Yanzi, estrategista franciscano e detector de baba-ovos

Pintura de São Francisco recebendo os estigmas, feita por Caravaggio

Não comentei aqui no blog ainda, mas tenho pesquisado um pouco sobre a arte da escrita criativa. Sendo eu um newbie, o objetivo é me preparar melhor para escrever o livro com o máximo possível de qualidade.

Pensando um pouco nisso, percebi que os livros antigos chineses seguiam alguns preceitos que tenho visto por aí. Me refiro especificamente aos Anais da Primavera e Outono e, mais especificamente ainda, sobre os conceitos de mostrar e dizer (ou contar).

Pois bem, esses Anais aí não me contaram sobre as características de Yanzi (e de todas as outras personagens que passam por eles), no entanto, dá pra sacar muita coisa tão somente pelas coisas que eles mostram. Foi assim que cheguei à conclusão de que ele é metido a vidente, além de humilde, medroso, aparentemente comunista e, agora, estrategista e detector de puxa-sacos.

Moral da história: parece que as dicas que tenho visto por aí não apenas funcionam, mas também já são utilizadas pelos chineses desde tempos imemoriais. Por falar em antiguidade, voltemos então ao nosso querido mestre Yan e você vai entender o motivo das alcunhas do título do post.

Muito antes de Maquiavel

Ainda no movimentado ano de 538 AEC, quando era o porco regido pela água no calendário chinês, o Ministro da Guerra de Qi, Zao, visita nosso amigo para informar a morte de Gongsun Zao (também conhecido como Zyia). Yanzi faz um comentário que reforça sua convicção a respeito de Ziqi (Luan Shi), o filho do defunto:

Ai de nós! Ziqi não vai escapar de um fim terrível. É um momento perigoso! A Casa de Jiang é fraca e a de Gui vai começar a florescer. Enquanto os dois netos do duque Hui eram fortes e vigorosos, eles poderiam fazer frente um ao outro. Agora existe a fraqueza induzida pela perda de um deles. A Casa de Jiang está cambaleando prestes a cair!

Dois anos depois, em 536 AEC, Han Hu de Zheng vai a Qi, a fim de se casar com uma filha de Ziwei. Yanzi passa a visitá-lo com uma certa frequência, o que deixa Tian Huanzi encucado. Nosso amigo se explica:

Ele é capaz de empregar bons homens, é um líder perfeito!

Em 535 AEC temos mais uma análise dos acontecimentos feita por Yanzi, o cientista político. Dessa vez, a respeito de uma ação militar perpetrada pelo duque Jing.

A ideia do soberano era invadir Yan do Norte a fim de recolocar no poder o duque Jian. Ele até conseguiu invadir a província, mas não chegaria a entrar na capital. E não foi por falta de aviso de Yanzi:

Eles não entrarão na capital de Yan, que tem um soberano ao qual as pessoas não possuem desafeição. Nosso soberano deseja propinas. Os que o circundam, o cortejam e então ele inicia essa grande empreitada, mas não de boa fé. Tais empreitadas nunca foram bem sucedidas.

Quatro anos depois, em 531 AEC, a famigerada querela entre 4 famílias poderosas de Qi chega a um termo favorável à família de Sun Tzu. Os Tian dividiram os espólios com os Bao, outra família que se deu bem.

Yanzi, que já vimos ter uma certa proximidade com os Tian, resolveu aconselhar Huanzi, o pai-de-vc-sabe-quem. Coincidência ou não, a ideia era apenas convencê-lo a entregar sua parte no butim ao duque. Saca só o discurso do cabeça:

Deferência cortês é o ponto essencial da virtude. É uma qualidade admirável. Todos os que têm sangue e respiração têm uma disposição para brigar uns com os outros e, portanto, não se deve procurar obter ganhos por meio da violência. É melhor pensar em honradez. Retidão é a raiz dos ganhos. O acúmulo de ganhos produz infelicidade; deixe-me aconselhá-lo a não buscar essa acumulação agora. Você vai descobrir que ao agir dessa maneira será conduzido ao crescimento de sua superioridade.

Dá pra ver que o cara foi um tanto quanto franciscano muito antes de São Francisco. E, tal qual Jesus com o discípulo publicano, ainda convenceu Huanzi a seguir seu conselho.

