Nos tempos de Sun Tzu V -- tocaia

Pintura representando uma emboscada, com homens a cavalo e monstros
<< Emboscada: uma das armas do arsenal d'A Arte da Guerra
-- arte de Jesper Ejsing via Muddy Colors >> 

Como você que nos acompanha há algum tempo já deve ter percebido, um dos princípios básicos do evangelho de Sun Tzu diz respeito à predominância da inteligência sobre a força. É isso que ele quer dizer quando se refere a planejamento e ao uso de espiões, por exemplo. E mesmo quando chegar às vias de fato é inevitável, o esforço de batalha deve ser empreendido, antes de tudo, com base nos conhecimentos que se possui do terreno, do inimigo e de tudo mais que possa ajudar a maximizar o lucro e minimizar as perdas.

Na batalha de Chi-fu, Wu seguiu este mantra religiosamente, ao preparar uma estratégia que levou em consideração seus conhecimentos sobre o exército inimigo frente à sua própria desvantagem numérica. Como você deve ter visto no post anterior (colocar link), suas ações basearam-se em três pontos:

  1. atacar primariamente as tropas dos exércitos das províncias (mais ou menos) aliadas de Ch'u
  2. atacar em um momento inesperado e
  3. atacar com um contingente de recrutas mal treinados

Sinistra emboscada

O ataque, na verdade, era uma isca e foi concentrado nos exércitos de três das seis províncias coagidas (Hu, Shen e Ch'en). Estes exércitos estavam encarregados de defender a parte central da linha dianteira, atrás da qual o exército principal de Ch'u estava acampado. O ataque teve o resultado previsto, já que os atacados saíram em disparada atrás dos atacantes (que propositalmente recuavam), caindo direto na emboscada preparada por Wu.

Tropas de Wu dispostas à direita e à esquerda da turba atacaram ferozmente, enquanto sua principal força, escondida logo à frente dos perseguidores, lançou um ataque frontal, de modo que o inimigo se viu completamente cercado. Seguiu-se um caos indescritível, com a maioria dos soldados da aliança sendo mortos ou capturados e os regentes das três províncias, sumariamente executados. As execuções, cuidadosa e visivelmente realizadas, aumentaram ainda mais o pânico entre os sobreviventes, muitos dos quais "conseguiram" fugir, tratando de espalhar o caos entre os três exércitos remanescentes.

Coincidindo com o retorno das tropas aliadas restantes, Wu lançou um ataque coordenado aos exércitos das três províncias que ainda permaneciam em seus lugares (Hsü, Ts'ai e Tun). Como previsto, eles rapidamente caíram sob a pressão combinada do assalto externo e da turbulência interna, entrando em pânico enquanto se perdiam em meio ao caos.  

Acabaram por fugir descontrolados, indo bater de frente com o exército principal de Ch'u, que, apesar de ainda não estar posicionado em formação de batalha, havia começado a avançar. A situação caótica acabou por evitar que eles assumissem qualquer postura ofensiva e a fuga desordenada rapidamente converteu-se numa derrota avassaladora.

Conseqüências

Uma das principais consequências da derrota de Ch'u foi que os residentes da região disputada por ambas as províncias, bem como das regiões que já haviam sido anexadas por Ch'u (a leste e norte), perceberam que ao mesmo tempo em que Ch'u continuava a reprimí-los e subjugá-los, não poderia defendê-los de Wu. Sentindo-se vulneráveis, e geralmente tratados com desgosto pelo regente de Ch'u, cada vez mais depositavam suas esperanças, e mesmo sua lealdade, em Wu.

Esta disputa exemplifica, ainda, uma possibilidade aberta pelos princípios advogados por Sun Tzu: a de que um exército menor ou mais fraco (Wu) pode sobrepujar um maior ou mais forte (Ch'u). Apesar de Wu ter levado em balsas, rio acima, carruagens e suas forças aquáticas e de infantaria, os exércitos de Ch'u tinham números vastamente superiores.

Wu tratou então de, sorrateiramente, fazer com que o inimigo se movimentasse, aproveitando-se da confusão e desordem resultantes, bem como do terreno, para chocá-los, aterrorizá-los e atacá-los. Não há dúvida de que  o sucesso alcançado deve-se à qualidade de sua inteligência militar.

A vitória de Wu marcou, também, a primeira incursão e ocupação de território Ch'u por uma outra província, expondo-a à ameaça de uma futura invasão, pois, devido às numerosas montanhas e densas florestas que a protegiam a leste e norte, existiam apenas três rotas para penetrar o interior de Ch'u. Uma delas, agora, estava nas mãos do inimigo.

Naturalmente que, embora ferida e desonrada, Ch'u ainda era uma potência e os embates entre ambas as províncias estavam longe de terminar. No entanto, muita coisa ainda há de acontecer antes que Wu alcance pelo menos um de seus objetivos.

No que diz respeito à nossa história (o livro), ela deve ter início em algum momento não muito depois desta batalha (mais ou menos quando Sun Tzu é admitido em Wu) e seguir até a grandiosa invasão à capital de Ch'u (ou um pouco depois).

E os próximos posts tratarão de tudo isso. Até lá!

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