Poesia chinesa e o clássico Livro das Canções (ou das Odes)

Fragmento de uma edição do século XVII do Livro das Odes


Meus amigos mais próximos e familiares sabem que tenho uma verve poética muito cultivada em tempos mais antigos. Cheguei a escrever poemas dos quais me orgulho bastante, mas deixei a poesia de lado, tal qual Rimbaud, para me aventurar em outros territórios.

De vez em quando bate a saudade, me vem até uma ideia ou outra à cabeça, mas o cotidiano insiste em mandar essas ideias de volta para o lugar de onde vieram. Não faz mal, continuo gostando de poesia e tento não abandoná-la de vez, cultivando o hábito de eventualmente ter com os grandes mestres: Augusto, Vinícius, Quintana e por aí vai.

Ultimamente, no entanto, por conta do meu projeto de escrever um livro sobre o autor d'A Arte da Guerra, Sun Tzu, tenho me interessado por um tipo de poesia muito particular. Falo da milenar (como quase tudo na China) poesia chinesa.

Mais especificamente ainda, me interessam as famosas odes eternizadas no também famoso Livro das Odes (ou das Canções ou Clássico da Poesia). Antes de chegarmos a elas, entretanto, vamos ao começo de tudo. Vem comigo!

Literatura chinesa: origens, clássicos e tradições


Osso de boi utilizado como oráculo na China antiga


Apesar de ainda pouco conhecida no ocidente, a tradição literária da China é uma das maiores do mundo e remonta, em suas origens, aos hieróglifos utilizados durante a dinastia Shang (aproximadamente 1500 a 1050 AEC). Esses hieróglifos deram origem aos ideogramas chineses e eram inscritos em artefatos de bronze e nos chamados ossos oraculares (oracle bones).

Mais tarde um pouco, durante a dinastia Zhou (aproximadamente 1050 a 221 AEC), surgiram os grandes trabalhos literários de filosofia e religião que tornaram-se a base para o pensamento social e religioso da China até os dias atuais. São desse período as chamadas Cem Escolas do Pensamento, em alusão às centenas de filósofos e escritores que se destacaram.

No meio desse magote tinha gente do quilate de Confúcio, Mêncio, Laozi (ou Lao-tsé) e, claro, Sun Tzu. Foi dessa balbúrdia toda, na segunda metade do período em questão, que surgiram os chamados Cinco Clássicos:

  1. I Ching (ou Livro das Mutações): um manual de adivinhação atribuído ao mítico imperador Fu Xi, baseado em trigramas e ainda consultado nos dias de hoje por pessoas de todo o planeta
  2. Clássico da Poesia: uma coleção de poemas, canções populares, cerimoniais e festivas, bem como hinos e panegíricos
  3. Clássico (ou Registro) dos Ritos: uma coleção de textos que descreve a administração, regras de etiqueta e ritos cerimoniais da dinastia Zhou
  4. Clássico da História (ou Livro dos Documentos): uma coleção de documentos e discursos supostamente escritos por regentes e oficiais do início do período Zhou e de antes (aqui vemos exemplos da prosa chinesa em seus primórdios)
  5. Anais das Primaveras e Outonos: um registro histórico da província natal de Confúcio, Lu,  desde 722 até 479  AEC

Os Anais da Primavera e Outono, você sabe, são o texto básico que estou a usar (link em inglês) para as informações históricas que serão o pano de fundo da narrativa que escrevo. A título de informação, ainda pretendo dar uma  boa analisada no I Ching, pois essas artes divinatórias tinham uma grande influência na sociedade da época.

São desse período também o famoso Tao Te Ching, texto fundamental do Taoísmo, os Analetos, de Confúcio, bem como diversos e importantes textos militares, entre os quais o já nosso velho conhecido A Arte da Guerra. Mas o que nos interessa mesmo, neste preciso momento, é o

Clássico da Poesia, ou o Livro das Canções, ou o Livro das Odes


Antigos sinos chineses expostos no Museu de História de Shanxi, na China


O Clássico da Poesia é nada menos que a mais antiga coleção de poesia chinesa, composto por 305 trabalhos dos séculos XI a VII AEC. A maioria dos poemas datam da primeira parte da dinastia Zhou e, independente do período, eles estão divididos em 2 grandes grupos: as Lições dos Estados e os panegíricos e hinos.

