Tian Huanzi e a ascensão da família de Sun Tzu

Discípulo de kung fui realiza uma profunda reverência a seu mestre

Voltamos com a série de posts sobre as principais personagens da história de Qi e do livro que escrevo a respeito de Sun Tzu, você sabe, o autor do tratado militar A Arte da Guerra. Depois de conhecermos Tian Wan e o primeiro Sun e avô de nosso herói, Tian Xufu (ou Xuwu, ou Wenzi), chegou a vez de conhecermos seu pai, Tian Wuyu (ou Huanzi).

Curiosamente, a primeira aparição de Wuyu nos Anais da Primavera e Outono (566 AEC) acontece bem antes da primeira aparição de seu pai (550 AEC). Dezesseis anos antes, para ser preciso.

E essa história de Wuyu nos Anais começa quando Qi conquista um lugar chamado Lai e o livro histórico informa que

No quarto mês, Chen Wuyu apresentou os espólios mais preciosos de Lai no templo de Xiang.

Como você já deve saber, Chen e Tian são a mesma família. Esse Xiang aí pode eventualmente ser o duque de Lu da época. Provável, não está claro, que Lai fosse uma província satélite de Lu e por isso tinha um templo dedicado ao seu soberano.

Procurando ajuda

Naturalmente, isso é apenas uma inferência minha, já que o texto dos Anais não deixa claro nem uma coisa nem outra. Dando um salto de 18 anos, em 548 AEC (o ano do boi de água no já famoso calendário chinês), Wuyu "ataca" novamente.

Dessa vez, a respeito da visita de um tal Wei Qijian, vindo de Chu. Na ocasião, o marquês de Qi permitiu que o visitante o acompanhasse na inspeção que fez dos equipamentos militares.

Wuyu não deixou barato e vaticinou nada menos que uma rebelião:

Está dito que um príncipe terá seus próprios clãs contra si caso não mantenha as armas em seu devido lugar.

Pouco depois, no outono, ele mesmo foi enviado a Chu, junto com Wei Qijiang, e escoltado por homens comandados por Cui Shu. O objetivo era solicitar o auxilio de Chu no caso de um eventual ataque de Jin.

Sua missão foi bem sucedida, pois no inverno do mesmo ano ele retornou após Chu empreender um ataque a Zhang, em auxílio a Qi. O mesmo Wei Qijiang que foi com ele a Chu o escoltou de volta.

Armação ilimitada

Quatro anos depois, em 544 AEC, nosso amigo é peça fundamental na trama que leva  à derrocada Qing Feng, um ministro que havia angariado muito poder. Seu pai percebeu que chegava o momento de partir para a ofensiva e lhe perguntou:

A queda [de Qing] está se aproximando. O que podemos ganhar [de suas posses]?

A resposta foi direto ao ponto:

A centena de carruagens de madeira que estão na rua Zhuang.

Wenzi retorquiu:

Mantenha-se em guarda, bem protegido.

No inverno, no décimo mês, Qing Feng foi caçar em Lai (lembra ali do começo?) com Tian Wuyu servindo-lhe. Wenzi enviou alguém para chamar seu filho de volta a Qi, com a desculpa de que sua mãe estava muito doente.

Wuyu foi mandado de volta e tratou de dificultar o retorno de Feng, afundando o barco e destruindo a ponte que, no caminho, atravessava um curso d'água. Aparentemente, essa ação teve o intuito de atrasar o retorno de Qing Feng, caso ele soubesse antes do tempo previsto o que estava acontecendo em Qi.

Talvez não tenha sido só isso, mas o fato é que Huanzi (assim como seu pai) teve um papel importante nos eventos que levaram à ruína de Qing Feng. De um jeito ou de outro.

No ano seguinte (543 AEC) acontece algo inusitado. Um emissário de Wu faz uma visita de cortesia a Qi. Seu objetivo era apresentar Yujio novo soberano de sua terra, que na verdade já ascendera há 5 anos (pra você ver como as coisas andavam rápido naqueles tempos).

Em conversa com o sábio Yan Pingzhong (Yanzi para os íntimos), o emissário Zha aconselha seu interlocutor:

Devolva rapidamente (à província) suas cidades e sua parte no governo. Se você estiver sem cidades e sem incumbências, escapará dos problemas que estão por suceder. O governo de Qi irá para as mãos da pessoa certa, mas até que isso aconteça, seus problemas não terão fim.

Das duas, uma: ou Yanzi tinha Zha na mais alta conta, ou havia algo a mais aí que não nos foi informado. De qualquer maneira, parece que quem se beneficiou disso foram os Tian, já que Yan utilizou-se dos préstimos de Huanzi para seguir o conselho de seu amigo.

E esta foi a última vez que seu nome foi mencionado nos relatos do governo do duque Xiang, de Lu, nos Anais da Primavera e Outono. Note que são 23 anos entre a primeira menção e essa última.

Assim, chutando

  • que só aparece nos Anais quem já está em idade adulta
  • que essa fase para os homens se iniciava aos 20 (isso não é exatamente um chute; veja aqui, aqui, aqui e aqui)
  • que a primeira aparição de Huanzi foi exatamente com essa idade

facilmente chegamos à conclusão (que pode estar terrivelmente equivocada) de que ele tinha por volta de 43 anos nesse momento. Concluímos da mesma forma que seu filho Tian Kai, o Sun Tzu, nascera quando ele contava mais ou menos 42.

Mas deixemos de lado as inferências para continuarmos a relatar os episódios da vida de Tian Huanzi dignos dos Anais. Agora, já sob o duque Zhao, em 539 AEC.

