Sun Tzu, a história de Qi e mais uma treta envolvendo concubinas

Cena de Gong Li no filme "Adeus minha concubina", de Chen Kaige

Salve, salve, gente fina.

Depois de descobrirmos os Campos, os 300, a suruba e o efeito Papa-léguas da China antiga, voltamos com mais um texto sobre a história de Qi, provável terra natal do improvável Sun Tzu, famoso autor de novelas da Globo do livro A Arte da Guerra.

Os fatos a seguir ocorrem quando nosso (anti?)herói tinha aproximadamente 4 a 5 anos de idade (cuti cuti), no sétimo ano de governo do duque Jing (540 AEC - pelo calendário chinês, cantava o galo de metal).

Nessa época, uma figura proeminente de Qi participou de uma reunião com representantes de várias outras províncias em Guo, na província de Zheng, sendo sua localização referente ao sul da atual província de Henan.

Por acaso o representante de Qi em questão chamava-se Guo Ruo e o objetivo dessa reunião era reafirmar o tratado de Song (ao qual já nos referimos por aqui)

Nesse encontro, Jin e Chu continuam a trocar farpas, mas nada de muito significativo acontece, a não ser:

  1. o casamento de um Gongzi de Chu com a senhorita Feng, filha de Gongsun Duan;
  2. um vaticínio perpretado em desfavor de Guo Ruo (ou Guozi), o oficial maior representante de Qi no encontro.

Antes de continuarmos, algum esclarecimento: até onde já pesquei de toda essa coisa da China antiga, Gongzi, Gongsun e (provavelmente) Gongzu são títulos de nobreza assemelhados a príncipe. No entanto, parece que  o Gongzi é o que tem a primazia sobre os outros.

Provavelmente, é o que chamaríamos de príncipe herdeiro. Mais à frente, em descobrindo coisas novas, volto a este assunto.

Mais uma fuga, adivinha pra onde?

Retomando o fio da meada, talvez nos próximos posts descubramos se Guozi realmente terá um decesso cruel. Por enquanto, vamos seguindo com uma pequena curiosidade: ainda em 540 ocorre uma sucessão em Ju, para onde retorna uma figura chamada Quji, que estava a residir em Qi.

Na sequência, outra figura, que tinha Zhanyu por alcunha, foge para Wu. E é essa fuga a curiosidade: mais um que acha seu porto seguro em Wu (como você já está careca de saber, o local que deu fama e fortuna a Sun Tzu). Ainda haverei de descobrir por que essa província atraía tanto os fugitivos...

No ano seguinte, 539 AEC, aparece em Qi o novo ministro de Jin: Han Xuanzi, também conhecido como Han Qi, filho de Han Jue (ou Xianzi) e irmão mais novo de Han Wuji, este também conhecido por Gongzu Muzi.

O visitante havia ascendido ao posto de principal ministro de Jin após a morte de Zhao Wu, seu antecessor, no final de 540, e estava em uma peregrinação por diversas províncias na esfera de influência de Jin. O motivo era justamente ser apresentado como o novo ministro responsável pela administração da poderosa província, muito embora isso aparentemente não fosse usual.

Ah, se fosse em Game of Thrones...

No entanto, em Qi não ficou só nisso. Aparentemente, o tal Xuanzi era também uma pessoa iluminada, um sábio, se lhe apetece.

Após oferecer ao duque Jing os presentes de casamento (veja mais detalhes no final do post), visitou Ziya (Gongsun Zao), que chamou seu filho Ziqi para ser apresentado ao visitante. Xuanzi não mediu as palavras:

Ele não é o que preservará sua família. Não possui o ar de um súdito.

Visitou ainda o Gongsun Chai (Ziwei), que também apresentou seu filho, Qiang, ao nobre hóspede. Seu julgamento foi semelhante, curto e grosso:

Ele é como Ziqi.

Muitos dos alto oficiais presentes riram de seus comentários, exceto Yanzi, que acreditou em suas palavras e teria dito, a respeito de Xuanzi:

Ele é um homem superior. Deve se acreditar em um homem superior. Ele tem meios para saber o que sabe.

Note que estamos falando, provavelmente, de potenciais herdeiros de Jiang e seus respectivos filhos. Conheço alguns fulanos em Game of Thrones que teriam mandado cortar a cabeça desse cidadão por muito menos.

Mesmo assim, não parece ter havido maiores consequências, pois Xuanzi continou sua jornada para o oeste tranquilamente, partindo para Wey.

Adeus minha concubina?

O casamento a que me referi lá em cima, para que fique claro, não era do soberano de Qi. Na verdade, Ping, o marquês de Jin, o havia arranjado para si e iria adicionar mais uma concubina ao seu harém, a despeito de posições contrárias de pessoas próximas.

A moça era de Qi e, pouco tempo depois (quarto mês, verão), foi a vez de Han Xu, filho de Xuanzi, visitar Qi para conhecer a noiva de seu soberano. Era ela uma jovem da família Jiang, o clã que comandava Qi desde os primórdios e, naturalmente, ao qual pertencia o duque Jing.

Quem fica encarregado de escoltá-la até Jin é ninguém menos que Tian Wuyu, o pai do nosso Tian Kai, que você conhece como Sun Tzu, o próprio. Ele tinha que permanecer lá até a consumação do matrimônio.

No entanto, como Wuyu não era ministro, Ping fez com que ele fosse detido em Zhongdu. Duas pessoas intercederam por ele. A primeira foi uma figura chamada Shuxiang, que teria dito ao marquês algo assim:

De que ofensa ele é culpado? Você mesmo enviou um alto oficial de um clã ducal para encontrar-se com sua noiva. Qi enviou um alto oficial da nobreza para escoltá-la. E se você insistir que isso não foi respeitoso, sua vontade está eivada de excesso. Nossa província é a que não foi respeitosa e, ao deter o mensageiro, você o está punindo injustamente. Como pode você, assim, ser o hegemônico?

A segunda pessoa a interceder por Tian Wuyu foi justamente a moça que ele escoltou, a nova concubina, que havia caído nas graças do seu novo esposo e ajudou a convencê-lo a libertar Wuyu. No décimo mês, durante o inverno, ele volta para casa.

Considerando a teoria do caos e o efeito borboleta, no entanto, me ocorreu que o mundo de hoje poderia ser completamente diferente caso Wuyu não tivesse retornado a Qi ou, pior, tivesse sido morto por Jin (o que não era muito improvável, tendo em vista o que nós já vimos aqui neste mesmo e humilde blog em várias ocasiões). 

Sei lá, Sun Tzu poderia ter virado poeta feito poesia e a assim chamada revolução cultural chinesa nunca ter acontecido, vá saber.

Para nosso deleite, entretanto, aconteceu o que aconteceu e muito em breve você terá em mãos uma ficção histórica muito bacana inspirada em tudo isso que você lê aqui e tendo o endiabrado chinês como figura central.

Por enquanto, ficamos por aqui e te aguardamos no próximo post.

Até lá!


Fotograma do sensacional filme Adeus Minha Concubina obtido no site Adoro Cinema

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