Duque Jing de Qi, o leal decepador de pés

Pintura de paisagem da China antiga, com casas, rios e pessoas

Personagens, personagens e mais personagens. Esta é a matéria-prima de que se compõem os livros. E estes são tão bons quanto forem aqueles.

Por isso, estamos insistindo com esses posts sobre as principais personagens da história que escrevo sobre Sun Tzu, o autor do milenar tratado bélico A Arte da Guerra. A ideia é fazer um apanhado com os fatos envolvendo essas personas destacados nos Anais da Primavera e Outono e, eventualmente, alhures.

E após conhecermos alguns membros da família de nosso herói (aqui, aqui e aqui), que certamente terá um papel importante na história, vamos agora às tais principais personagens. Para tanto, nada melhor que iniciarmos com o rei do pedaço, duque Jing de Qi.

Apresentações e intercessões

Seu nome pessoal era Jiang Chujiu e ele se tornou o 23° soberano de Qi em 548 AEC. Curiosamente, 4 anos antes do nascimento de nosso heroi.

Jing teve um período relativamente longo de reinado, indo até 490 AEC, perfazendo 58 anos. Para se ter uma ideia melhor do que isso representa, basta dizer que durante seu período à frente de Qi, nada menos que 3 soberanos governaram a província vizinha de Lu.

Como tantos outros contemporâneos seus, sua ascensão foi atribulada, resultado de um atentado contra seu antecessor, o duque Zhuang. Aparentemente, esse duque era metido a Don Juan e se engraçou com a esposa de um nobre chamado Cui Wuzi (descendente de outro duque, o Ding).

Não preciso explicar, né? Cui Shu (ou Cui Wuzi, ou simplesmente Cuizi) -- o chifrudo enfurecido -- armou para matar o duque sedutor. Na sequência, empoderou nosso amigo Jing e tornou-se o ministro chefe.

Ling, o duque anterior a Zhuang, era pai de Jing, que pelas minhas contas teria algo entre 20 e 25 anos quando esses fatos ocorreram. Conclusão: é muito provável que ele próprio tenha confabulado com o Cuizi a derrocada de Zhuang.

Especulações a parte, em 546 AEC, não muito tempo depois de assumir o comando, o duque vai a Jin a fim de interceder pelo marquês de Wey. Ele havia sido detido por ter parte na chacina da guarnição de um lugar chamado Maoshi.

A intercessão de Jing surtiu efeito, tendo sido libertado o marquês de Wey. Claro que sua província perdeu nada menos que sessenta cidades para Jin, como forma de compensação pelo transtorno causado.

No ano seguinte (545 AEC) Jing mandou nosso já conhecido Qing Feng a Lu, com o objetivo tão somente de apresentar o novo soberano de Qi aos anfitriões. Em 544 AEC (ano do nascimento de Sun Tzu), o duque foi ele mesmo a Jin, cumprindo um acordo que havia sido definido em um tratado anterior, de Song.

Entendendo o recado

Em 538 AEC, Jing envia Yan Ying a Jin com o intuito de oferecer uma nova concubina ao harém do duque Ping. A proposta era substituir a jovem Jiang, que morrera precocemente. No entanto, esse episódio é significativo por outra razão.

Antes da viagem de Yan, Jing havia desejado mudar seu ministro de residência e lhe disse:

Sua casa é próxima ao mercado, baixa, pequena, barulhenta e empoeirada. Você não deveria viver lá. Deixe-me mudá-lo para uma brilhante e altiva.

Yanzi, como também era conhecido, negou:

Seu ministro anterior [pai de Yan] aceitaria a proposta, mas eu não sou talhado para ser seu sucessor. A mudança que me propõe seria uma extravagância para mim. Além disso, um homem pequeno como eu vivendo próximo ao mercado pode obter o que desejar a qualquer hora, o que é um benefício. Não posso causar problemas aos meus vizinhos.

O duque sorriu e perguntou se ele saberia, devido ao fato de morar ali perto, o que estava caro e o que estava barato no mercado. A resposta foi uma pergunta:

Já que me é benefício, ousaria eu não saber?

