Sun Tzu, a história de Qi, cabelos e a lei da oferta e da procura

Pintura chinesa representando uma mulher desfalecida nos braços de um homem

É isso aí, gente fina, falta apenas um mísero mês para o Natal, mais um ano está terminando de escorrer pelo ralo do tempo (dramático, hein... rsrs) e o livro ainda está um pouco longe de ser finalizado. Contudo, ele está bem mais perto de sair do que há três anos, quando tive essa ideia maluca e me pus a pesquisar o que era necessário para concretizar esse projeto -- ainda mais agora que reduzi o escopo do (primeiro?) livro apenas ao período de formação de Sun Tzu, quando ele (provavelmente) morava na província de Qi, onde (também provavelmente) teria nascido.

Isto posto, continuemos com a história dessa província, que servirá de pano de fundo para a nossa trama. Ocorre que a concubina que ajudou a intervir por Tian Wuyu, o pai de Sun Tzu, quando ele foi detido em Jin, veio a falecer pouco tempo depois.

O trecho dos comentários aos Anais da Primavera e Outono que trata disso não nos informa o motivo, mas relata que o marquês de Qi envia Yan Ying a Jin a fim de oferecer uma nova concubina em substituição à finada Jiang. E ele chega reproduzindo justamente o que Jing mandou que dissesse. Era um discurso pomposo, cujas palavras eram algo parecidas com estas:

Desejo servir a sua senhoria, de dia e de noite sem descanso, e traria meus presentes e oferendas sem perder uma estação sequer. No entanto, tivemos muitas dificuldades em nossa província e não pude comparecer em pessoa. A pobre filha de meu pai foi enviada para complementar seu harém e fazer minhas esperanças brilharem, até que sua morte prematura as desfez. Se vossa senhoria, a rememorar a amizade existente entre nossos antigos governantes, gentilmente estimar a província de Qi e condescender que eu possa procurar as bênçãos do Grande Duque e do duque Ding -- de modo a receber seu fulgor sobre minha província --, protegendo e confortando seus altares, então ainda há muitas das filhas de meu pai com sua esposa legítima e muitas de suas irmãs. Se vossa senhoria não rejeitar minha pobre província e enviar alguém para julgar e selecionar entre elas a que irá completar seus aposentos, minhas esperanças estarão satisfeitas.

Jin naturalmente concordou e eles acertaram o novo casamento. Neste ponto da narrativa aparece mais uma informação a respeito da ascensão dos Tian -- note que estamos já no ano 538 AEC, quando o autor d'A Arte da Guerra tinha aproximadamente seis anos de idade e o porco de água chafurdava no chiqueiro do calendário chinês. Numa conversa entre Yanzi (acredito que o mesmo Yan Ying aí de cima) e Shuxiang, este pergunta àquele sobre a situação de Qi. A resposta começa mais ou menos assim:

Esta é a última era. Não sei de nada além disso: Qi tornar-se-há uma possessão da família Chen.

A queda

Como nós ficamos sabendo nesse post, Chen e Tian são a mesma coisa. Na sequência, Yanzi relata que o duque (Jing) estava perdendo o apoio de seu povo e que esse apoio estava se direcionando aos Tian -- muito em função da questão dos grãos e dos impostos de que soubemos nesse mesmo post. Outro ponto que influenciava a preferência popular era o fato de o duque aparentemente ser severo um tantinho além da conta.

Ele aplicava tantas punições (especialmente as de cortar os dedos dos pés dos considerados criminosos) que Yanzi incluiu em seu relato a Shuxiang a informação de que, no mercado de Qi, os sapatos comuns estavam mais baratos que os feitos para os desdedados. Sim, meus amigos, também na China antiga a famigerada lei da oferta e procura já aprontava das suas.

