Sun Tzu, a história de Qi e uns jogos tipo vorazes

Jennifer Lawrence faz pose como Kaniss Everdeen e seu arco-e-flecha no filme sensação Jogos Vorazes

Depois de acompanharmos a querela entre Tian Huanzi, o pai de Sun Tzu, e seus desafetos das famílias Luan e Gao, partimos para conhecer um pouco mais sobre a história de Qi. Caso você tenha caído aqui de paraquedas, trata-se da província da China antiga que seria a provável terra natal do autor do livro A Arte da Guerra, capisci?

Pois bem, estamos em 530 AEC, ano do carneiro de metal no calendário chinês, quando Sun Tzu contava 14 invernos. Também é o ano seguinte à vitória de Huanzi e fortalecimento dos Tian. Ocorre então uma reunião de figurões de várias províncias em um lugar chamado Jueyin. Dela participa, de Qi, um sujeito chamado Guo Ruo (que me parece ser o mesmo Han Xuanzi).

O objetivo era discutir a situação de Cai, que estava sendo (ou havia sido) atacada por Chu. Jin decidiu mandar uma pessoa chamada Hu Fu para implorar que Chu poupasse Cai, o que revelou-se completamente inútil. Cai não apenas foi destruída, como também o filho mais velho de seu marquês foi sacrificado no monte Gang.

Ainda nesse mesmo ano, foi a vez de Qi dominar uma localidade. Não sei ao certo se era uma província mais fraca ou uma cidade pertencente a outra província, mas era chamada Gu. Nela instalaram um sujeito de nome Guan Zhong.

Aqui eu identifiquei uma incoerência em minhas fontes. Ocorre que os Anais da Primavera e Outono informam que Huan era o duque de Qi então. No entanto, no site China Knowledge, onde consultei as relações de governantes de várias províncias, a informação é de que Jing regia Qi.

Até (se) desvendar esse mistério vamos ficar com a 2ª opção, que me parece a correta, ok? Continuando...

Os bêbados e seus jogos vorazes

Pois bem, no ano seguinte, um membro da família Gao (de nome Yan) liderou uma força para substituir o conde de Yan do Norte, um sujeito chamado Kuan. Nesse meio tempo, Jin possui um novo regente (sai de cena Ping, assume Zhao) e os marqueses de Qi e Wey, junto com o conde de Zheng, vão prestar seus respeitos ao manda-chuva.

Aí, acontece um episódio inusitado e que pode impactar as relações entre Jin e Qi. Estavam ambos os marqueses participando de um festim quando uma pessoa de nome Zhonghang Muzi (ou Xun Wu), o famoso mestre de cerimônias, propôs um jogo de atirar flechas em jarros.

Até aí, tudo bem. O marquês de Jin foi o primeiro, mas antes Muzi teve que abrir o bocão e dizer algo mais ou menos assim:

Nós temos bebidas suficientes para encher o rio Huai e carne suficiente para formar o monte Chi. Se meu regente acertar o alvo, será o mestre dos príncipes.

Claro que ele acertou, mas na sequência foi o próprio marquês de Qi quem falou a 2ª besteira do banquete, ao sacar de sua flecha:

Nós temos bebidas suficientes para encher o rio Sheng e carne suficiente para formar um grande monte. Se eu acertar o alvo, ascenderei ao lugar de sua senhoria.

Ele também acertou, no que apareceu um tal de Shi Wenbo (ou Boxia) para repreender Muzi com palavras semelhantes a estas:

Você cometeu um deslize no que disse. A posição de nosso regente está estabelecida como mestre dos príncipes. Por que você usou aqueles jarros? Como poderia um tiro certeiro neles conferir qualquer tipo de superioridade? O regente de Qi trata nosso regente como um débil e não voltará aqui novamente.

Muzi não deixou barato, e respondeu mais ou menos nestes termos:

Nossos exércitos e generais são os mais formidáveis oponentes. Nossos soldados e cocheiros são fortes e ávidos, agora como antigamente. Quem Qi servirá se não Jin?

Ditas tais palavras, me aparece um fulano de graça Gongsun Sou, que retira da bagunça o marquês de Qi, com a desculpa que o dia estava findando e seu senhor estava cansado. Ficou para trás apenas o famoso, e conhecido em todos os cantos do mundo, climão.

Um estranho no ninho

Pouco tempo depois, ocorre outro episódio, aparentemente sem grande importância, que pode vir a ter desdobramentos para a diplomacia entre ambas as províncias. Um tal de Xun Wu, de Jin, finge que quer se juntar ao exército de Qi (não está claro exatamente em quais circunstâncias). 

No entanto, a intenção era conseguir permissão para atravessar Xianyu e aproveitar a oportunidade para tomar posse de Xiyang -- o que nos leva a deduzir que ele tinha suas próprias tropas. No outono, 8° mês, no dia renwu do ciclo sexagenário, ele acabou com Fei e levou consigo de volta para Jin o visconde de lá, Miangao.

