe) da nossa querida Natasha Romanoff xingling, que viveu no fim do Período da Primavera e Outono em Zhuji, capital da província de Yue.

Mas não era só um rostinho bonito, não.

Goujian, de Yue, teria enviado Xi como espiã à província de Wu a fim de destruir seus adversários. E a exemplo de Yang Guifei, fez com que o regente da província negligenciasse os assuntos de governo.

O ludibriado era ninguém menos que Fuchai (ou Fu-kai), a respeito de quem você já deve ter lido nesse post.

Prestando atenção no serviço - Aliás, se você prestou atenção ao que leu até agora, percebeu que também a Xi Shi é do mesmo período histórico de Sun Tzu. No entanto, diferentemente da Zheng Mao, ela provavelmente foi contemporânea.

Fuchai foi sucessor de Helü, o mandachuva a quem Sun Tzu servia. Por causa dela, inclusive, o chefe de Wu mandou executar Wu Zixu - que teria lutado ao lado do nosso herói em diversas batalhas.

Mas, a julgar pelos meus humildes conhecimentos, os fatos que envolvem Xi Shi ocorreram depois que Sun Tzu havia sumido da história sem deixar rastros.

E aparentemente, isso nada teve a ver com a mais bela das beldades da China antiga.

Vai saber...

Diao Chan, a jogadora



O primeiro e talvez mais importante fato sobre a quarta das clássicas beldades da China antiga é que ela provavelmente não tenha existido.

Quero dizer, ao contrário das outras três, não há nenhum registro histórico a indicar sua existência. O texto essencial a seu respeito parece ser o famoso Romance dos Três Reinos, de Luo Guanzhong, no qual ela é descrita como uma mulher bela e corajosa.

No entanto, como o próprio nome deixa claro, o texto é um romance, uma novela de ficção, muito embora tenha lá seu pezinho na história.

Aliás, pelo menos duas das personagens principais do Romance parecem ter existido mesmo: Lü Bu e seu pai adotivo, Dong Zhuo.

Registros históricos informam que Lü tinha um caso secreto com uma das donzelas de Dong e vivia com medo de ser descoberto. No Romance, adivinha quem era essa mulher?

Você ganha o direito de continuar lendo o post se pensou em Diao Chan!

O jogo - A novela de Luo Guanzhong narra a trama engendrada por um oficial chamado Wang Yun para assassinar Dong Zhuo. Ele convenceu Diao Chan a participar de seu plano, com o objetivo de persuadir Lü Bu a perpretar o ato fatal.

Ambos, Wang e Diao, fizeram um jogo de traição e ciúme, no qual ela tornou-se concubina de Dong e, ao mesmo tempo, foi prometida a Lü. Como estamos carecas de saber, situações desse tipo (quase) nunca terminam sem sangue - que o diga Euclides da Cunha.

E foi o que aconteceu.

O ciúme acabou por gerar o atrito necessário para que Dong Zhuo abotoasse o paletó de madeira. Lü Bu acaba fugindo e Diao Chan teria ficado com ele até sua rendição e execução, nas mãos da província de Cao Cao.

Daí pra frente, pululam histórias sobre seu destino, que podem ser vislumbradas nos links a seguir:


Conclusão

Esse foi um passeio divertido (pelo menos pra mim) pela história chinesa sob a ótica das histórias de mulheres que influenciaram o rumo dos acontecimentos de uma China quase perdida no tempo.

De um modo ou de outro, para o bem ou para o mal.

Acho que não tinha como não falarmos de mulheres belas, assim como ocorre na história ocidental, com as muitas helenas que contribuem para tingir o tecido do tempo com a cor do sangue e - para os chineses - da sorte.

Mas também falamos de mulheres fortes, questionadoras, ousadas e muito, mas muito mesmo, à frente de seu tempo - e olha que deixamos tantas outras de fora.

Espero que tenha gostado e te convido a continuar acompanhando o blog. Ainda veremos muita coisa legal sobre a história e a cultura de um dos países mais fascinantes do mundo.

Sempre que possível, fazendo o link com o assunto principal - Sun Tzu, seu livro A Arte da Guerra e o livro que escrevo a seu respeito.

Quem viver verá!

Zài Jiàn!



Créditos


  1. Wang Zhaojun tocando cítara para uma plateia atenta - Pintura encontrada no blog Chinalati, de autoria do fantástico Zhiwei Tu.
  2. Concubinas à mesa tomando chá - Pintura do acervo do Museu Nacional de Formosa, encontrada no site Ancient Origins.
  3. Ilustração do imperador no palanquim - Disponível na página da Wikipedia sobre a consorte Ban.
  4. Maori tatuado no rosto - Foto obtida no site Mundo das Tribos, sem indicação de autoria.
  5. Pintura das quatro beldades - Encontrada no blog Culture in Cart, sem indicação de autoria.
  6. Belíssima ilustração de Wang Zhaojun - Direto do site Cultural China, também sem indicar o autor ou autora.
  7. Pintura de Xi Shi - Feita por Chun Li e disponibilizada no site Panoramio.

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