Yanzi, humildemente medroso e aparentemente comunista

Ilustração de Scooby Doo e Salsicha na tenebrosa noite feita por Sakimichan

Seguindo nossa epopeia bloguística, apesar de ainda ter muito assunto para tratar por aqui, vamos continuando com a apresentação das personagens que farão parte do livro. Caso você ainda não saiba, o livro a que me refiro é uma obra de ficção histórica que estou a escrever inspirado em Sun Tzu, seu livro A Arte da Guerra, e os acontecimentos da época em que ele vivera.

Deixando de lero-lero, no último post iniciamos uma série a respeito de Yanzi, um dos grandes sábios do Período da Primavera e Outono. Terminamos ali pelo ano do tigre de madeira no tradicional calendário chinês, 547 AEC, quando foi assassinado o duque Zhuang. e o líder do golpe decidiu manter Yanzi vivo.

Já em 546 AEC, quando Jing foi a Jin interceder por seu colega duque de Wey (que havia sido detido), Yanzi foi junto. Como eles não sabiam o motivo da prisão, Yanzi ficou encarregado de descobrir e assuntou junto a Shuxiang:

O governante de Jin mostra sua brilhante virtude para as províncias, compadecendo-se de suas angústias, reparando seus defeitos, corrigindo seus erros e aliviando seus problemas. Desta forma, ele é o senhor dos tratados; mas como é que agora ele detem um soberano por causa de um súdito?

Shuxiang então, após trocar uma ideia com seu duque, explicou a situação aos dois soberanos que tentavam ajudar o duque de Wey (o outro era o conde de Zheng). No final das contas eles conseguiram a liberação do prisioneiro.

Tratado sobre a (não) riqueza

Dois anos depois (544 AEC), por conta do exílio de Qing Feng, Yanzi é agraciado com um presentinho do duque: toda a região de Beidian. Era um pedaço grande de chão que tinha mais ou menos 60 cidades e faria nosso amigo muito, muito rico.

Eu escrevi faria? É isso mesmo, ele não aceitou o presente, fazendo com que um estupefato Ziwei o questionasse:

Riquezas são o que os homens desejam. Como pode você não as desejar?

A resposta do sábio:

As cidades de Qing eram suficientes para excitar os desejos dos homens e, portanto, ele está agora no exílio. Minhas cidades não são suficientes para fazer isso; mas se eu recebesse Beidian, o dia do meu exílio não estaria distante. No exterior, eu não teria uma cidade para presidir. Não receber Beidian não significa que eu odeio riquezas, mas sim que eu tenho medo de perder minha riqueza.

Além disso, a riqueza deve ser como pedaços de pano ou de seda, que são feitas em comprimentos de uma determinada medida, que não pode ser alterada. Quando as pessoas têm os meios de sustentação abundantes e as conveniências da vida, deve haver a retificação da virtude para agir como um limite ou fronteira para elas. Não as deixe tornar-se abandonadas e insolentes, e você tem o que pode ser chamado de uma fronteira para proteger suas vantagens. Se a fronteira é ultrapassada, ruína se seguirá. Não cobiçar ter mais do que eu tenho é o que é chamado o limite de proteção.

Jing então distribuiu as terras entre Beiguo Zuo, Zyia e Ziwei. A mensagem de Yanzi no entanto fez efeito e os dois últimos agraciados não aceitaram a totalidade do que lhes foi oferecido.

No ano seguinte (543 AEC), Gongzi Zha de Wu chega em Qi para apresentar o novo duque de sua província. O visitante se agradou de nosso amigo Yanzi e deu um conselho a ele:

Devolva rapidamente à província suas cidades e sua participação no governo. Se você estiver sem cidades e encargos, você vai escapar dos problemas que estão vindo. O governo de Qi cairá nas mãos da pessoa certa; mas até que isso aconteça, seus problemas não cessarão.

Yanzi seguiu o conselho e declinou de sua parte no governo e de suas cidades, estas a favor do pai de Sun Tzu, Tian Huanzi. Quanto aos problemas que estavam virando a esquina, me parece que tinham a ver com os Luan e os Gao e você pode ver mais detalhes aqui.

