Duque Jing, o retorno do puxa-saco e a sopa da harmonia

Tigela com sopa chinesa

No último post sobre as personagens principais do meu livro (e do período e local que ele retratará) começamos a escrever sobre o duque Jing de Qi. No entanto, eu já havia escrito tanto, e tanto ainda faltava escrever, que resolvi para por lá, e continuar em outro post a história desse homem.

Então, nós tinhamos visto:

  • Como e quando iniciou seu ducado
  • Sua intercessão pelo marquês de Wey perante Jin
  • Outras visitas a Jin, de caráter diverso
  • Sua oferta de uma nova concubina ao duque de Jin
  • Sua discussão sobre moradia e preços de mercadoria com Yanzi (que o fez ser menos rígido nas punições)
  • A invasão de Yan do Norte
  • A história sobre sua devoção ao amigo Ziwei
  • A disputa de arco e flecha com o duque de Jin
  • A invasão de Xu e a conquista do valioso trípode de Jiafu
  • Seu apoio ao marquês de Wey contra uma tentativa de golpe

Tudo isso aí entre 548 AEC e 521 AEC, o ano do dragão de metal pelo calendário chinês. Daqui pra frente cobriremos um período menor, mas com um pouco mais de detalhes.

Conselhos e conselhos

E começamos no mesmo ano em que havíamos parado, 521 AEC, quando Jing já estava de saco cheio por causa de uma sarna (sem metáfora) que há cerca de um ano causava-lhe febres intermitentes. O negócio tava tão sério que gente de todo canto comparecia à capital, a fim de obter notícias do estado de saúde do duque.

Dois chegados seus, Ju de Liangqiu e Yi Kuan, então, deram-lhe um conselho:

Nós temos servido aos espíritos mais livremente que os soberanos anteriores, mas agora sua senhoria está muito doente, para pesar de todos os príncipes. Deve ser por causa dos crimes dos sacerdotes e historiógrafos. Não sabendo disso, as províncias dirão que é porque não temos sido reverentes aos espíritos. Por que sua senhoria não manda executar o sacerdote Gu e o historiógrafo Yin, dando assim uma resposta aos seus visitantes?

Jing gostou da ideia e foi apresentá-la ao nosso querido grilo falante, Yanzi,  que fez o que todo Myiagi que se preze faz: falou de algo que o interlocutor não entendeu. No caso, de que tipo era a virtude de um sujeito chamado Fan Hui:

Os assuntos da sua família eram bem geridos; ao conversar com seu soberano sobre a província, ele contava toda a verdade, sem quaisquer pontos de vista particulares. Seus sacerdotes e historiadores, em seus sacrifícios, expunham a verdade, e não diziam nada do que se envergonhar. Os assuntos da sua família não proporcionavam qualquer abertura para a dúvida ou medo e seus sacerdotes e historiógrafos não oravam sobre tais sentimentos.

Não encontrei nenhuma outra informação a seu respeito, mas pela continuação da conversa conclui-se que ele foi uma figura importante em uma das províncias:

Já que nem os espíritos, nem os homens poderiam se ressentir da sua conduta, é certo que ele pôde distinguir e ajudar cinco soberanos e torná-los senhores dos tratados.

Jing então questiona:

Ju e Kuan disseram que eu era capaz de servir aos espíritos e, portanto, eles queriam o sacerdote e historiágrafo executados; por que você proferiu essas palavras?

A resposta de Yanzi, como tem sido costumeiro, parece revelar algumas verdades ao duque:

Quando um governante virtuoso não negligencia nada em casa ou no exterior, quando nem nobres nem plebeus tem qualquer motivo para insatisfação e nenhum de seus movimentos se opõem ao que as circunstâncias o exigirem, os seus sacerdotes e historiógrafos reiteram apenas a verdade e ele não tem nada de que se envergonhar em sua mente.

Portanto, os espíritos aceitam sua oferta e a província recebe a bênção deles, compartilhada pelos sacerdotes e historiógrafos. A felicidade e abundância da província e a longevidade das pessoas são consequência da verdade do soberano; as palavras dos sacerdotes e historiógrafos aos espíritos são, dessa forma, leais e fieis.

