Pingzi, vida ao defunto e carne aos ossos nus


Arte de capa do livro Apocalipse Zumbi 2 – Inferno na Terra, do meu xará Alexandre Callari

Eis que estamos de volta com a história do (quase) todo poderoso de Lu e uma das principais personagens do livro que estou a escrever: Pingzi. No post anterior paramos no momento em que o povo de Jin resolve que não era interessante mantê-lo prisioneiro e o libertam, ali pelo final do ano de 528 AEC.

Ele chegou de volta a Lu já no ano seguinte, 527 AEC. Dois anos depois temos notícia de uma conversa dele com um tal Zifu Zhaobo, em que este fala algo do tipo:

A Casa do duque de Jin será em breve reduzida a uma condição baixa. O soberano é jovem e fraco e os seis ministros são fortes, extravagantes e arrogantes. Eles vão tirar vantagem da debilidade do duque para andar por caminhos errados, até que isso se torne uma prática comum. Não deverá a Casa se tornar pequena?

Se você leu o texto sobre o duque Zhao de Lu (sim, de Lu) e prestou atenção ao que leu até agora no presente post, verá as semelhanças entre a terra natal de Confúcio e o que Zifu diz a respeito de Jin. Por acaso, Pingzi responde com uma certa arrogância:

Você é jovem; como poderia saber qualquer coisa sobre assuntos de governo?

Pouco tempo depois, Pingzi vai a Jin para participar do funeral do duque Zhao (sim, era o mesmo nome que o do duque de Lu). Lá, percebe que o jovem Zifu estava certo e dá o braço a torcer:

As palavras de Zifu Hui parecem verdadeiras. Sua família tem um filho de valor.

Quando o Sol se esconde

Após fazer a constatação acima, parte para o ano de 524 AEC, quando Lu recebe a visita do duque Mu da Pequena Zhu. Durante o banquete de recepção, Pingzi canta uma ode do livro das canções e a resposta do visitante, outra ode, não parece muito auspiciosa.

Shusun Zhaozi, que estava presente, foi quem comentou:

Ele não é capaz de governar sua província, que não deve permanecer por muito tempo.

No verão do mesmo ano ocorre um eclipse solar, ocasião em que o sacerdote e o historiógrafo questionam sobre o emprego das ofertas de seda. Zhaozi, de novo, tem algo a dizer:

Quando acontece um eclipse, o filho dos Céus não tem sua mesa completamente coberta e faz o tambor soar no altar da terra, enquanto os príncipes das províncias apresentam suas ofertas de seda na altar e fazem o tambor soar em suas cortes. Essa é a regra.

Pingzi discordou:

É apenas no primeiro mês, antes de a influência maléfica ter se apresentado, que se aplica essa regra de, na ocasião de um eclipse, soar o tambor e oferecer a seda. Em outras ocasiões não existe tal regra.

O historiógrafo também entrou na conversa:

É apenas este mês. Depois de o sol passar o equinócio e antes de chegar ao solstício, quando qualquer calamidade acontece com o sol, lua ou estrelas, os vários oficiais deixam de lado seus robes elegantes, o soberano não tem sua mesa completamente coberta e retira-se de seu principal aposento até que o eclipse tenha passado. Os músicos batem os tambores, o sacerdote apresenta suas ofertas e o historiógrafo faz um registro.

O cara ainda faz referência ao "Livro dos Xia" para corroborar seu ponto de vista, que me pareceu favorável a Zhaozi. Mesmo assim, Pingzi resolveu não seguir seu conselho.

Zhaozi então retirou-se soltando os cachorros:

Em breve ele demonstrará não ter afeição. Ele não está tratando nosso soberano como seu soberano.

E essa é a última notícia que os Anais da Primavera e Outono nos dão sobre Pingzi em um período de 8 anos. Isso mesmo, só voltamos a saber dele em 516 AEC, quando a situação do duque Zhao começa a se complicar e a previsão de Zhaozi vai se confirmando.

A nova novela das oito

Antes disso, no entanto, vamos a Song, aonde Shusun Zhaozi vai em uma missão diplomática e também em busca da noiva de Pingzi. Tratava-se da filha da tia, vulgarmente conhecida como prima, de Pingzi.