Jing insistiu e Yan continuou:

Calçados para pessoas que tiveram seus dedos do pé cortados estão caros, enquanto os comuns estão baratos.

É a tal da lei da oferta e da procura que, no caso, se devia ao caráter um tanto quanto severo (por assim dizer) do soberano de Qi. Severo, mas não necessariamente obtuso, já que ele entendeu o recado e passou a maneirar nas punições distribuídas.

Mesmo com a negativa de seu ministro, e talvez por conta do pito levado, Jing apenas aguardou que Yan fizesse a viagem acima para deitar abaixo sua velha casa e de toda a vizinhança. Quando Yan retornou, deparou-se com uma nova mansão (eu acho) no lugar do (eu acho) velho casebre.

Sobre sua reação falaremos no post específico a seu respeito, que será um dos próximos desta série. Aguarde.

O contador de histórias

Mais tarde no mesmo ano Jing vai caçar em Ju, cidade próxima às fronteiras ao norte de Qi. Lá nos aparece Lupu Pie, que havia sido exilado, e implora para retornar à capital

Não sabemos qual foi exatamente o agá jogado para cima do duque, mas o fato é que ele assentiu e Pie retornou, por pouco tempo. É que um dos ministros, Ziya, não só discordou da decisão de Jing, como também conseguiu revertê-la e Lupu foi novamente exilado, agora para Yan do Norte.

Em 532 AEC, Jing invade Yan do Norte, com a desculpa de devolver o comando da província ao (deposto?) duque Jian. Antes, naturalmente, vai a Jin solicitar permissão para a empreendimento e, obviamente, a consegue.

No ano seguinte, em uma reunião de altos oficiais de Lu, é contada uma história a respeito de Jing que ilumina um pouco mais sua personalidade. Após Gao Qiang, exilado de Qi e filho do falecido Zwei, deixar a reunião, Shusun Zhaozi, o Forrest Gump da hora, solta o verbo:

Quanto cuidado deve ter um filho! Anteriormente, quando Qing Feng tornou-se um exilado, Ziwei recebeu muitas cidades, algumas das quais cedeu a seu soberano. O marquês de Qi o considerava leal e fez dele um grande favorito. Quando ele estava perto de morrer, foi levado enfermo ao palácio do marquês; e quando foi levado para casa em uma carruagem de mão, o marquês em pessoa auxiliou a empurrá-la.

O resto do discurso diz respeito ao filho de Ziwei, o Gao Qiang acima (ou Ziliang), não ter obtido o mesmo prestígio do pai e isso não nos interessa agora. O fato é que, pela passagem, fica parecendo que o duque é extremamente leal com os que lhe são queridos -- ou havia algo mais entre ambos... Será?

Brincando de Robin Hood

Bem, deixando de lado essas especulações, passamos ao ano de 529 AEC, quando encontramos Jing (novamente) na corte de Jin. Estavam ele e Zhao, o duque de Jin, em um banquete, quando o sem noção mestre de cerimônias Zhonghang Muzi (ou Xun Wu) propôs um jogo inocente de tiro ao alvo.

Até aí, tudo bem. O marquês de Jin foi o primeiro, mas antes Muzi teve que abrir o bocão e dizer algo mais ou menos assim:

Nós temos bebidas suficientes para encher o rio Huai e carne suficiente para formar o monte Chi. Se meu regente acertar o alvo, será o mestre dos príncipes.

Claro que ele acertou, mas na sequência foi o próprio soberano de Qi quem falou a segunda besteira do banquete, ao sacar de sua flecha:

Nós temos bebidas suficientes para encher o rio Sheng e carne suficiente para formar um grande monte. Se eu acertar o alvo, ascenderei ao lugar de sua senhoria.

Ele também acertou, no que apareceu um tal de Shi Wenbo (ou Boxia) para repreender Muzi com palavras semelhantes a estas:

Você cometeu um deslize no que disse. A posição de nosso regente está estabelecida como mestre dos príncipes. Por que você usou aqueles jarros? Como poderia um tiro certeiro neles conferir qualquer tipo de superioridade? O regente de Qi trata nosso soberano como um débil e não voltará aqui novamente.