Isso foi só o "esquenta". Na sequência, o conselheiro fala de um soberano na situação inversa: desprovido de virtudes, entregue aos excessos, consumindo a força do povo, etc. Sobre os sacerdotes e historiógrafos ligados a tal tipo de governante, diz que, ao reiterar a verdade, devem falar das ofensas cometidas pelo soberano. E continua:

Se eles cobrem os erros do governante e falam de excelências, eles estão dando falso testemunho; quando eles avançarem ou se retirarem, não terão nada que possam dizer com razão e, então, eles buscarão em vão a lisonja. Portanto, os espíritos não irão aceitar as oferendas e a província cairá em miséria, à qual compartilharão os sacerdotes e historiógrafos.

Ele então conclui que, quando todos agem assim, "vidas curtas, mortes prematuras, lutos e doenças, são causados ​​pela opressão do governante; as palavras dos sacerdotes e historiógrafos são falsas e um insulto para os espíritos".

Aparentemente vestindo a carapuça, o duque então pergunta o que deve ser feito. Ao dizer que a proposta de Ju e Kuan é inútil, Yanzi faz uma introdução meio sem noção, falando sobre o que me parecem ser espíritos protetores da natureza (henglu, zhoujiao, yuhou e qiwang).

Na sequência, emenda uma lista de erros de governo (e pessoais também) que, em última instância, recaem sobre Jing:

As pessoas dos distritos e das fronteiras são forçadas a ingressar e participar dos serviços da capital. Nas barreiras dos passos próximos à capital, taxas opressivas são cobradas sobre as bagagens dos viajantes. As posições dos altos oficiais, que lhes deveriam ser direito de herança, são alteradas a troco de subornos. Não estão sendo observadas as regras sobre as medidas ordinárias do governo. Requisições e exações são feitas desmedidamente.

Seus palácios e mansões mudam diariamente. Você não evita prazeres licensiosos. As concubinas favoritas de seu harém levam e trazem coisas do mercado. Seus oficiais favoritos, fora da capital, emitem ordens falsas nas fronteiras -- alimentando a satisfação de seus desejos ególatras. E se as pessoas não os satisfazem, eles as tratam como criminosas.

As pessoas estão sofrendo e angustiadas. Esposos e esposas juntam-se para praguejar contra o governo. As bençãos beneficiam, mas as pragas são injuriosas. De Liaoshe a leste e de Guyou a oeste, são muitas as pessoas. Embora suas preces sejam boas, como podem elas prevalecer contra o praguejar de milhões? Se sua senhoria deseja executar o sacerdote e o historiógrafo, cultive sua virtude e, então, você pode fazer isso.

Com esse choque de gestão realidade, o duque não teve dúvidas, fez seus oficiais instituírem um governo generoso, baixarem as barreiras nos passos, retirarem proibições, tornarem mais leves as exações e perdoarem dívidas.

O retorno do puxa-saco

Pouco tempo depois, no 12° mês do mesmo ano, ocorre um episódio que não entendi bem (haha), mas que parece ter a ver com leis e tradições de então. Jing estava em uma caçada em Pei e convocou com o arco um (parece) guarda-florestal.

O guarda não avançou e o duque mandou detê-lo, ao passo que ele explicou sua conduta:

Nas caçadas de nossos antigos soberanos, uma bandeira era usada para chamar um alto oficial, um arco para chamar um oficial inferior e um chapéu de pele para um guarda-florestal. Não tendo visto o chapéu de pele, não me atrevi a avançar.

A explicação convenceu, o guarda foi liberado e um sujeito chamado Zhongni (Confúcio, ao que tudo indica) fez o seguinte comentário:

Manter a regra de responder a convocação de um soberano não é tão bom quanto manter a regra especial para um ofício. Homens superiores tratarão esse homem corretamente.

Se você conseguir explicar esse episódio, sinta-se à vontade para mandar um comentário. Os outros leitores agradecerão (e eu também, claro).

Enquanto isso, seguimos no infindável ano de 521 AEC, com um episódio imediatamente posterior à caçada. Na verdade, o duque acabara de retornar e estava com Yanzi na torre de Chuan.