Pra se descoçar da sarna

Uma década depois, 521 AEC, o duque Jing estava às voltas com uma sarna que não curava, o que já estava dando o que falar em todo o Reino do Meio. Ao consultar dois de seus oficiais, Ju de Liangqiu e Yi Kuan, foi aconselhado a executar o sacerdote e o historiógrafo, como se ambos fossem culpados na lida de seu ofício.

Jing curtiu a ideia, mas mesmo assim foi tirar a prova dos noves com Yanzi. Naturalmente, ele não perdeu a oportunidade de destilar sua sabedoria ao mesmo tempo em que demonstrava um pouco do seu conhecimento sobre a história do que viria a ser a China:

Anteriormente, no encontro de Song, Qu Jian perguntou a Zhao Wu de que tipo tinha sido a virtude de Fan Hui e obteve como resposta: "Os assuntos da sua família eram bem geridos; ao conversar [com seu governante] sobre a província, ele contava toda a verdade, sem quaisquer pontos de vista particulares. Seus sacerdotes e historiadores, em seus sacrifícios, expunham a verdade, e não diziam nada do que se envergonhar. Os assuntos da sua família não proporcionavam qualquer abertura para a dúvida ou medo e seus sacerdotes e historiógrafos não oravam sobre tais sentimentos". Jian relatou isso ao rei Kang, que disse: "Já que nem os espíritos, nem os homens podiam repreender sua conduta, ele foi capaz de auxiliar cinco soberanos, bem como fazer com que eles se destacassem e se tornassem senhores dos tratados".

O duque Jing ainda insistiu com seu conselheiro:

Ju e Kuan disseram que eu fui capaz de servir aos espíritos e, portanto, eles achavam que o sacerdote e o historiógrafo deveriam ser executados. O que você disse tem a ver com a proposta deles?

Yanzi respondeu:

Quando um soberano virtuoso nada negligencia, em casa ou no exterior; quando nem superiores nem inferiores possuem qualquer motivo de insatisfação e nenhum de seus movimentos se opõem ao que requerem as circunstâncias; seus sacerdotes e historiógrafos trabalham apenas com a verdade e ele não tem nada do que se envergonhar em sua mente. Portanto, os Espíritos aceitam sua oferta e a província recebe a bênção deles, compartilhada pelos sacerdotes e historiógrafos. A felicidade e abundância da província e a longevidade das pessoas são consequência da verdade do governante; as palavras dos sacerdotes e historiógrafos aos Espíritos são, dessa forma, leais e fieis.

E isso foi apenas o começo. Na sequência, ele fala do lado negro da força (e me parece que ao se referir a "eles" está a falar dos sacerdotes e dos historiógrafos):

Se eles encontram um soberano abandonado aos excessos, irregular e vicioso em casa e no exterior, que provoca insatisfação e má vontade em quem é superior e também em quem é inferior, seus movimentos e ações desviados do e em oposição ao que é correto, seguindo os seus desejos e satisfazendo seus objetivos particulares, levantando torres altaneiras e escavando lagoas profundas, cercando-se com a música dos sinos e com dançarinas, consumindo a força do povo e violentamente tirando-lhes os seus acúmulos de riqueza; se eles se encontram com um governante que exerce, assim, a sua violação do que é correto, não cuida de sua posteridade, é opressivo e cruel, dando asas a suas luxúrias, descontroladamente prossegue sem regra ou medida, sem reflexão ou temor, sem dar atenção às reclamações das pessoas, não tendo medo dos Espíritos - ainda que os Espíritos possam estar com raiva e as pessoas sofram -, sem cultivar qualquer tipo de arrependimento; então os sacerdotes e historiógrafos, ao apresentar a verdade, devem falar de suas ofensas. Se eles cobrem os erros do soberano e falam de excelências, eles estão dando falso testemunho; quando eles avançarem ou se retirarem, não terão nada que possam dizer com razão e, então, eles buscarão em vão a lisonja. Portanto, os Espíritos não irão aceitar as oferendas e a província cairá em miséria, que será compartilhada pelos sacerdotes e historiógrafos.