A tia em questão é irmã de Ji Gongruo (ou Gonghai, tio de Pingzi), esposa do visconde da Pequena Zhu e mãe da lady Cao, esposa do duque Yuan de Song. Ou seja, Pingzi tinha pelo menos outra prima (além da prometida) que, no caso, era do primeiríssimo escalão da província de Song.

Mas isso não importa agora, a não ser pelo fato de Gongruo ter dito à prima vip que não deveria dar sua filha a Pingzi, pois ele seria expulso de Lu. Ela falou para o duque, que foi trocar ideia com um oficial chamado Yue Qi.

Sua resposta foi meio comprida, mas favorável a Pingzi:

Você fará bem em casá-la com Pingzi. O soberano de Lu terá que deixar sua província. O governo de lá tem estado há três gerações nas mãos da família Ji. Já são quatro os soberanos de Lu que perderam o controle do governo. Não existe um único caso em que o soberano possa retomar o controle sem as pessoas. O soberano da província deve ser o protetor e o confortador de seu povo. Diz a ode

"Os homens não são...
É a mágoa de meu coração."

O soberano de Lu perdeu as pessoas. Como pode ele fazer sua vontade? Se ele permanecer calmo e esperar o desdobramento dos eventos, pode ser que ele consiga; qualquer movimento lhe deixará mágoas.

Acho que eu não preciso informar que as palavras de Yue Qi estavam certas, preciso? No entanto, alguns desafetos arranjados ao longo do tempo nos levam a crer que Pingzi vai se dar mal - pelo menos no curto prazo.

O primeiro deles surge quando morre um sujeito chamado Ji Gongniao, que também era tio de Pingzi, filho do avô deste com uma concubina, e irmão do Gongruo/Gonghai ali de cima. O falecido também era casado com uma mulher chamada Ji Si, que por acaso era irmã de Bao Wenzi, de Qi. Lembra dele?

Então, com a morte de Gongniao, seu irmão Gongruo -- junto com seu mordomo Shen Yegu e Gongsi Zhan (também um Ji ou Jisun, ou seja, parente de Pingzi) -- passou a gerir os negócios do falecido. Não sendo de ferro nem nada, Ji Si começa a ter um caso com seu cozinheiro, Tan.

Com medo (e tenho minhas dúvidas se foi apenas medo mesmo), armou uma trama digna da próxima novela das oito. Pediu que uma concubina batesse nela e em seguida, mostrou as marcas para a irmã de Gongniao, esposa de um alto oficial de Lu conhecido como Qin Chuan.

Adivinha só o que ela disse! Não, não adivinha, foi mais ou menos isso:

Gongruo queria me usar e, quando eu me recusei, ele me bateu.

Você tá acompanhando, não? O Gongruo/hai é o mesmo que passou a gerir os negócios do falecido da viúva negra aí. Mas, obviamente, não ficou só nisso.

Na sequência, ela também queixou-se a Gongfu (um irmão de Pingzi), que Zhan e Yegu tentou forçá-la. Esses, você lembra, são os mesmos que estavam apoiando o Gongruo.

Por sua vez, Qin Ji, a esposa de Qin Chuan, relatou o que ouvira a Gongzhi (outro irmão de Pingzi). Este, juntamente com Gongfu, levou o caso a seu germano. Ele não perdeu tempo e mandou logo prender Yegu (com a intenção de executá-lo) e Zhan em um lugar chamado Bian.

Gongruo lamentou o caso e deixou claro:

Matá-los é o mesmo que me matar. Eu vou interceder por eles.

No entanto, Pingzi não permitiu que ele apresentasse o pedido de intercessão, inventando expedientes para atrasá-lo. Nesse meio tempo, o oficial a cargo de Yegu foi ordenado por Gongzhi a executar o prisioneiro imediatamente. Em consequência, Gongruo ficou de malzinho com Pingzi.

Mais desafetos

Outra rixa acontece entre Pingzi e Hou(shi) Zhaobo, o chefe da família Hou. Ambos eram apreciadores de rinhas e tinham o hábito de fazer com que seus galos brigassem uns contra os outros. Em uma dessas lutas, Houshi colocou esporas de metal no seu animal e deixou Pingzi irritado a ponto de ele utilizar seu poder para aumentar seus benefícios em detrimento dos Hou.