Eis então que Ziyou, o mesmo Ju que pouco antes queria ver mortos o sacerdote e o historiógrafo, vai rapidamente ao local encontrar-se com seu soberano. Detalhe: ao que tudo indica, sem ser convidado.

Deu pra perceber que o sujeito era um rematado puxa-saco, não? Pois bem, nós percebemos, mas parece que nosso amigo Jing não. Tanto que ele comenta com Yanzi:

É apenas Ju que está em harmonia comigo.

O comentário de Yanzi foi curto e grosso:

Ele é meramente um bajulador; como pode se considerar que está em harmonia com você?

O duque perguntou qual seria a diferença e seu interlocutor não deixou a peteca cair:

Harmonia pode ser ilustrada pela sopa. Você tem a água e o fogo, vinagre, picles, sal e ameixas, a fim de cozinhar o peixe. Ferve-se a água com a lenha e, em seguida, o cozinheiro mistura os ingredientes, harmoniosamente equalizando os diversos sabores, de modo a compensar o que é deficiente e o que está em excesso. Então o mestre a toma e sua mente torna-se equânime.

É a mesma coisa nas relações entre soberano e ministro. Quando ocorre de o soberano aprovar qualquer coisa que não seja apropriada, o ministro chama a atenção para a impropriedade, de modo a tornar a aprovação inteiramente correta. Quando ocorre de o soberano desaprovar o que é correto, o ministro destaca a correção, de modo a evitar a desaprovação. Desta forma, o governo se equaliza, sem violação do que é certo. Na mente das pessoas não há dúvidas a respeito disso.

Na sequência, para arrematar sua ideia, o sábio conselheiro cita uma ode do Livro das Canções. E continua:

Como os antigos reis estabeleceram a doutrina dos cinco sabores, então eles fizeram a harmonia das cinco notas, para tornar suas mentes equânimes e aperfeiçoar seu governo. Há uma analogia entre sons e sabores. Há a respiração, as duas classes de danças, as três disciplinas, os materiais dos quatro quartos, as cinco notas, os seis diapasões, os sete sons, os oito ventos, as nove músicas; com estas nove coisas, os materiais para a música estão completos.

Depois, há as distinções de claras e grossas, pequenas e grandes, curtas e longas, rápidas e lentas, solenes e alegres, duras e macias, persistentes e rápidas, altas e baixas, o início e o encerramento, próxima e difusa, por meio do quê as partes são todas misturadas. O homem superior ouve tal música e sua mente pode se acalmar. Com sua mente serena, suas virtudes se tornam harmoniosas. Por isso, é dito na ode: "não há falha na fama virtuosa".

Agora, esse não é o caso de Ju. Sempre que você diz "sim", ele também diz "sim". Sempre que você diz "não", ele também diz "não". Se você fosse tentar dar à água um sabor com água, quem se importaria de partilhar do resultado? Se alaúdes fossem confinados a uma única nota, quem seria capaz de ouvi-los? Tal é a insuficiência de mero bajulador.

Reproduzi a fala toda de Yanzi porque, além de ressaltar mais uma característica de Jing (seu apreço por lambe-botas?), também nos diz algo a respeito da cultura da época, seja culinária, seja musical. Mas a conversa ainda não acabou, por incrível que pareça!

Como que para reforçar que Yanzi não era um mero bajulador, o diálogo segue ao sabor da bebida, com um assunto diferente, mas com a mesma pegada. Diz o duque:

Se desde os tempos antigos até agora não tivesse havido nenhuma morte, quão grande teria sido o prazer dos homens!

E a resposta foi mais ou menos nessa linha:

Se desde os tempos antigos até agora não tivesse havido morte, como poderia vossa senhoria ter compartilhado o prazer dos antigos? Antigamente, os Shuangjiu ocuparam este território. A eles seguiu a casa de Ji Ze. Seguiu-se então Boling de Feng e, logo após, a Casa dos Pugu, após a qual veio seu antepassado Taigong. Se os antigos não tivessem morrido, a felicidade dos Shuangjiu é algo que você nunca poderia ter desejado.

Já deu pra perceber que esse cara também vai estar entre as principais personagens do meu livro, não? Se não, então segue o jogo, pois já vamos para próxima fase.