Pouco depois, de volta para o futuro a Qi, o Gongsun Zao (também conhecido como Ziya, lembra dele?) abotoa o paletó de madeira e o Ministro da Guerra vai trocar uma ideia com Yanzi, que não é lá muito alvissareiro e diz mais ou menos isso:

Ai, ai, ai... Ziqi não escapará de um fim infeliz. São tempos perigosos! A Casa de Jiang está enfraquecida e a de Gui começará a florescer. Enquanto os dois netos do duque Hui eram fortes e vigorosos, eles tinham alguma chance, mas essa morte induz o enfraquecimento. A Casa de Jiang cambaleia em direção à sua queda.

Zao era o nome do Ministro da Guerra, o que me leva a presumir que ele tinha algum parentesco com o defunto e seu filho Ziqi. Pelo discurso do Yanzi, fica parecendo também que todos são membros do clã Jiang, que comandava Qi desde sempre. Ou seja, mais um degrauzinho na stairway to heaven dos Tian.

A volta dos que não foram

Não dá pra finalizar esse post sem discorrer sobre um fato curioso que, a princípio, parece nada ter com essa treta aí de cima. Talvez você se lembre do Lupu Pie, o amigo liberal da Qing Feng, que havia sido banido para a fronteira norte, por conta dos fatos narrados aqui.

Então, o marquês de Qi tinha ido caçar em Ju e, de algum modo, Pie conseguiu falar com ele sobre seu destino cruel. Aproveitou para, aos prantos, implorar pelo seu retorno a Qi, apelando para o fato de seu cabelo estar curto e ralo.

Como é de conhecimento público e notório aos estudiosos da China antiga -- e especialmente do Período das Primaveras e Outonos -- as províncias (ou reinos, ou estados, ou algo que o valha) eram divididas basicamente em dois tipos: 

  1. as ditas civilizadas, que geralmente eram mais próximas geográfica e culturalmente da dinastia Zhou
  2. as chamadas bárbaras, que não fizeram parte do arranjo geopolítico inicial, quando os Zhou subjugaram os Shang ali por volta de 1050 AEC

Visualmente, uma diferença marcante entre os homens "civilizados" e os "bárbaros" eram os cabelos, que desses eram curtos e, daqueles, compridos. Essa diferença é especialmente verdadeira em relação a Wu e Yueh (consideradas bárbaras), que também possuíam outra característica visual marcante: as tatuagens. Como já falei antes em algum lugar, Qi era do núcleo civilizado.

E esse parêntese todo foi apenas para apresentar uma possível explicação ao comentário de Lupu Pie sobre (a falta de) sua cabeleira. Os condenados frequentemente eram marcados visualmente de algum modo e é possível que, no caso dele, tivesse sido obrigado a manter as madeixas sob controle (e isso acaba de me dar uma ideia mucho lôka).

Claro que poderia ter sido pior, podiam ter cortado fora um pedaço do seu corpo, por exemplo. De qualquer maneira, o marquês o levou de volta com a condição de apresentar seu pleito a dois ministros. Ziwei estava disposto a aceitá-lo de volta, mas Ziya refutou a ideia, argumentando que

seu cabelo pode ser curto, mas seu coração é muito longo

e concluiu com algo que me parece indicar que o ministro desconfiava de uma possível futura traição por parte de Pie ("perhaps he will still make our skins his beds"), mas não tenho certeza. Se você souber o que isso pode significar e puder deixar um comentário a respeito, nós ficaríamos muito gratos.

No mais, espero que tenha gostado de mais este texto e conto contigo para os próximos e também para o livro.

Hasta!



A pintura que ilustra esse texto é de uma artista de Taiwan, de nome Der Jen (1964-2002). A encontrei no site walcoo.net, mas outras pinturas suas podem ser apreciadas no tumblr e no pinterest.

Nenhum comentário :

Postar um comentário

Escreva um comentário aí em baixo para o mundo saber o que você achou do post ou do blog. Se preferir, compartilhe o post e nos siga no Facebook ou no Google Plus.