Tian Wenzi, o primeiro Sun e o duque sedutor

Cena do filme Frankenstein, de 1931, com Boris Karloff e uma noiva sem noção do perigo

Há duas semanas iniciei outra série de posts aqui no blog. Desta vez, sobre as principais personagens da história, bem como alguns mais coadjuvantes.

Sobre o Sun Tzu, o que ele fez e disse em seu livro A Arte da Guerra, você já está careca de saber. Por isso mesmo, pulamos essa parte e caímos direto na história de sua família.

No primeiro post, destrinchei tudo que pude a respeito de seu nobre ancestral, Tian Wan. Agora, vamos conhecer melhor seu avô, Tian Xufu (ou Wenzi). Nos próximos posts virão seu pai, Huanzi, e as demais personagens: 

  • Yanzi, o sábio
  • Jing, o marquês/duque de Qi
  • Zhao, o marquês/duque de Jin
  • e alguns outros coadjuvantes importantes

Também não custa lembrar que as evidências sobre essa família de Sun Tzu ser a sua verdadeira são bem fracas. Mas como nossa história será de mentirinha, vamos que vamos com essa louca hipótese!

Tian Wenzi/Xufu, o avô de Sun Tzu

A primeira (e acho que mais importante) informação a saber é que a "culpa" do sobrenome Sun é desta figura. Aparentemente eles começaram a ser reconhecidos com essa alcunha após Wenzi ter sido agraciado pelo marquês Zhuang por seus feitos em batalha contra a província de Lu.

Como ainda não descobri exatamente quando ou como isso aconteceu, acho melhor começarmos do começo, que tal? Pois bem, esse começo é o ano de 550 AEC (mais um em que o calendário chinês marca o porco de metal), quando é feita a primeira menção a Chen(Tian) Wenzi nos famosos Anais da Primavera e Outono.

Foi em decorrência da chegada em Qi de um sujeito chamado Luan Ying, de Chu. Na ocasião, Yan Pingzhong (ninguém menos que nosso já conhecido Yanzi) aconselha Zhuang, o marquês de Qi, a não recebê-lo, por respeito à província de Jin (aliada de Qi e adversária de Chu):

É pela boa fé que uma província pequena serve a uma grande. Se sua boa fé se perder, ela não poderá subsistir.

Pra variar, o marquês ignorou o conselho e Yan foi desabafar com (exatamente!) Wenzi. No entanto, os Anais calam-se quanto ao que Wenzi teria dito. 

Não vou conjecturar agora, mas por outro lado imagino que possa ter sido um momento em que pensamentos de ascensão ao poder tenham passado pela cabeça de nosso amigo. Digo isso porque o desabafo de Yan terminou mais ou menos assim:

Nosso soberano está se perdendo e não deve continuar por muito tempo.

Aliados, pero no mucho

No ano seguinte (549 AEC), a dupla Yanzi e Wenzi volta a atacar, dessa vez por conta da intenção de Zhuang: atacar nada menos que a poderosa Jin. No entanto, cada um se manifesta com sua própria agenda.

Vou deixar para falar de Yanzi com mais detalhes no post dedicado a ele, não se preocupe. Por enquanto, basta dizer que ele se posicionou contra o ataque.

Quanto a Wenzi, parece que ele estava com segundas intenções para cima de um cabra chamado Cui Shu (ou Wuzi). Esse cidadão também não concordava com o ataque e chegou a externar sua opinião ao marquês.

Provavelmente sabedor disso, Wenzi perguntou a Shu o que deveria ser feito em relação a Zhuang. Shu respondeu que o havia admoestado, que tinha sido ignorado e ainda:

Tirar vantagem dos atuais problemas do presidente dos tratados pode nos deixar a todos em apuros e será muito difícil lidar com ele. Abstenha-se de dizer qualquer coisa por agora.

Não sei como, Wenzi viu algum tipo de maldade para com o marquês na fala de Cui Shu. Juntou um magote de pessoas ligadas a si e destilou:

Cuizi deve morrer em paz? Ele fala da conduta do marquês como muito ruim; e sua própria vontade vai além disso. Ele não terá uma morte pacífica. Quando um homem condena seu governante de uma forma justa, ele ainda faz isso para o seu próprio dano; pior ainda é quando ele tem maldade em sua mente!

Formação de batalha

Antes de passarmos ao próximo episódio da vida de Wenzi, gostaria de falar um pouco mais sobre o ataque. Em primeiro lugar, antes de efetivamente atacar Jin, o marquês de Qi invadiu a província de Wey.

É provável, inclusive, que toda essa conversa aí de cima tenha ocorrido antes da invasão, já que Wey serviria de plataforma para o ataque a Jin. Por outro lado, as tentativas de demover o marquês podem ter sido uma espécie de último recurso após a invasão e antes do ataque em si.

