Duque Zhao, o vacilão, e os espíritos do caminho

Ilustração representando o famoso episódio da literatura grega do cavalo de Troia

Após conhecermos 3 membros da família de Sun Tzu e a ficha corrida do duque Jing de Qi, chegou a vez de mais uma das personagens do livro passar por aqui: trata-se de ninguém menos que outro duque, o Zhao da província de Lu.

Ao contrário de outros soberanos de seu tempo, a ascensão de Zhao parece ter sido tranquila. Ele sucedeu a seu próprio pai, o duque Xiang, que aparentemente morreu de causas naturais.

As duas fontes que são a base de minha pesquisa (veja ao final da post) citam apenas que Xiang morreu no Palácio Chu. Essa construção, por sua vez, havia sido erigida pelo próprio Xiang após uma visita à província de Chu -- percebeu a coincidência dos nomes?

E Xiang não apenas morreu jovem, aos 35 anos, como também Zhao era muito jovem quando substituiu seu pai. Ele tinha apenas 19 anos quando, em 540 AEC, assumiu o comando da província.

A volta de quem não foi

Antes de seguirmos em frente vale a pena informar que o nome de batismo de Zhao era Chou. Outra informação importante é que ele era filho de Xiang com uma concubina e, a princípio, não deveria ter sucedido seu pai.

Pelo que entendi, quem deveria ter assumido era o irmão do defunto, Mu Shu. No entanto, um sujeito conhecido como Ji Wuzi articulou para que isso não acontecesse.

Foi esse mesmo Wuzi quem, pouquíssimo tempo depois, liderou a invasão de Ju e tomada da cidade de Yun. No entanto, o relato dos Anais em momento algum faz referência a qualquer participação do duque recém empossado.

Na primavera de 539 AEC, o ano do cachorro de água pelo tradicional calendário chinês, Zhao recebe a vista de Han Qi, principal ministro de Jin. No verão do mesmo ano, em retribuição, envia Shu Gong para renovar os laços de amizade entre ambas as províncias.

No inverno seria a vez de Zhao em pessoa partir em direção à província aliada. Entretanto, acabou voltando sem empreender a viagem completa.

O motivo da visita era prestar condolências ao duque aliado por conta da morte de Jiang, sua jovem esposa. Ocorre que ela não era a principal e o duque de Lu, no meio do caminho, foi informado por um emissário de Jin que não era necessário comparecer pessoalmente.

As regras para essa (e todo tipo de) ocasião eram muito claras naquela época, Arnaldo, e certamente Zhao estava mais do que ciente de que não precisava se dar o trabalho. Por outro lado, e talvez por uma insegurança juvenil, queria fazer uma média com Jin e precisou levar um puxão de orelha para esquecer a ideia.

Há quem diga que ele voltou por medo de se tornar prisioneiro do duque Dao. De um jeito ou de outro, não vi lá muita hombridade em sua atitude, e você?

Os manda-chuvas e os espíritos do caminho

A verdade é que seu reinado já havia começado mal e quem dava as cartas mesmo eram a família do tal do Ji Wuzi (parece que os Jinsun) e mais umas duas outras. Tanto que em 536 AEC os tubarões de fato dissolveram o que eles chamavam de exército do centro.

O objetivo, de acordo com os Anais, era basicamente enfraquecer a casa ducal. Ainda não entendi bem como funcionam essas denominações para o exército, mas é muito provável que esse do centro fosse ligado ao duque e sua família.

Pois bem, enfraquecido que estava, Zhao partiu para Jin e dessa vez chegou ao seu destino, onde nada de extraordinário ocorreu. Mas sua fama o havia precedido e o duque Ping, após sua partida, travou um diálogo com um tal de Ru Shuqi no qual este deixa claro que sabia quem de fato mandava em Lu.

Dois anos depois, em 534 AEC, Chu iria inaugurar a torre de Zhanghua e convidou nosso querido duque para a festança. A princípio, ele aceitou o convite, mas quando se preparava para ir sonhou que o falecido duque Xiang oferecia um sacrifício aos espíritos do caminho para que sua jornada fosse segura.

Zhao não teve dúvidas: foi imediatamente atrás de Zi Shen a fim de descobrir o significado do sonho. Sua interpretação foi mais ou menos assim:

Você não deve realizar o propósito de ir. Quando duque Xiang ia Chu, ele sonhou que o duque de Zhou ofereceu esse sacrifício para ele e tinha esse significado. E agora ele mesmo o oferece a ti. Sua senhoria não deve ir.

Zifu Huibo, no entanto, disse o contrário:

Você tem que ir. Nosso ex-governante nunca tinha ido para Chu e, portanto, o duque de Zhou ofereceu o sacrifício para guiá-lo. Duke Xiang foi para Chu e agora ele oferece o sacrifício para guiar você pelo caminho. Se você não for, aonde você deve ir?

O duque convenceu-se e, no terceiro mês, acompanhado por Meng Xizi, #partiu #Chu. No caminho, trocou figurinhas com o conde de Zheng em um lugar chamado Shizhiliang, antes de chegar ao seu destino.

Presente de grego (mais ou menos)

Sob os auspícios de um eclipse solar, o duque de Chu deu a Zhao um arco chamado Daqu. No entanto, o cara se arrependeu e mandou o astuto Wei Qiqiang dar um jeito de obter de volta o artefato.

