Confúcio, o primeiro come-quieto da história


Já há algum tempo tinha a intenção de escrever sobre o sábio mais badalado da China de todos os tempos. Mas sabe como é, né? Conversa vai, conversa vem e você acaba empurrando algumas coisas com a barriga.

No entanto, agora que

  • estou tentando cultivar o hábito salutar de escrever todos os dias (seguindo o conselho de várias sumidades, inclusive meu amigo Messias Jr) e
  • já botei no "papel" o histórico das que virão a ser as principais personagens da história que escrevo sobre Sun Tzu, o autor do livro A Arte da Guerra (mas isso vai mudar)

consigo escrever um texto decente sobre Confúcio, o cara que praticamente inventou a China - cultural, filosófica, política e culturalmente falando.


- Demais posts da série já publicados:


Começando pelo começo

Então, você já deve estar careca de saber que Confúcio foi um pensador e filósofo chinês do Período da Primavera e Outono. O que você talvez não saiba é que, assim como quase todo mundo importante na China antiga, Confúcio não era seu nome de verdade.

Era uma espécie de título que significa mestre Kong (em chinês escreve-se K'ung-fu-tzu, ou 孔夫子), assim como Sun Tzu significa mestre Sun. Seu nome mesmo era Kong Qiu e seu nome de cortesia, Zhongni.

Este nome faz referência ao fato de ele ser o segundo filho (zhong) nascido em sua família - muito embora algumas fontes informem que ele era o caçula.

Ao mestre são atribuídas muitas obras importantes, entre as quais os famosos clássicos da literatura chinesa:


No entanto, acredita-se que nenhum desses textos tenha sido escrito ou compilado por ele. Pelo menos não os textos cujos originais resistiram ao tempo e chegaram ao nosso conhecimento.

Assim, as evidências indicam que as obras que lhe são atribuídas teriam sido escritas ou compiladas no período entre sua morte e a unificação da China em 221 AEC. No entanto, tal qual Sócrates e Jesus, os textos a ele atribuídos refletem grande parte (se não a totalidade) de seus:

  1. ensinamentos/pensamento - caso dos Analetos, a obra mais famosa da grife, compilada por seus discípulos após sua morte
  2. conhecimento - caso das obras acima relacionadas


 

Bebendo das fontes

Adiante, conheceremos um pouco de sua história, antes de entrarmos nos detalhes de sua doutrina. Em todo caso, acho importante informar que a principal fonte que utilizei para escrever este post é a Enciclopédia de Filosofia da Universidade de Stanford, doravante tratada como EF. As demais fontes consultadas podem ser encontradas lá embaixo, na seção "Saiba mais".

Também é útil saber que os três principais textos com informação a respeito da vida de Confúcio reforçam, cada um, diferentes facetas de sua personalidade. Eventualmente, ainda, apresentam contradições sobre os diversos aspectos de sua vida e de seu pensamento.

Essas fontes de que estamos a falar são:

  • O Analetos, já citados ali em cima e que apresentaremos no terceiro post desta série: aqui, o mestre parece mais preocupado com o comportar-se moralmente, mesmo que isso signifique passar por dificuldades e ser acometido de pobreza;
  • Os comentários aos Anais da Primavera e Outono, também conhecidos como Zuozhuan, em que o sábio é uma figura heroica, corajosamente enfrentando os perigos que ameaçavam o duque de sua província natal;
  • A compilação dos ensinamentos de Mêncio, na obra de mesmo nome, onde ele é uma figura politicamente motivada, que busca altos cargos e abandona os "clientes" que não o recompensavam adequadamente.


Também há uma biografia de Confúcio nos Registros do Grande Historiador (Shiji), de Sima Qian. Além de muitas das histórias encontradas nas três fontes acima, o Shiji também apresenta, a respeito da figura, lendas que circulavam a corte da dinastia Han no século II AEC.

Um retrato do sábio

Aliás, Sima Qian faz uma descrição interessante de Confúcio, tendo registrado que o mestre era alto, forte, enxergava longe, tinha uma barriga cheia de Chi, usava longa barba (símbolo de sabedoria), mas vestia-se bem e era simples.

Também deixou registrado que ele possuía um comportamento exemplar, pescava com anzol para dar opção aos peixes, caçava com um arco pequeno para que os animais pudessem fugir, comia sem falar, era direto e franco.

Nascimento, antepassados, família e infância de Confúcio


Estudantes participam de cerimônia do boné viril em um templo de Confúcio na cidade de Qufu


Tradicionalmente, sua data de nascimento é registrada em 27 de agosto de 551 AEC (embora haja alguma controvérsia), tendo ele vivido 72 anos, até o fatídico 479 AEC. Sua família, originalmente, era formada por membros da corte da província de Song.

Seu bisavô teria fugido para Lu por conta de distúrbios ocorridos em sua terra natal, indo morar em um lugar próximo à atual cidade de Qufu, sudeste de Shandong, onde a família perdeu suas riquezas. O pai de Confúcio é normalmente identificado como Shu-Liang He, magistrado e guerreiro famoso que liderou os exércitos de Lu em 563 e 556 AEC.