No texto dos Anais está escrito, na verdade, que ele "aumentou sua mansão as custas da mansão do outro". E acho que não preciso dizer que Houshi também ficou chateadinho com Pingzi.

Por fim, um sujeito chamado Hui havia espalhado calúnias contra seu primo Zang Zhaobo (ou Zangshi) e depois fugido para debaixo das asas de Pingzi. Zang tentou prender o caluniador e deixou, com isso, Pingzi furioso. Ele, por sua vez, mandou prender o mordomo de Zang.

Acontece que, mais ou menos quando os dois estavam se bicando, havia sido organizada a oferta de um sacrifício no templo do duque Xiang. Na hora H compareceram somente dezesseis bailarinas, estando as restantes ocupadas Pingzi.

Aparentemente, o sacrifício havia sido organizado pelos Zang, já que um tal de Zangsun comentou algo do tipo:

Isso pode fazer-nos dizer que nós não podemos usar as cerimônias apropriadas no templo de nosso falecido soberano.

É uma frase estranha, eu sei, eu também não entendi muito bem. No entanto, os altos oficiais entenderam e passaram a cultivar uma birra com o já afamado Pingzi.

Com esse tanto de inimigos, até que demorou pra alguém começar a tramar contra nosso amigo aí. E tenho quase certeza que você já sabe quem é esse alguém, não sabe?

Virando o jogo (mas, antes, se humilhando um pouco)

O tio de Pingzi em pessoa, Gongruo, jogou uma conversa para cima de um dos filhos do duque. A conversa colou, o duque relutou um pouco mas acabou entrando na dança e terminaram por encurralar Pingzi em sua residência.

Acontece que Pingzi também tinha aliados que não apenas o socorreram (depois de ele ter implorado clemência ao duque), mas também fizeram com que Zhao e sua trupe se escafedessem para Qi.

Na sequência Zhaozi (Shusun Chuo) retorna de uma viagem a um lugar chamado Kan e vai falar com Pingzi, que parecia respeitá-lo muito (ou estava ciente de que o que havia feito era altamente condenável). Tanto que fez uma profunda reverência ao visitante ao perguntar:

O que você acha de mim?

A resposta começou com uma pergunta bem valar morghulis:

Que homem está vivo mas deve morrer? Você colocou um ponto final em seu nome ao expulsar nosso soberano. Seus descendentes não se esquecerão disso. Não é um assunto delicado?

Pingzi então tentou se redimir (ou fingiu muito bem):

Se você descobrir que eu tenho uma oportunidade de servir nosso soberano de um jeito diferente do que fiz no passado, estará dando, como se diz, vida ao defunto e carne aos ossos nus.

Zhaozi então partiu para Qi, para ter uma conversa com o duque, provavelmente para persuadi-lo a retornar. Além de sua missão não ter sido bem sucedida, Pingzi aparentemente havia mudado de ideia quanto a reparar seu erro. Pouco tempo depois, Zhaozi partiu para a terra dos pés juntos e, obviamente, nunca mais retornou.

Pingzi, por sua vez, parece que estava destinado a fazer inimigos. Após os eventos relacionados a Zhaozi ele arrumou encrenca com Zang Zhaobo, que terminou indo para o exílio junto com o duque.

Depois disso, para o que diz respeito a nossos nefastos objetivos, Pingzi aparece em dois momentos relacionados ao cerco promovido por Qi sobre a cidade de Cheng. Como esses momentos estão muito bem documentados no último post sobre a história de Qi, não os repetirei.

Relembro apenas que um deles tem a ver com nosso amigo Sun Tzu (ou Chen/Tian Wuzi para os íntimos). E aqui deixamos a história de Pingzi para trás e daremos início à de Yanzi, mas nos próximos posts, claro!

Grande abraço e Zài Jiàn!


Créditos e referências


  • As informações acima são baseadas em três fontes:
  1.  no texto comentado dos Anais da Primavera e Outono, referente ao à regência do duque Zhao (da província de Lu) disponível no site do Instituto para Tecnologias Avançadas em Humanidades (IATH), da Universidade de Virgínia.
  2. Na página a respeito de Lu no site China Knowledge.
  3. O artigo sobre Lu disponível na Wikipédia (em inglês).

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