O sábio duque Huan

Já em 528 AEC, ocorre um daqueles episódios de briga por poder que raramente acontecem no mundo. Dessa vez foi em Chu e a relação com a província de Qi é meramente incidental.

Dois figurões conversando sobre o episódio acabam por nos dar pistas sobre um dos antigos governantes de Qi: aquele que ficou conhecido como duque Huan (686 a 643 AEC). Shuxiang relata algo parecido com isso:

Huan de Qi era o filho de uma Ji de Wey, que era uma das favoritas de Xi. Ele tinha Bao Shuya, Bin Xuwu e Xi Peng como assistentes. As províncias de Ju e Wey davam-lhe suporte do exterior. Internamente, Guo e Gao o apoiavam. Ele seguia o que era bom como o fluir de um riacho. Era condescendente com o bom e sério e reverente. Não acumulava sua riqueza; não seguia seus desejos; distribuía infatigavelmente e jamais se cansava de procurar por homens bons.

Lealdade à prova

Nesse mesmo ano, no oitavo mês, no décimo-primeiro dia do ciclo sexagenário (jiaxu), houve uma reunião de cúpula em Pingqiu. O objetivo de Jin era renovar o tratado existente, mas Qi não estava lá muito disposta. 

O duque Xiu de Liu aconselhou Jin a argumentar civilizadamente com Qi, alegando a possível boa fé de seu governante, sem deixar de demonstrar o quão poderosa é Jin. Seguiu-se um diálogo entre Shuxiang, de Jin, e alguém de Qi:

Os príncipes solicitaram a reunião e estão aqui, mas Qi não acredita que haverá benefícios. Meu regente achou por bem indagar sobre as razões.

A resposta de Qi a Shuxiang foi mais ou menos assim:

Quando as províncias estão para punir aos descontentes, então deve haver uma renovação dos tratados. Mas se todos são obedientes às suas ordens, por quê deveria haver tal renovação?

Shuxiang então soltou o verbo:

É assim que as províncias se arruínam: se elas se encontram para tratar de negócios mas não pagam suas contribuições, os negócios tornam-se irregulares; se elas pagam suas contribuições mas não observam as cerimônias apropriadas, pode haver regularidade, mas existe a necessidade de ordem; se elas observam as cerimônias mas não possuem um sentimento de reverência, a ordem passa a não ter respeito; se elas possuem um sentimento de reverência mas não o declaram [aos espíritos], seu respeito não é demonstrado de modo suficiente. A necessidade dessa demonstração resulta na extinção do respeito. Os vários negócios em andamento não são bem sucedidos e acabam em ruína e derrota. Por essa razão, os estatutos dos reis inteligentes requeriam que os príncipes enviassem uma missão anual de cortesia, de modo a lembrar-se de suas devidas contribuições; após o intervalo de um ano, eles próprios iam à corte para a prática das cerimônias. Quando chegava o momento de uma segunda visita à corte, havia uma reunião para a demonstração da majestade do rei e também para exibição de sua inteligência límpida. Lembrar-se de seus deveres assegurava a continuidade de relações amistosas; a prática das cerimônias servia para manter as distinções de graduação; a demonstração da majestade acontecia perante as multidões; inteligência límpida era uma questão de apelo aos espíritos. Desde os tempos mais antigos essas regras, podemos dizer, nunca foram negligenciadas. Os princípios da preservação ou da ruína dependem delas. A regra é que Jin tenha a senhoria dos tratados. Temendo que nosso governo possa estar falho, nós trazemos uma vítima à reunião e anunciamos nosso propósito a sua senhoria, procurando concretizar os negócios. No entanto sua senhoria disse: 'não terei nada disso, o que temos em comum?'. Deixe que sua senhoria considere com atenção o assunto. Nosso regente receberá seus comandos.

Não tenho muita certeza, mas acho que o trecho que começa com "a regra é que Jin tenha a senhoria dos tratados" era uma ameaça. De qualquer maneira, após esse discurso inspirador (rsrs), Qi muda de ideia. Eis sua resposta:

Nossa pequena província disse o que disse, mas nossa decisão segue sua grande província. Como ousaríamos não escutar e seguir vocês? Nós ouvimos seus comandos e prosseguiremos com reverência. Que seja cedo ou tarde, conforme a sua vontade.

A lealdade de Qi a Jin estava assegurada e os eventos seguiriam seu curso natural. Encerramos aqui a narração dos eventos referentes ao ano 528 AEC e deixamos para o próximo post a continuação dessa história. 

Espero que tenha curtido e gostaria muito de saber sua opinião.

Grande abraço e Zài Jiàn!


Créditos e referências


Nenhum comentário :

Postar um comentário

Escreva um comentário aí em baixo para o mundo saber o que você achou do post ou do blog. Se preferir, compartilhe o post e nos siga no Facebook ou no Google Plus.