Participação especial

A próxima participação especial de Yanzi acontece somente 4 anos depois, em 539 AEC. Na ocasião Han Xuanzi (ou Qi), um ministro de Jin, peregrina por várias províncias em uma missão para informar sobre o novo soberano de sua província.

Em Qi, o cara foi apresentado aos filhos de Gongsun Zao e de Gongsun Chai, e não teve boa impressão das figuras. Muitos oficiais desdenharam de sua avaliação, mas Yanzi saiu em sua defesa, dizendo algo do tipo:

Ele é um homem superior. Um homem superior deve ter credibilidade; ele tem meios de saber o que diz.

Obviamente, a história viria a confirmar isso, mas aí também já são outros quinhentos. Voltando aos quinhentos atuais, passamos para o ano seguinte, 538 AEC.

Uma das concubinas favoritas do duque de Jin (a jovem Jiang, natural de Qi) havia falecido prematuramente e Yanzi foi enviado para a poderosa província com o objetivo do oferecer uma substituta.

O discurso, obviamente, estava na ponta da língua:

Meu soberano me enviou para dizer: "eu desejo servir sua senhoria, dia e noite sem descanso e traria meus presentes e ofertas de modo a nunca perder uma estação; mas tem havido muitas dificuldades na minha província, de modo que eu não tenho sido capaz de comparecer pessoalmente. A pobre filha de meu pai foi enviada para completar o seu harém e derramou uma chama de glória sobre as minhas esperanças, mas ela foi desafortunada e morreu precocemente, arruinando minha esperança.

Se sua senhoria, não esquecendo a amizade entre os nossos antigos soberanos, gentilmente considerar a província de Qi e dignar-se a aceitar-me para que eu possa buscar as bênçãos do Grande duque e do duque Ding, fazendo brilhar minha província, protegendo e confortando seus altares, então ainda existem muitas das filhas de meu pai com sua esposa, bem como de suas irmãs. Se sua senhoria, não abandonando minha pobre província, enviar alguém para julgar e selecionar entre elas aquelas que podem completar as senhoras de seus aposentos, isto irá satisfazer a minha esperança".

O casamento foi acertado e um banquete foi realizado para Yanzi. Durante a celebração, um figurão chamado Shuxiang pergunta ao visitante como vão as coisas em Qi. Sua resposta foi mais ou menos assim:

O fim está próximo. Eu não sei nada além disso: Qi vai se tornar a posse da família Tian. O duque está se afastando de seu povo e eles estão se voltando para os Tian. Qi, desde os tempos antigos, teve quatro medidas: dou, ou, fu e zhong. Quatro sheng fazem um dou e, até o fu, cada medida é quatro vezes a precedente. Um zhong é formado por dez fu. A família Tian faz cada uma das primeiras três medidas uma vez maior, de modo que o zhong é muito grande, emprestando de acordo com sua própria medida e recebendo de volta de acordo com a medida pública. É cobrado o mesmo preço para a madeira em suas colinas e nos mercados, de modo que ela não custa mais no mercado do que no morro. O seu peixe, sal e rãs custam o mesmo no mercado que na água.

O produto da força do povo é dividido em três partes, duas das quais são pagas à província, enquanto apenas uma é deixada para eles, para comida e roupas. Os grãos nas lojas ducais apodrecem e são comidos por insetos, enquanto as três classes dos antigos passam frio e fome. Em todos os mercados da província, sapatos comuns são baratos, enquanto aqueles para os criminosos cujos dedos foram cortados são caros. As pessoas lamentam amargamente tudo isso e há um que mostra uma ardente simpatia por elas. Ele as ama como um pai e elas vão para ele como uma corrente que flui. Embora ele não quisesse ganhá-los para si mesmo, como ele escapará fazê-lo? Havia Jibo, Zhibing, Yusui e Pihhe, cuja ajuda foi dada ao duque Hu e Taiji, e agora, em sua influência espiritual, estão todos em Qi.

