Sun Tzu, a história de Qi, o grilo falante e o puxa saco

Grilo Falante e Pinóquio conversam em uma cena do famoso desenho da Disney

No texto anterior vimos como o relacionamento entre Qi e Jin foi abalado em 2 episódios diplomáticos. Avançando em sua história, chegamos a 527 AEC, o ano do cachorro de madeira no tradicional calendário chinês. Então, o único acontecimento registrado é a chegada de um fugitivo chamado Nan Kuai.

Dois anos depois (525 AEC), Qi demonstra novamente que está atrás de sarna pra se coçar. Acontece que Jin não era mais tão poderosa assim e o duque Jing resolveu tirar vantagem disso.

Ele queria restaurar a glória de sua província, tornando-se o segundo hegemônico da história de Qi, em lugar do duque de Jin. O primeiro foi ninguém menos que Huan, de quem falamos no post anterior. Hegemônico ou senhor dos tratados (lord of the covenants) era o cara que realmente mandava na China naqueles tempos, já que o poder do imperador Zhou era apenas nominal.

Invadir para conquistar

E o que nosso amigo Jing fez? Invadiu Xu, que estava sob domínio de Chu, a grande rival de Jin na época. Certamente, havia uma estratégia por trás disso (embora eu não tenha ideia de qual). Em Pusui, Xu submeteu-se e seu visconde, junto com oficiais de Tan e Ju, selou um tratado com a província de Qi, ofertando como propina o trípode de Jiafu.

Acho que não preciso dizer que Jing vai se dar mal, ou preciso? Na verdade, não tenho certeza, mas um tal de Shusun Zhaozi reclamou bastante do negócio:

É uma pena para as pequenas províncias que não haja um líder entre os príncipes. O regente de Qi, desprovido de princípios, levanta um exército, invade uma região distante, organiza uma conferência bem-sucedida e retorna sem resistência alguma. Essa é a consequência de não haver um líder. Para esse estado das coisas podem ser aplicadas as palavras da ode:

"A honrada casa de Zhou está praticamente extinta
Não há ninguém para acabar com as desordens
Os chefes dos oficiais deixaram seus postos
E ninguém conhece minha lida"
Não demorou mais do que três anos para uma nova investida de Qi. Em 522 AEC foi a vez de Ju ser invadida por Qi. A invasão foi liderada por um sujeito chamado Gao Fa e fez com que o visconde de Ju fugisse para Jizhang. 

Plagiando a Bíblia? 

E aqui temos uma história mais bacana do que a simples narrativa dos fatos. Acontece que algum tempo antes o visconde de Ju havia mandado executar um homem cuja viúva mudou-se para Jizhang em sua velhice. Adivinha quem ajudou as tropas a invadir a cidade quando soube que seu desafeto se refugiara ali? 

Seu nome não era Raabe, mas ela deu um jeito de lançar uma corda sobre o muros da cidade, permitindo que 60 soldados se utilizassem dela antes de arrebentar-se. Foi bastante para amedrontar Gong, o visconde fujão, e fazê-lo deixar o local. Não está claro se ele foi capturado, mas eu apostaria que sim.

De qualquer maneira Qi deu continuidade à sua epopeia e partiu para invadir um local chamado Ji. Aqui não tenho certeza se estamos a falar da capital de Ju ou de uma outra província (e na verdade, nem sei o nome da capital, mas existia uma província chamada Ji).

Capital ou província, o fato é que o duque Jing de Qi resolveu colocar as asinhas de fora e podia muito bem estar cavando a própria cova. Mas, deixando isso um pouco de lado, partimos para o ano seguinte (521 AEC), quando Sun Tzu tinha seus 23 anos e Qi ganhou alguns pontos com a província de Wey.

Cultivando as relações

Jing tinha enviado Gongsun Qing em uma missão de cortesia à província vizinha, sem saber que lá estava ocorrendo uma insurreição. O enviado, ao tomar conhecimento do que acontecia, foi ao encontro do marquês de Wey, Ling, que estava foragido em um lugar chamado Siniao.

O visitante de Qi, também conhecido como Zishi, não se fez de rogado e deu todo apoio que podia ao regente ameaçado. Não muito tempo depois Ling conseguiu restaurar a ordem em Wey e manteve-se no poder (talvez, inclusive, por conta do apoio recebido).

Por essa época o marquês já sofria de uma doença de pele há cerca de um ano. Aparentemente preocupados com a imagem do regente de Qi, dois sujeitos propuseram que ele mandasse matar o sacerdote e o historiador da província, respectivamente Gu e Yin.

A lógica dos "conselheiros", Ju de Liangqiu e Yi Kuan, era a seguinte: Qi não havia negligenciado seu dever para com os espíritos, mas as outras províncias não sabiam disso e poderiam imaginar que a razão da doença do marquês era uma possível e profunda irreverência. E se isso era fato, a melhor maneira de passar a mensagem correta não seria outra: matar os responsáveis pela tragédia.

O grilo falante ataca outra vez

Jing ponderou, mas antes de seguir por esse caminho decidiu consultar seu grilo falante. Se você pensou em Yanzi, acertou em cheio. E ele profere um discurso gigante que termina mais ou menos assim:

As pessoas estão aflitas e angustiadas; maridos e esposas juntam-se para falar mal do governo. Bênçãos são benéficas, mas maldições apenas prejudicam. De leste a oeste há muitas pessoas. Suas orações podem ser boas, mas como podem elas evitar as injúrias das multidões? Se sua senhoria deseja executar o sacerdote e o historiador, cultive sua virtude e então poderá fazê-lo.

Acho que dá pra perceber que, além de dar mancada em sua política externa, Jing também não ia bem nos assuntos internos (te lembra algo?). Tanto que o discurso de Yanzi pesou em sua consciência e ele reviu algumas de suas políticas. 

Aliás, Yanzi continua a destilar sua lucidez sobre Jing pouco tempo depois desse episódio. Não por coincidência tem a ver com o mesmo Ju que aconselhara o marquês a dar cabo do sacerdote Gu e do historiador Yin.

Puxando o saco

Após retornar de uma caçada, ninguém menos que Ju (também conhecido como Ziyou) aparece correndo à torre de Babel Chuan para dar as boas vindas ao marquês. Ao sair, esse comenta com Yanzi que aquele era o único que estava em harmonia consigo.

O grilo-falante não perdeu a deixa e soltou de cara que Ju era tão somente um puxa-saco. Logo em seguida deu uma aula ao seu regente sobre harmonia, finalizando com uma referência a um trecho de uma das odes do Clássico da Poesia ("não há falha na fama virtuosa do homem superior") e mais um petardo contra Ziyou:

Esse não é o caso de Ju. Para qualquer coisa que você disser "sim", ele também diz "sim". Para qualquer coisa que você disser 'não', ele também diz "não". Se você estava a tentar dar à água um sabor com a própria água, quem se importaria de partilhar o resultado? Se alaúdes fossem confinados a uma nota só, quem seria capaz de ouvi-los? Tal é a insuficiência de tão somente consentir.

Vê-se que Yanzi, sem meias palavras, colocou Ju no chinelo e ainda puxou a brasa para sua picanha. Tá parecendo que ele não apenas tem grande influência sobre pessoas influentes em Qi, como também pode ter sido um dos responsáveis pelo governo longevo de Jing (58 anos).

Continue acompanhado nosso blog e em breve teremos certeza disso, ou não. Grande abraço e até os próximos.

Zài Jiàn!


Créditos e referências


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