Sun Tzu, a história de Qi e a batalha das carroças

Os impressionantes guerreiros de terracota em carruagens com cavalos, em exposição na Irlanda

À medida em que avançamos nessa história de Qi ficamos cada vez mais perto do período que será o foco principal da história de Sun Tzu, autor do clássico militar A Arte da Guerra. Isso deve acontecer mais ou menos ali pelo ano 516 AEC, mas não vou adiantar nada agora. Fica frio aí!

Por enquanto vamos continuando a partir do ano 520 AEC, ano da cobra de metal no calendário chinês,  quando temos algumas pistas sobre costumes da época. A primeira tem a ver com a diplomacia, ocorreu em Lu e você confere já na sequência.

Um anão diplomático

No verão, uma missão diplomática de Jin visitou a província de Confúcio e foi, digamos assim, mal recebida. É que tinha um sujeito em Lu chamado Jisun que pretendia fazer com que Jin ficasse descontente com seu principal ministro, Shusun.

O que ele fez então? Articulou para que o enviado de Jin, um cara chamadou Shi Yang, fosse recebido com as mesmas cerimônias oferecidas a Bao Guo, a propósito da fuga de Nan Kuai para Qi (que vimos no post anterior). Na ocasião, Bao foi enviado a Lu para acertar que seria deixada de lado a reivindicação feita por Qi sobre um lugar chamado Bi.

Acontece que Bao tinha uma posição em Qi comparativamente inferior à de Shi em Jin (só não me pergunte qual era). Também não preciso dizer que Shi ficou furioso, né? Saca só o que o rapaz vociferou (pista #1):

A posição de Bao Guo era inferior à minha e sua província, menor que Jin. Tratar-me com o mesmo número de bois que ele recebeu é rebaixar minha província. Devo reportar isso ao meu soberano.

Em resumo: "vou contar pra minha mãe". Mas funcionou, pois foram adicionados quatro conjuntos de animais, totalizando onze. E todos foram felizes para sempre (até a próxima encrenca aparecer, claro).

A canção e o senhor da guerra

Duas estações depois, no inverno, Qi ajuda Song a se defender de um ataque de Wu (parece que tava rolando uma tentativa de golpe lá).  Chu, a arquiinimiga de Wu, também apoiava a província que estava sendo atacada.

Antes de darmos continuidade à narrativa, aliás, vale a pena mencionar que um comandante de Chu cita A Arte da Guerra, a fim de justificar um ataque imediato. Diz ele mais ou menos isso:

Está escrito n'A Arte da Guerra que, se nos antecipamos ao inimigo, devemos nos preparar para atacá-lo; se o inimigo se antecipa a nós, devemos aguardar que sua força diminua. Por que não atacá-los agora, enquanto estão cansados e ainda não se organizaram?

Lembro que nosso amigo Sun Tzu já estava aqui com aproximadamente 24 anos e, a julgar pelo episódio, já havia escrito sua obra-prima. Também existe uma chance de ele ter participado desses eventos, mas não é o caso de especular sobre isso agora.

Apelo à honra

Seguindo o jogo, no dia bingyin os exércitos de Qi e Song derrotaram o exército de Wu em um lugar chamado Hongkou. Capturaram, ainda, dois de seus comandantes, Gongzi Kuqian e Yanzhou Yun.

Também foi uma vitória momentânea, já que, logo depois, o comandante do exército de Wu, Hua Deng, conseguiu se reorganizar e derrotar o exército de Song. Mesmo assim, Qi revidou, desta vez com apoio de Cao, Jin e Wey.

Gongzi Cheng liderava as tropas de Jin e foi alvo de um tiro de flecha perpetrado por um sujeito chamado Hua Bao. Aparentemente, Gongzi tinha certa dificuldade para armar sua flecha no arco, pois Bao teve tempo de se recuperar de seu tiro errôneo e estava prestes a atirar novamente quando Gongzi apela para a "honra entre guerreiros" (pista #2):

Será muita maldade não me deixar responder ao seu tiro!

A conversa fiada não só funcionou como também resultou na morte de Bao. Essa batalha particular entre ambos foi travada a partir de suas respectivas carruagens de guerra, como era o costume da época.

O cocheiro viajante e a batalha das carroças

Elas eram tripuladas por três guerreiros, todos ligados à nobreza da província. Um deles era o de posição mais elevada na hierarquia e portava o arco-e-flecha. Outro, era o cocheiro. O terceiro, empunhava a lança ou a adaga-machado.

No caso específico, restaram o lanceiro e o cocheiro. Aquele, desceu da carruagem com a sua lança e a intenção de atacar Gongzi, mas não conseguiu. Também foi alvejado e morreu. O cocheiro implorou para que também fosse morto.

Por alguma razão (e não sei qual), Gongzi pareceu querer que o cocheiro passasse para seu lado. No entanto, o homem estava resoluto e sacou de palavras parecidas com estas (pista #3):

Aquele que não morre, estando nas mesmas fileiras ou na mesma carruagem, está destinado à maior punição do exército. Se eu me expuser a esse destino e seguir vocês, como poderia ser útil ao regente? Seja rápido.

Velozes e furiosos

Voltando a Qi e sua história, parece que a província estava mesmo se esforçando para dificultar a vida de Ju. Tanto que na primavera de 519 AEC (cerca de 3 anos depois da última investida) volta a atacar a província mais fraca.

Era o dia jiazi, no 2° mês do ano, quando Beiguo Qi liderou uma força que invadiria Ju. O visconde local se preparava para lutar em defesa de sua terra, quando recebeu o seguinte conselho:

Essas forças de Qi são pobres e suas demandas não são grandes. Nosso melhor plano é ceder a elas; um grande estado não deve ter raiva.

Esse conselho me parece com uma das famosas frases de Sun Tzu, lembra?

De qualquer maneira, pergunto: você acha que o cara deu bola para o conselho? A resposta não apenas é negativa, como (ahá!) ele derrotou as tropas de Qi em um lugar chamado Shouyu.

Dando o troco

Obviamente, Qi não deixaria isso barato: o soberano de Qi em pessoa invadiu Ju e obteve sua submissão. E o visconde submisso angariou o ódio eterno de seus súditos. Mas não foi somente por causa dessa fragorosa derrota.

Acontece que o cara, de nome Gengyu, era osso duro. Adorador de espadas, seu esporte preferido era testar nas pessoas cada nova arma que encomendava. A população estava infeliz e o cabeção só pensava em se rebelar contra Qi.

Não demorou muito para encontrar, vamos dizer assim, seu destino. Um tal de Wu Cun (muito provavelmente com o apoio de Qi) liderou um golpe que resultou na fuga de Gengyu para Lu. Ju tinha de novo como regente Jiao, sobrinho do fugitivo, e aparentemente continuava submissa a Qi.

E paramos por aí. Espero que tenha gostado e continue acompanhando nosso blog. Daqui a duas semanas será publicado o último post sobre a história de Qi e é nos fatos nele narrados que meu livro será baseado.

Te espero lá.

Zài Jiàn!


Créditos e referências



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