Parêntese: se você acompanha o blog regularmente, já sabe que os Tian são a família de Sun Tzu. Continuando, Shuxiang também também lamentou-se a respeito do iminente fim de Jin. E quando se falava em fim, pelo menos da lado de Yanzi, estava se querendo dizer que a linhagem atual não mais governaria a província.

Minha casa, minha vida

No discurso de Yanzi acima há um trecho que tem correlação com o episódio narrado a seguir. Sutil, mas tem.

Ocorre que, antes de ter mandado Yanzi a Jin, o duque Jing desejou que nosso amigo mudasse de residência e argumentou:

Sua casa é próxima ao mercado, baixa, pequena, barulhenta e empoeirada. Você não deveria morar lá. Deixe-me mudar para uma iluminada e elevada.

Conhecendo o Yanzi do jeito que você já conhece, acho que já sabe que ele não vai aceitar, né? Então, olha só o argumento do cabra:

O ex-ministro de sua senhoria, meu pai, poderia suportar isso. Eu não sou digno de ser seu sucessor. A mudança que você propõe seria uma extravagância para mim. E, além disso, um homem pequeno como eu, vivendo perto do mercado, pode obter o que deseja a qualquer momento, o que é um benefício. Eu não me atrevo a ser motivo de dificuldades para as pessoas da vizinhança.

O duque riu e perguntou-lhe se, por sua proximidade com o mercado, ele sabia quais mercadorias eram baratas e quais eram caras. Yanzi devolveu uma pergunta:

Uma vez que me é vantajoso, deveria eu ousar não saber disso?

Jing então insistiu no assunto e pediu exemplos. Yanzi nem pestanejou para meter o dedo na ferida:

Sapatos para as pessoas cujos pés foram cortados são caros e sapatos comuns são baratos.

A ferida, no caso, é o fato de o duque ser um tanto quanto excessivamente severo em suas punições e mandar cortar os dedos dos pés de meio mundo de pessoas. Naturalmente, em algum momento a famigerada lei da oferta e da procura ia descobrir isso e entrar em ação.

Jing não era bobo nem nada, entendeu o recado e passou a maneirar a mão. Mas, sabe como é, rei é rei, duque é duque e caixinha de fósforo é caixinha de fósforo.

Mal Yanzi partiu em sua missão, o duque providenciou sua nova moradia. Em vão: quando o oficial retornou, mandou derrubar a casa, reconstruiu as moradias vizinhas tal qual antes eram para que os antigos moradores retornassem.

Mas o povo é imprevisível (será?) e não quis voltar. Yanzi não teve outra saída que não apelar para seu velho e afiado gogó:

Há o ditado popular, "Não é sobre a casa que a carapaça de tartaruga é consultada, mas sobre os vizinhos." Meus amigos, a carapaça de tartaruga foi anteriormente consultada sobre este bairro. Ir contra a adivinhação é de mau agouro; e que o homem superior não viola as regras do decoro, enquanto os homens menores não incorrem no risco do que seja pouco auspicioso, é um antigo regulamento; devo me atrever a desobedecê-lo?

No final das contas, as pessoas voltaram a suas antigas casas. Inicialmente, o duque recusou sua sanção, mas acabou concedendo-a, quando Yanzi procurou Tian Huanzi para interceder por ele.

Tudo voltou ao normal e por aqui encerramos mais este episódio da biografia de Yanzi. Aguardamos você no próximo, se tudo der certo, daqui a duas semanas.

Zài Jiàn!


Créditos e referências


  • As informações acima são baseadas em três fontes:
  1.  no texto comentado dos Anais da Primavera e Outono, referente ao às regências dos duques Xiang e Zhao (da província de Lu) disponível no site do Instituto para Tecnologias Avançadas em Humanidades (IATH), da Universidade de Virgínia.
  2. Nas páginas a respeito de Qi e Yanzi no site China Knowledge.
  3. O artigo sobre Yanzi disponível na Wikipédia (em inglês).

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