Um novo hóspede

Na primavera de 519 AEC, Qi tentou invadir Ju com uma força liderada por Beiguo Qi. Após sofrerem uma derrota em um lugar chamado Shouyu (não confundir com o molho de soja), o duque Jing em pessoa liderou uma invasão, agora bem sucedida, e obteve a submissão de Ju.

Três anos depois, alcançamos o momento que será a base da história do meu livro. Trata-se da fuga do duque Zhao de Lu para nossa querida Qi, em 516 AEC.

Inicialmente, Zhao tinha ido para Yangzhou. Depois, Jing propusera que ambos se encontrassem em Pingyin, mas Zhao decidiu avançar mais, indo até Yejing, o que obviamente facilitou a vida de Jing.

Na verdade, era esse mesmo o objetivo. Tanto que, ao se encontrarem, o exilado desculpou-se:

Isto é culpa minha. Ordenei que meus oficiais o aguardassem em Pingyin porque era próximo a Yangzhou.

Na sequência o duque de Qi, aparentemente, foi direto ao ponto:

Das fronteiras do Ju a oeste, vou entregar a você o território de 25 mil famílias e aguardar novas ordens de Vossa Senhoria. Vou, então, liderar meus pobres soldados e seguir seus oficiais, obediente ao que quer que você ordene. Sua dor é a minha dor.

Aparece, no entanto, um sujeito chamado Zijiazi para se posicionar contra essa proposta e, na sequência, outra figura para defendê-la. E a defesa de Zang Zhaobo foi melhor aos olhos de Zhao, tanto que ele decidiu seguir o conselho desse último (veja os detalhes nesse outro post).

Ambos os duques se acertaram e, ainda em 516, no finalzinho do ano, Qi inicia uma campanha para tomar Yun (que pertencia a Lu) em favor a seu novo hóspede. Já no início de 515 AEC, eles conquistam a cidade e Zhao passa a residir lá.

Jing tinha a intenção de fazer com que o duque de Lu retornasse à terra natal e parte desse plano passava por tomar a cidade de Cheng, pertencente ao clã Mengsun de Lu. As tropas de Qi, então, marcharam para o local, lado a lado com os poucos homens do duque exilado.

A conversa (a)fiada

Jing ordenou que seus oficiais não recebessem nenhum tipo de "presente" de Lu. Obviamente, ele não combinou com os russos, que não se fizeram de rogados e conseguiram subornar Ziyou (o rematado puxa-saco que conhecemos um pouco antes).

O cara então mandou uma conversa fiada mais ou menos assim para cima do duque:

Seus oficiais não se esforçam ao máximo pelo soberano de Lu por conta de coisas estranhas que aconteceram, e não porque eles sejam incapazes de lhe servir. Duque Yuan de Song estava a caminho de Jin por conta própria e morreu em Quji. Shusun Zhaozi procurava restabelecer seu regente quando morreu sem ter qualquer doença. Não sei se os Céus abandonaram Lu ou se o soberano de lá de alguma forma ofendeu os espíritos e consequentemente essas coisas aconteceram. Se sua senhoria aguardar em Quji, pode nos mandar para seguir o soberano de Lu e formar uma opinião sobre o assunto. Se a vitória for possível, aumente a força e você pode então seguir; não haverá oposição. Se houver chance de fracasso, sua senhoria não precisa dar-se o trabalho de seguir.

Ele caiu no papo furado (isso deve nos dizer algo sobre sua personalidade) e mandou Gongzi Chu liderar uma força para apoiar o duque Zhao (e obviamente fazer a avaliação que Ziyou sugeriu). Isso e outras articulações por parte de Cheng foram suficientes para frustrar o cerco e fazer com que o soberano exilado retornasse para Yun com o rabo entre as pernas.

E como nossa história termina numa batalha que acontece nessa tentativa de conquistar Yun, eis que também aqui encerro o post sobre a vida de Jing. Caso apareça algo novo, você saberá no blog em um futuro post ou, no melhor dos casos, no livro.

Zài Jiàn e obrigado por todos os peixes!


Créditos e referências


  • A imagem da deliciosa sopa chinesa foi obtida no Blog da Evelin e não possui indicação de autoria.

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