Assassinato de Liao -- uma boa razão pra não comer peixe assado

Duas piraputangas assadas na brasa com recheio de cebola na manteiga

Após finalizar os posts sobre os fatos que marcaram a época de Sun Tzu, autor do livro A Arte da Guerra, passarei a publicar diversos textos complementares que devem esclarecer melhor alguns fatos ou suplementar os que já foram publicados. Além disso, eles me ajudam a organizar melhor as ideias e servirão (eventualmente) de base para a escrita definitiva do livro. Isto posto, vamos aos episódios que resultaram no assassinato do wang Liao, de Wu, e subsequente ascensão do príncipe Kuang (seu sobrinho) como wang Holu.

Começamos um pouco antes, por volta de 515 AEC, ano do cachorro de fogo no tradicional calendário chinês. Liao resolveu aproveitar a morte do wang P'ing de Ch'u para invadir a província. Enviou, então, dois irmãos seus mais novos, os príncipes Yanyu e Zhuyong, para sitiar Qian. Chu não ficou parada e enviou homens para apoiar Qian, que foram reforçados pelo marechal da Esquerda, Xu, à frente dos nobres menores da capital e pelos homens pertencentes ao Cavalo do Rei (o que quer que isso signifique).

Eles se encontraram com o exército de Wu em Qiong e nesse meio tempo o ministro-chefe de Ch'u, Nang Wa, prosseguiu com uma força naval para a curva do rio Sha, e depois voltou (por quê, não sei se haveremos saber). Xi Yuan, diretor da Esquerda (desculpem, ainda não descobri o que é isso), e Shou, o diretor  de Obras, encaminharam-se para Qian com uma outra força, de modo que o exército de Wu não teve como recuar, permanecendo encurralado.


Aproveitando a oportunidade (que ele mesmo criou?)

Com parte significativa das tropas de Wu fora e, mais importante, com os príncipes (que presumo serem aliados de primeira ordem de Liao) ausentes, Kuang não teve dúvidas de que sua hora havia chegado e que não poderia perder a oportunidade. Dirigiu-se a Chuan Chu nestes termos:

Os povos do norte costumam dizer que se você não vai atrás do que quer, jamais vai conseguir. Eu sou o herdeiro do [ex-] wang e desejo governar Wu. Se eu obtiver sucesso, mesmo que Chi-cha retorne, ele não me deporá.
(Chi-cha era um tio de Kuang e irmão de Liao que anos antes prescindiu de seu direito de governar Wu e, agora, estava em missão no "exterior").


Chuan Chu então retrucou:

O rei pode ser morto, mas minha mãe é velha e meu filho é jovem; o que posso fazer a esse respeito?" 
(Algumas fontes tem uma versão um pouco diferente, na qual Chuan na verdade fala sobre os parentes de Liao).


Kuang respondeu: "Eu vou ser como você para eles".


Um punhal e um peixe assado

No verão, no 4º mês, Kuang escondeu alguns homens armados em uma câmara subterrânea e convidou o wang para um banquete. Liao fez com que seus homens guardassem o caminho entre o palácio e o local onde seria o banquete (aparentemente, a residência de Kuang). Havia amigos do wang com espadas em ambos os lados das escadas, das portas internas e dos tapetes.

Fizeram com que os serviçais que trouxeram os mantimentos ficassem nus e os fizeram mudar suas roupas fora da porta. Depois também os fizeram arrastar-se de joelhos, enquanto outros espadachins os escoltavam de perto por ambos os lados (e pode acreditar que não entendi por quê - se tiver alguma ideia, me diga ali comentários). Foi com esse nível de segurança que a comida é a bebida chegaram a Liao.

Kuang, fingindo sofrer com dores nos pés, entrou na câmara subterrânea, enquanto Chuan Chu apareceu com um peixe dentro do qual tinha escondido um punhal (é inferível que ele estava entre os serviçais pelados). Ele atacou o wang com a arma e, quase que ao mesmo tempo, foi atingido no peito pelas espadas dos guarda-costas. Mão adiantou, Liao já estava condenado; Chuan o atingira.

Depois da tempestade

Quando Chi-cha finalmente retornou, ele disse a respeito de Kuang (já como wang Ho-lü), e sua artimanha:

Se os sacrifícios aos nossos ex-governantes não forem negligenciados, nem o povo ficar sem um mestre adequado, se as oferendas forem apresentadas em nossos altares e a província não sucumbir, ele será meu governante. Contra quem devo alimentar ressentimento? Vou chorar os mortos e servir aos vivos, enquanto aguardo o decreto dos Céus. Não irei criar desordem e seguirei aquele que está no trono, da mesma maneira que segui nossos antigos governantes.

Em seguida, ele reportou a execução de sua missão e chorou sobre o túmulo de Liao. Depois, retomou a sua posição e aguardou as ordens do novo wangKuang (Ho-lü) fez do filho da assassino um de seus ministros, honrando sua palavra.

Ao tomar conhecimento do ocorrido em Wu, o exército de Chu retirou-se, abrindo passagem para que o príncipe Yanyu "fugisse" para Shu e Zhuyong, para Zhongwu.

Estes episódios estão registrados nos Comentários aos Anais das Primaveras e Outonos, livro X, Duque Zhao, 27° ano. Os Anais (comentados ou não) são uma das principais fontes históricas sobre o período em que viveu Sun Tzu e, diz a lenda, teriam sido escritos pelo próprio Confúcio.

Há ainda uma "versão estendida" dessas peripécias publicada no livro "The Tao of Spycraft", de Ralph D. Sawyer, 2004, p. 68-71. Mas acho que a que reproduzi acima já dá uma ideia boa do que vem por aí, de modo que não devo reproduzir o texto de Sawyer (a não ser, quem sabe, no livro, já com as devidas licenças poéticas).

Eu acho que vai dar uma história muito boa. E você?


Foto obtida no blog barradas, sem indicação de autor
(não conheço o restaurante, nem estou recebendo para fazer propaganda,
mas se você conhecer, ajude os outros leitores e diga se é bom ou não)

2 comentários :

  1. Boa noite Alexandre.
    Passando para conferir este peixe assado e indigesto do qual enviou.
    Pela foto parece simplesmente delicioso. Depois de ter lido compreendi, quais os motivos deste peixe ter sido indigesto, mas como é política se pouco entendo as dos Brasil então não me atrevo a comentar sobre outro país ainda mais sobre discussão de política Internacional.. . Um excelente final de semana e que Deus ilumine sempre seus caminhos. Abraços sempre.
    ClaraSol

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    Respostas
    1. Opa, Clara.

      Obrigado pela visita.

      Eu mesmo, que já venho estudando a China antiga desde que iniciei este projeto de escrever um livro sobre Sun Tzu, às vezes me atrapalho com todos os nomes e questões culturais específicas da China.

      Mas vamos em frente.

      Tenha uma ótima semana!

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