Quanto a sua mãe, não há informações precisas, mas pode ser que ela fosse proveniente da família Yan (ou Yen, já que seu suposto nome era Yen Cheng Tsai). Isso me cheira a lenda, mas é possível encontrar na internet (e provavelmente em algum livro também) a informação de que ela era descendente de Po Chi'in, o filho mais velho do Duque de Chou, cujo sobrenome era Chi.

Outra informação interessante (e também inconfirmável) é a de que seu pai tinha setenta anos quando desposou sua mãe, com quinze, pasmem! O que parece certo, entretanto, é que ela deu Confúcio à luz na cidade fortificada de Zhou, como já sabemos, no ano do cachorro de metal do calendário chinês.

Também não há informações confiáveis sobre sua infância, compartilhada com dez irmãos, mas aparentemente amargou uma juventude pobre e humilhante. Ao ingressar na vida adulta teria sido obrigado, por força das circunstâncias, a realizar trabalhos tão penosos (pelo menos para os padrões da época) quanto cuidar de gado e ser guarda-livros.

Esse ingresso na vida adulta, pelo menos entre a aristocracia da época, ocorria aos 20 anos, com a chamada Cerimônia da Boné Viril. Mais ou menos por essa idade, Confúcio teria se casado com uma jovem chamada Chi-Kuan, com quem teve (pelo menos) um filho, K'ung Li.

Educação e a vida adulta



Sua educação é outra incógnita, embora tradicionalmente ensine-se que ele estudou ritual com o (fictício) mestre taoista Lao Dan, música com Chan Hong e o alaúde com o músico mestre Xiang. Por volta dos 27 anos ele teria visitado a pequena província de Tan com o objetivo de aprender com o respectivo soberano a história da burocracia.

Já mais ou menos ali pelos sua trinta anos, adivinha quem o cara acompanha em uma caçada? Ora, se não é o duque Jing da província de Qi. Esse lugar, você sabe, é a suposta terra natal de nosso amigo Sun Tzu.

Obviamente, eu especulo se ambos se conheceram nessa ocasião. Confúcio era sete anos mais velho que Sun, que devia estar com seus 23 então. E sendo de uma família poderosa e influente, poderia muito bem estar acompanhando Jing.

Mas deixemos isso de lado, por enquanto, e voltemos à principal figura de hoje. Não muito tempo depois do encontro com o duque Jing (procure por Zhongni neste link, em inglês) ele faz um comentário sobre a morte de Zi Chan, um estadista da província de Zheng:

O amor por outras pessoas, visto entre os antigos, nele sobreviveu.

Essas duas passagens estão retratadas nos Anais (versão Zuozhuan), assim como a seguinte, que acontece não muito tempo depois. Em 518 AEC, um nobre de Lu chamado Ming Xizi louva Confúcio em seu leito de morte, instruindo os oficiais que o acompanhavam a confiar seus dois filhos ao sábio.

E não fica apenas nisso. Cita as palavras de um outro nobre, Zang Sunhe, assumindo-as verdadeiras no caso de Confúcio:

Se um sábio possuído por brilhante virtude está além do seu tempo, então certamente entre seus descendentes haverá um bem sucedido.

Confúcio, a música sagrada e a política

Um par de anos depois, quando o duque Zhao de Lu viu-se obrigado a exilar-se, Confúcio também foi para Qi para ser empregado na casa do nobre Gao Zhaozi. Segundo os Analetos, teria sido nesse período em Qi, com cerca de 35 anos, que ele vira pela primeira vez uma performance da música sagrada de Shao.

Impressionado, arranjou uma audiência com o duque Jing para dizer que a necessidade da terra natal de Sun Tzu era que

o soberano fosse um soberano, seus súditos o fossem, o pai fosse um pai e seu filho o fosse.


Vai saber o que tem a ver a música em questão com o comentário... De qualquer maneira, era uma observação política a respeito da situação da província comandada por Jing, que estava semelhante à de Lu.

Ali, cada vez mais o poder escapava das mãos dos soberanos em direção às de famílias poderosas, mas que não deixavam de ser apenas súditos. No caso de Qi, todos já sabemos, uma dessas famílias era justamente a de Sun Tzu, os Tian.

Após esse episódio, Confúcio retorna para sua terra natal, e tem um papel central na defesa do duque, antes de sair para um segundo giro pelo Reino do Meio. Mas os detalhes você verá no próximo post, daqui a duas semanas.

Enquanto isso, que tal deixar um comentário a respeito do que você leu até agora? Pode até ser discordando ou corrigindo, é você quem manda.

Zài Jiàn!


Saiba mais


Links em português e espanhol



Links em inglês




Créditos e referências


  • Escultura de Confúcio - Foto obtida no blog A Vida Bloga, aparentemente de autoria do pessoal do Zhang Huan Studio.
  • Estudantes chineses e o boné viril - Foto obtida no site ChinaSMACK, sem indicação de autoria.

2 comentários :

  1. muito bom texto e as referencias são otimas

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    Respostas
    1. Obrigado, Igor.

      É sempre bom saber que nosso trabalho está alcançando seu objetivo.

      Forte abraço!

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