Lições dos Estados

Alguns textos as chamam de Canções Populares, mas vamos com o nome acima mesmo, que aparentemente é uma tradução mais comum (pelo menos do chinês para o inglês). Muito embora, "canções populares" parece ser de fato mais adequado, já que tratam-se de poemas curtos em linguagem simples, cujo conteúdo remete justamente a canções populares antigas que registram a voz das pessoas comuns. 

Frequentemente tratam de amor e paquera, saudades de um amado ou amada ausente, soldados em campanha, trabalhos domésticos ou de fazenda, além de sátiras políticas e protestos.

Hinos e panegíricos

Ao contrário das Lições dos Estados, os poemas das seções de hinos (são duas) e de panegíricos tendem a ser longas canções de ritual ou sacrifício em louvor aos fundadores da dinastia Zhou. Muitos hinos eram cantados não apenas em rituais, mas também em banquetes. 

Digo "cantados" porque nos primórdios costumavam ter acompanhamento musical, sendo declamados muito lentamente ao som de sinos, tambores e carrilhões de pedra. Também são conhecidas como as Odes Oficiais e podem ser divididas em 3 classes:

  1. Odes declamadas em entretenimentos ordinários oferecidos pelos suzeranos
  2. Odes declamadas em ocasiões mais pomposas quando havia reuniões de nobres
  3. Panegíricos e odes sacrificiais

E o Confúcio com isso?


Chow Yun Fat interpreta Confúcio em filme de 2010

Assim como os outros 4 clássicos, a compilação das Odes é tradicionalmente atribuída a Confúcio. Claro que, também como os outros clássicos, essa afirmação gera muita controvérsia no meio acadêmico (mas essa polêmica vou deixar para os estudiosos mesmo).

Vale destacar que os Registros do Grande Historiador (ou Registros Históricos, uma das poucas obras históricas que fazem menção a Sun Tzu) informam que uma edição prévia das Odes possuía 3000 textos. Adivinha se não foi o próprio Confúcio, do alto de sua sabedoria, que teria cortado os outros 2695, nos deixando apenas com os atuais 305

Queira ou não, em maior ou menor grau, de um jeito ou de outro, seu nome sempre está associado às Canções. Exemplo é esse trecho da introdução do livro de L. Cranmer-Byng sobre o Clássico da Poesia:

Talvez a grande importância das odes, primeiramente percebida por Confúcio, e posteriormente por toda a China, resida no fato de que elas não são meras criações abstratas de um cérebro imaginativo. Cada um desses poetas anônimos escreve sobre si mesmo ou mesma; suas tristezas, suas aspirações, suas perspectivas em seus próprios tempos, felizes ou sombrias, tudo está registrado ali. 

É uma tradução livre do inglês que deixo também como ponto de partida para se refletir sobre o significado das Canções para a literatura, cultura e história chinesas. Quiçá mundial!

Por fim, este post veio à luz por duas razões:

  1. me ajudar a melhor ambientar minha história (sabe, aquela que escrevo sobre o autor d'A Arte da Guerra)
  2. introduzir uma série com a tradução de todos os poemas (que também vai me ajudar com o item 1)

A tradução, por razões quase óbvias, virá da clássica versão em inglês com a qual nos brindou James Legge -- a não ser que você tenha alguma restrição quanto a isso (o que não vai adiantar de nada). Enquanto as traduções não chegam, deixo você com vários links para saber mais sobre o Clássico da Poesia e a literatura chinesa.

Espero que goste. Eu, de meu lado, gostaria de saber sua opinião sobre isso tudo.

Au revoir!

Saiba mais


O texto do Livro das Odes em português


O texto do Livro das Odes em inglês



Informações sobre o livro das Odes


Informações sobre literatura chinesa


Notícias sobre a literatura da China na atualidade


Créditos


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