Muzi não deixou barato, e respondeu mais ou menos nestes termos:

Nossos exércitos e generais são os mais formidáveis oponentes. Nossos soldados e cocheiros são fortes e ávidos, agora como antigamente. A quem servirá Qi se não a Jin?

Ditas tais palavras, me aparece um fulano de graça Gongsun Sou, que retira da bagunça o duque de Qi, com a desculpa de que o dia estava findando e seu senhor estava cansado. E se você tem acompanhado nosso blog com atenção, percebeu que esse episódio (como outros mais) já havia aparecido antes, no post A história de Qi e uns jogos tipo vorazes.

Mas não fique de mal comigo, copiei o texto de lá pra cá apenas pra te poupar o trabalho de acessar o outro post somente para ler esse trecho. Mas se quiser, vá em frente, pois lá tem informações extras sobre a história de Qi.

Planos de hegemonia

Pois bem, em 527 AEC, Jing recebe um fugitivo de Lu, que tentara um golpe e se dera mal. No entanto, aparentemente sua ação desastrada resultou na perda da cidade de Bi para a província de Lu -- pelo menos temporariamente.

E não me peça detalhes disso, além do fato de que o próprio duque enviou Bao Wenzi a Lu para oficializar sua desistência de reivindicar o local para Qi. Talvez porque ele já estivesse ocupado com seu plano de invadir Xu, efetivado já em 525 AEC.

Na verdade, seus planos eram mais ambiciosos: ele queria nada menos que se tornar o novo hegemônico, o cara que tinha o poder de fato no Período da Primavera e Outono da China antiga. E Xu parecia ser um atalho para alcançar seu objetivo.

Vale aqui explicar que a província de Qi já havia tido um hegemônico. Trata-se do famoso Huan, que reinou entre 686 e 643 AEC. Jing também jamais conseguiria isso, mas pelo menos saiu da empreitada com o valioso trípode de Jiafu (sobre o qual não consegui encontrar nenhuma informaçãozinha sequer).

A lição

Talvez ainda como parte desses planos (não tem como saber ao certo), em 521 AEC Jing envia Gongsun Qing (Zishi) a Wey em uma missão de cortesia. Ao partir, o enviado fica sabendo da tentativa de golpe em andamento na província de destino e envia um emissário de volta a Qi para solicitar ao duque orientação sobre como proceder.

Por conta do golpe, o marquês de Wey (Ling) havia fugido da capital, mas permanecia nos limites de seu reino. E foi exatamente neste ponto que Jing tocou:

Ele ainda é o soberano de Wey e lá permanece; a missão será direcionada a ele.

Zishi não apenas cumpriu sua missão, como também deu suporte a Ling em seu exílio. Eventualmente as coisas se acertaram em Wey e o marquês retomou seu posto.

Ao saber disso, Jing desejou celebrar com os oficiais que o acompanhavam no momento da notícia. Distribuiu taças de bebida a eles, ao mesmo tempo em que afirmou:

Há uma lição para vocês, cavalheiros.

Um tal de Yuan Heji recusou-se a comemorar, com um argumento interessante até. Disse ele:

Se compartilharmos as recompensas de Qing, também devemos compartilhar quaisquer punições que ele eventualmente mereça. No "Anúncio ao príncipe de Kang" está escrito: 'Os crimes do pai ou do filho, irmão mas novo ou mais velho, não vão além da própria pessoa'; essa regra é ainda mais aplicável a oficiais! Eu não me atrevo a desejar seu presente e violar a regra dos antigos reis.


E se você também não aprendeu uma lição aí, paciência. Esse post já ficou longo demais e ainda há um tantinho de coisas para escrever a respeito de nosso amigo Jing.

Então, segura as pontas aí e continue a nos acompanhar. Na próxima semana tem mais.

Zài Jiàn!


Créditos e referências


  • A imagem que ilustra o post não possui indicação de autoria e foi obtida no China's Culture.

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