A noiva de Qi

Nesse ano, um cidadão de Jin conhecido como Han Qi (ou Xuanzi) faz uma peregrinação por diversas províncias com basicamente 2 objetivos:

  1. Informar que ele próprio estava a cargo da administração de Jin e
  2. Anunciar a ascensão do marquês Jing, o novo soberano de sua província

Em Qi havia mais uma tarefa: entregar o dote para o casamento de Jing com uma lady de Qi. Uma a mais para seu harém e um reforço na aliança entre ambas as províncias.

Xuanzi continuaria sua jornada em outras províncias, enquanto seu filho viria posteriormente, já no verão, buscar a noiva. Nosso amigo Tian Huanzi foi designado para acompanhá-los e deveria ficar em Jin até a consumação do matrimônio.

No entanto, o marquês de Jin ficou grilado com Huanzi porque ele não era ministro em Qi e o deteve em um lugar chamado Zhongdu. Aparentemente, a noiva caiu nas graças não apenas de seu esposo, já que foi a jovem de Qi quem intercedeu por seu conterrâneo.

Sua alegação foi simples: Huanzi tinha o mesmo nível do oficial que fora enviado para buscá-la. Também não foi apenas ela quem ajudou. Pouco tempo depois, um sujeito chamado Shuxiang utilizou basicamente o mesmo argumento em defesa de Huanzi e, no inverno, 10° mês, adivinha quem voltou ao lar?

Histórias cruzadas e cobras criadas

No ano seguinte (538 AEC), sem intenção, ao recusar um presente do soberano, Yanzi meio que desafia o duque e Huanzi intercede por ele. Dois anos depois, novamente a história de Huanzi cruza-se com a de Yanzi.

Acontece que o Tian ficou curioso a respeito das frequentes visitas que Yanzi fazia a um visitante de Zheng chamado Han Hu. Como não bastava ficar curioso, indagou o colega sobre o motivo das visitas e, aparentemente, ficou satisfeito com a resposta:

Ele é capaz de empregar bons homens, é um perfeito líder.

Após isso, passamos 3 anos sem saber nada de Huanzi e, quando sabemos, ele está no meio de uma encrenca danada. Em 533 AEC, após a morte de um figurão chamado Ziwei, seus herdeiros se estranharam com a família de um cabeção conhecido por Ziqi.

Huanzi era chegado da família do defunto e estava prestes a juntar-se a eles com o intuito de partir para as vias de fato com a outra família. Sabendo disso (e em minha opinião receoso de uma derrota fragorosa) Ziqi foi ao encontro de Huanzi para conversarem.

Após um diálogo de malandras cobras criadas, o malandro Huanzi, muito malandramente, ajoelha-se perante seu interlocutor, testa colada ao chão tal qual um adorador de Meca. Diz ele:

Qing e Ling o abençoarão. Também espero que você faça o que diz.

O que Ziqi dissera tinha a ver com tratar bem aos maus e estimular os que ficam para trás. Entendidos que estavam, foi feita a paz entre ambas as famílias.

Por cima da carne seca

Entretanto, eis que essa paz entre as famílias de Ziqi (os Luan) e Ziliang (os Gao) não viria a ser muito auspiciosa para os Tian. Ocorre que os caras não tinham lá muito apreço não só pela família de Huanzi, como também pelos Bao.

No verão de 531 AEC, nosso amigo ficou sabendo que um ataque era iminente. Depois descobriu que a informação não era 100% verdadeira, mas como ele já se organizara para o ataque, junto com Bao Guo, disse ao seu companheiro de infortúnio algo mais ou menos assim:

Apesar de nosso informante não estar correto, quando eles souberem que nos preparamos para o ataque, certamente tentarão nos expulsar. Vamos tomar a iniciativa e atacá-los, enquanto eles estão a beber.

Atacaram e, após 3 batalhas vitoriosas, os Tian e os Bao fizeram com que Luan Shi e Gao Qiang fugissem. Huanzi estava por cima da carne seca, tendo dividido as propriedades dos perdedores com Bao Guo.

No entanto, parafraseando o ditado, ninguém sobe tão alto que não possa subir mais um pouquinho. E se contar com a ajuda de um velho conhecido, melhor ainda.

Foi ninguém menos que Yanzi quem aconselhou nosso amigo a abrir mão de sua parte do espólio em favor do duque Jing. E por incrível que possa parecer, seguir esse conselho viria a reforçar a influência dessa querida família.

Pois Huanzi não apenas seguiu o conselho, como foi além (isso entre 531 e 530 AEC):

  1. viabilizou o retorno a Qi de diversos cidadãos (que haviam se dado mal com os perdedores), bem como a devolução de suas posses
  2. ofereceu cidades que lhe pertenciam a filhos e netos de ex-duques
  3. aos pobres e necessitados, órfãos e viúvas, distribuiu seus grãos
  4. ele próprio recusou a oferta de duas cidades feitas pelo duque e sua mãe, Mu Mengji

Por fim, retirou-se para a cidade de Ju, provavelmente deixando o comando da família nas mãos de seu filho mais velho (acredito que estejamos a falar de Tian Qi), já que Sun Tzu tinha então não mais que 13 anos. A família Tian estava no caminho certo para, em pouco mais de 25 anos, colocar um duque com seu nome no comando de Qi.

E este é o fim da história de Tian Huanzi nos Anais da Primavera e Outono, para o que nos interessa no momento. Passaram-se 36 anos desde a primeira menção a ele e, calculo, ele tinha por volta de 56 quando partiu para Ju.

Zài Jiàn!


Créditos e referências


  • A fotografia que ilustra o post não possui indicação de autoria e foi obtida no Blog do Pereira.

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