Não sei se o duque chegou a assimilar o que Yanzi disse, pois ele perguntou em seguida o que deveria ser feito. Yanzi começou a resposta detonando o conselho recebido anteriormente por Jing:

As pessoas dos distritos e das fronteiras são forçadas a ingressar na capital e compartilhar dos serviços da cidade. Nos passos próximos à capital, taxas opressivas são cobradas sobre as bagagens dos viajantes. As posições dos altos oficiais, que lhes deveriam ser direito de herança, são alteradas a troco de subornos. Não estão sendo observadas as regras sobre as medidas ordinárias do governo. Requisições e exações são feitas desmedidamente. Seus palácios e mansões mudam diariamente. Você não evita prazeres licenciosos. As concubinas favoritas de seu harém levam e trazem coisas do mercado. Seus oficiais favoritos, fora da capital, emitem ordens falsas nas fronteiras, alimentando a satisfação de seus próprios desejos ególatras. E se as pessoas não os satisfazem, eles as tratam como criminosas. As pessoas estão sofrendo e angustiadas. Esposos e esposas juntam-se para praguejar contra o governo. As bençãos beneficiam, mas as pragas são injuriosas. De Liaoshe a leste e de Guyou a oeste, são muitas as pessoas. Embora suas preces sejam boas, como podem elas prevalecer contra o praguejar de milhões? Se sua senhoria deseja executar o sacerdote e o historiógrafo, cultive sua Virtude e, então, você pode fazer isso.

Jing assentiu e fez seus oficiais estabelecerem um governo generoso, abrir as barreiras nos passos, acabar com as proibições, tornar mais leves suas exações e perdoar dívidas.

A volta do baba-ovo

Não muito tempo depois, Yanzi vê-se às voltas com outra consideração de Jing a respeito do mesmo Ju de Liangqiu acima, o rematado puxa-saco. O duque estava maravilhado com ele e comentou com nosso amigo:

É apenas Ju que está em harmonia comigo!

O comentário de Yanzi foi curto e grosso:

Ele é meramente um bajulador; como pode se considerar que está em harmonia com você?

O duque perguntou qual seria a diferença e seu interlocutor não deixou a peteca cair. Fez (mais) um discurso gigante sobre a realidade das coisas e como deveria ser o relacionamento de um soberano com seus oficiais.

Desta vez, não vou reproduzir aqui o discurso porque já o publiquei em um dos posts sobre o duque Jing (esse link aí de cima). Mas vale a pena ler, tem umas metáforas interessantes e que nos dizem muito sobre a cultura da época.

De qualquer maneira a conversa não para por aí. Como que para reforçar que Yanzi não era um mero bajulador, o diálogo segue ao sabor da bebida, com um assunto diferente, mas com a mesma pegada. Diz o duque:

Se desde os tempos antigos até agora não tivesse havido nenhuma morte, quão grande teria sido o prazer dos homens!

E a resposta foi mais ou menos nessa linha:

Se desde os tempos antigos até agora não tivesse havido morte, como poderia Vossa Senhoria ter compartilhado o prazer do antigos? Antigamente, os Shuangjiu ocuparam este território. A eles seguiu a casa de Ji Ze. Seguiu-se então Boling de Feng e, logo após, a Casa dos Pugu, após a qual veio seu antepassado Taigong. Se os antigos não tivessem morrido, a felicidade dos Shuangjiu é o que você nunca poderia ter desejado.

Acho que já falei isso antes em outro post no blog, mas nunca é demais repetir: se eu fosse Jing pensaria muito antes de não seguir um conselho desse cara. E como já preenchi a cota de palavras para um dia só, ficamos por aqui.

Te espero no próximo e último post sobre nosso ilustre Yanzi, provavelmente daqui a duas semanas.

Zài Jiàn!


Créditos e referências


  • As informações acima são baseadas em três fontes:
  1.  no texto comentado dos Anais da Primavera e Outono, referente ao às regências dos duques Xiang e Zhao (da província de Lu) disponível no site do Instituto para Tecnologias Avançadas em Humanidades (IATH), da Universidade de Virgínia.
  2. Nas páginas a respeito de Qi e Yanzi no site China Knowledge.
  3. O artigo sobre Yanzi disponível na Wikipédia (em inglês).
  • A pintura de Caravaggio que nos encanta neste post veio do blog Arte & Ofício.

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