Wei foi ter com Zhao e já começou a conversa parabenizando o visitante. Ao ser questionado sobre o motivo, a resposta foi algo do tipo:

Qi, Jin e Yue desejaram por um longo tempo obter este arco. Nosso governante não conseguiu decidir a quem o dar e agora você o possui. Você deve estar preparado para resistir às tentativas de esses três vizinhos o tomarem e guardar cuidadosamente o tesouro precioso.

Não sei se era de sua natureza se acovardar ou se foi somente devido à inexperiência da juventude (embora ele aí já estivesse na casa dos 25 anos), mas o fato é que o duque de Lu devolveu o artefato sem pestanejar. E, após 6 meses longe de casa, retornou à província natal.

Passaram-se quatro anos e, em 530 AEC, morre a mãe de Zhao. Se chamava Qi Gui e, em seu enterro, dizem os Anais que o duque não demonstrou pesar e que este seu comportamento foi comentado até em Jin. No ano seguinte, ele recebeu a visita de Hua Ding, representando o duque de Song, a fim de estabelecer um relacionamento entre ambas as províncias.

Pouco depois ele iria para Jin, mas novamente retornou do meio do caminho. Desta vez, também a pedido da província a ser visitada, porém em função de um outro fato: eles estavam muito ocupados lidando com os desdobramentos da morte do duque Ping, que já contava cerca de três anos.

Ainda assim, em lugar de Zhao, foi seu irmão Yin. Mas, isso não quer dizer que ele não se encontraria com o (novo) duque de Jin.

Lavando a roupa suja

Em 528 AEC ele foi a Pingqiu a fim de participar de uma assembleia com outros chefes de provincias. Entre eles, encontrava-se o soberano de Jin, que tem o mesmo nome de nosso amigo Zhao e, para facilitar a nossa vida, utilizarei sua graça de "batismo": Jiyi.

No encontro rolou lavagem de roupa suja pra todo lado e, numa dessas, quase Lu se estrepa. É que as provincias de Zhu e Ju reclamaram à poderosa Jin que não conseguiam pagar seus tributos devido à forma como eram tratadas por Lu:

Dia e noite Lu continua a nos invadir e estamos quase em ruínas. Não podemos pagar as nossas contribuições por causa disso.

Não vendo o duque na reunião, Jiyi mandou Shuxiang informar-lhe que não era necessário comparecer, ameaçando de leve:

As províncias estão a caminho de fazer uma aliança em Jiaxu, mas meu soberano sabe que ele não pode servir à sua senhoria e reza para que sua senhoria não se incomode.

Após uma resposta atravessada de Zifu Huibo, Shuxiang continuou:

Nosso soberano tem aqui 4 mil carruagens de guerra. Se ele estivesse agindo contrariamente ao que é certo, seria necessário temê-lo. Mas quando ele está agindo de acordo com o que é certo, quem pode se opor a ele? Um boi pode ser magro, mas se ele cair sobre um porco, você não temeria pela vida do porco? Você pode esquecer seus problemas com Nan Kuai e Zizhong? Se nós conduzirmos as multidões de Jin, usando também as forças das outras províncias e aproveitando a raiva que Zhu, Ju, Qi e Zeng possuem de vocês; se chegarmos, assim, a punir Lu por suas ofensas, com a oportunidade proporcionada por esses dois espíritos de problemas, o que podemos procurar que não consigamos alcançar?

Tá bom, a ameaça não foi tão de leve assim. No entanto, surtiu o efeito desejado, Zhao ficou com medinho e Lu submeteu-se à vontade de Jin (inclusive a de não participar da assembleia).

Na sequência, seu ministro Jisun Yiru foi detido e levado prisioneiro de volta a Jin, com Zifu Jiao o acompanhando. Não há informações sobre Zhao ter feito algum esforço para evitar isso.

Porém, não muito tempo depois, ainda em 528 AEC, nosso amigo resolveu mais uma vez ir a Jin. Provável que tivesse a intenção de sacramentar a paz entre ambas as províncias, bem como tentar obter a liberação de seu ministro.

Mas, pra variar, Jin novamente mandou um recado para que ele não fosse adiante com seu plano. Desta vez o argumento saiu de uma conversa entre dois sujeitos de Jin: Han Xuayi e Xun Wu, que teria dito algo do tipo:

Os príncipes visitam as cortes uns dos outros para falar sobre e confirmar a velha amizade existente entre eles. Como estamos mantendo seu ministro prisioneiro, mesmo que recebamos o governante em nossa corte, não há amizade entre nós. É melhor declinarmos a sua visita.

Acho que não preciso dizer que, de novo, o duque de Lu arregou, preciso? Pois é, e já que foi assim, aproveito para finalizar este post por aqui mesmo.

Mas não pense que a história de Zhao terminou. No próximo post continuaremos com a saga do duque vacilão, incluindo seu exílio em Qi, onde tudo acontecerá em meu livro.

Espero que esteja curtindo e aguardo você em breve.

Zài Jiàn!


Créditos e referências


  • As informações acima são baseadas em duas fontes:
  1.  no texto comentado dos Anais da Primavera e Outono, referente ao à regência do duque Zhao (da província de Lu) disponível no site do Instituto para Tecnologias Avançadas em Humanidades (IATH), da Universidade de Virgínia.
  2. Na página a respeito de Lu no site China Knowledge.

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