A descrição que os Anais fazem do exército de Qi em formação de batalha é interessante por dois motivos:
  1. nos dão uma ideia de como os exércitos da época se organizavam para a peleja
  2. fornece uma lista de diversas figuras que eventualmente poderão fazer parte da nossa história 
Segue o texto na íntegra, tanto com a formação de batalha, quanto com os nomes das personagens:

A vanguarda do exército era comandada por Wangsun Hui, com Gu Rong como cocheiro e Shao Yang como lanceiro. A próxima coluna era comandada por Ju Heng, com Cheng Zhi como cocheiro e Fuzhi, [filho] de Shen Xianyu, como lanceiro. [No centro], Cao Kai era cocheiro para o marquês e Yan Furong era lanceiro. A força de apoio era comandada por Xing Gong, com Shang Zhideng como cocheiro e Lu Pugui como lanceiro. Na ala esquerda, Xiang Pi comandava, com Lao Cheng como cocheiro e Lang Qushu como lanceiro; na direita, Hou Zhao, com Shang Ziju como cocheiro e Huan Tiao como lanceiro. O exército da retaguarda era comandado por Xia Zhiyukou, com Shang Ziyou como cocheiro e Cui Ru como lanceiro, Zhuyong Zhiyue estando na mesma carruagem.

Pelo que entendi, a formação acima está relacionada à invasão de Wey. Quanto ao ataque a Jin, segue a reprodução do texto dos Anais:

O marquês invadiu Jin e tomou Zhaoge. Ele, então, dividiu suas forças em dois corpos; entrou no passo de Meng; subiu a colina de Taihang; formou um campo entrincheirado em Xingting; colocou guarnições em Pi e Shao; levantou uma barricada em Shaoshui [todos em retaliação ao caso em Pingyin]. Ele, então, retirou-se, e foi perseguido por Zhao Sheng com as tropas de Dongyang, quando Yan Li foi feito prisioneiro.

O matrimônio maldito

Na sequência, já em 548 AEC, apreensivo por ter invadido Jin, o marquês de Qi buscou uma aproximação com Chu, que enviou um sujeito chamado Wei Qijiang em uma visita amistosa. Zhuang permitiu que o visitante o acompanhasse na inspeção de seu arsenal, o que provocou uma crítica o por parte de Wenzi mais ou menos assim:

Ouvi dizer que quando as armas não são mantidas em seu lugar, um príncipe terá seus próprios clãs voltando-se contra si.

Seu filho Huanzi também tem uma correlação com esse episódio, mas vamos falar disso na hora certa. Por ora, basta sabermos que essa aproximação com Chu não adiantou lá muita coisa para Zhuang.

Mas não por causa de Jin, como você poderia supor. Foi por causa do próprio comportamento, digamos, impróprio, do marquês. Sucede que, em 547 AEC, após Cui Wuzi casar-se com uma mulher com a qual ele foi aconselhado a não casar-se, Zhuang começou a chamegar com ela.

Adivinha quem aconselhou Cui a não contrair o matrimônio! Acertou se você pensou no avô de Sun Tzu, Tian Wenzi. O chamego entre o duque Zhuang e a nova esposa de Cui Wuzi teve consequências fatais para o duque sedutor, mas não vamos falar disso agora.

Em busca da paz

Em 545 AEC, Wenzi aparece novamente com seus conselhos. Nesse ano, foi iniciado um movimento (inútil) para por fim às guerras que se intensificavam cada vez mais.

Por algum motivo, já sob nova direção, Qi estava relutante em aderir ao acordo. Acredito eu que por conta das intenções de seu novo duque, Jing, de se tornar ele mesmo o maioral da China antiga.

Aparentemente, foi Tian Wenzi quem fez com que Qi participasse da festa ao argumentar algo do tipo:

Já que Jin e Chu concordaram, como podemos declinar? E as pessoas vão dizer que nos recusamos a sancionar a paralisação das guerras, o que certamente fará nosso povo descontente. Que vantagem teremos em declinar?

No ano seguinte, 544 AEC, vários marqueses, condes e viscondes foram a Jin, cumprir o acordo acima citado. O marquês de Qi estava para ir quando Qing Feng quis fazê-lo mudar de ideia.

Mais uma vez, Tian Wenzi interveio:

Negócios primeiro e então presentes, é a regra.Um pequeno Estado, servindo a um grande, antes de tratar de negócios [que é necessário], deve primeiro cumprir com sua demanda [de ir ao Estado grande], de acordo com os seus desejos; esta [também] é a regra. Embora não tenhamos tomado parte no pacto, ousamos nos revoltar contra Jin? Não nos esqueçamos do pacto de Chongqiu. Aconselhe o marquês ir.

Mais tarde, ainda no mesmo ano, Wenzi foi um dos principais articuladores da derrocada do mesmo Qing Feng. Esse episódio contou inclusive com a participação de seu filho, é a última referência a Wenzi nos Anais e assim encerramos este post.

No próximo, o pai do homem: Tian Huanzi.

Zài Jiàn!


Créditos e referências




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