Nos tempos de Sun Tzu I -- os bons companheiros

Ilustração de um aperto de mãos estilizado, em que se apontam armas um para o outro
<< Quer ser meu melhor amigo? -- via Lengua y Literatura >> 

No post anterior, apresentei uma cronologia básica dos principais fatos que marcaram a época de Sun Tzu. Neste e nos próximos, vamos detalhar um pouco estes fatos, muitos dos quais ou farão parte da trama principal do livro ou terão uma função importante de contextualização da história.

Antes de irmos ao que interessa, gostaria de chamar a atenção para o termo wang, que utilizaremos doravante. Trata-se de um título de nobreza assemelhado a rei, que será usado neste blog para fazer referência aos chefes das províncias mais poderosas. Em tese, apenas o regente dos Chou (a dinastia que, também em tese, detinha a máxima autoridade) merecia e herdara título de tamanha envergadura, embora também recebesse o título de imperador.

Quero dizer ainda que a trama principal se passará no tempo que eu chamo de presente (da história, claro) e os relatos referentes a ela serão detalhados nos últimos desta série de posts. Estes que ora apresento são do passado médio. E ainda haverá os do passado próximo e longínquo, mas não se apoquente, cada coisa a seu tempo.

Isso posto, agora sim, vamos ao que interessa: a história gira em torno, principalmente, de dois reinos (ou principados, ou feudos, ou estados, ou províncias, ou outra coisa, ainda estou avaliando): Wu, onde Sun Tzu teria atuado como general, e Ch'u, um dos fodões da época.

Ao longo do século VII AEC, Ch'u incrementou seu poderio militar a ponto de subjugar muitas províncias menores, como Ts'ai, Shen e Cheng. Ao final do século, o total de pequenas províncias anexadas a seus domínios ou simplesmente destruídas alcançou a marca de 40, incluindo muitos que afirmavam ter ancestrais na linhagem imperial dos Chou -- a dinastia que detinha o poder (ainda que pratica e tão somente nominal) de Tudo Sob o Céu.

Desde que os Chou tiveram que mudar sua capital para o leste, dando início ao período da história chinesa conhecido exatamente como Chou do Leste (ou Oriental), a figura do imperador tornou-se cada vez mais enfraquecida, a ponto de, em determinado momento, o poder de fato ser exercido pelos vassalos, sob a liderança de um deles, conhecido como hegemônico. O primeiro vassalo a assumir este papel de liderança (em nome da dinastia, claro) foi o kung Huan, de Ch'i, cujo governo à frente da província foi de 685 AEC até 634 AEC (kung, para todos os efeitos, é algo assemelhado a duque).

Ch'u continuava a alimentar suas ambições, o que não impediu sua derrota para os principados aliados Sung, Chin, Ch'i e Ch'in na famosa batalha de Ch'eng-P'u, em 632 AEC, ano em que seu território total já cobria mil li. A derrota fez com que Ch'u, pelo menos temporariamente, redirecionasse sua campanha expansionista para o sul e o sudeste, passando a dominar muitas províncias menores ao longo do rio Han. Esta mudança de rumos inevitavelmente fez com que Ch'u e Wu entrassem em rota de conflito.

No início do século seguinte, VI AEC, o principado de Chin (que era outro dos fodões da época, ao lado de Ch'u) teve a audácia de formar "seis exércitos", usurpando uma prerrogativa imperial dos Chou. Tornou-se também mais uma província cujo wang aclamava-se hegemônico.

Não muito tempo depois, em 585 AEC, Shou-meng torna-se o primeiro governante de Wu a assumir o título de wang. Isso é outro passo desta província em direção ao estilo administrativo mais formal empregado no norte. Também representa um claro esforço no sentido de aumentar seu prestígio e acaba por colocar mais uma pedra no sapato de Ch'u.

As províncias do norte também testemunharam o nascimento de outros wang, embora muitas ainda fossem governadas apenas por kung ou nobres menores.

Diplomacia em tempos de guerra

Também em 585 AEC, Wu monta uma campanha que atravessa mil li para atacar e derrotar o pequeno principado de T'an, demonstrando seu crescente poder. Isto chama a atenção de Chin, que lhes propõe uma aliança, já em 584 AEC, por meio do envio de uma comitiva com 9 carruagens e 125 guerreiros e oficiais, liderada por Wu-ch'en, o kung de Shen.

O fato é que Chin obtivera um razoável sucesso em seus esforços para conter Ch'u. No entanto, ao se deparar

  • com a ameaça advinda do poder crescente de Ch'in, a oeste, 
  • com suas próprias disputas internas e 
  • com o rápido declínio de seu prestígio, 

resolveu desenvolver uma alternativa externa ao poder de Ch'u. Por isso, o envio da comitiva a Wu, já que sua força cada vez maior sugeria a possibilidade de uma parceria construtiva entre ambos.

Além da concretização da aliança, a visita tinha o objetivo explícito de atualizar os hóspedes sobre as novidades d'arte da guerra: era preciso apresentar a Wu a carruagem e as técnicas de combate em solo das províncias do norte. No entanto, o verdadeiro impacto e a efetividade das instruções de Wu-ch'en são discutíveis, já que forças navais e de infantaria continuaram a predominar em Wu, com as carruagens sendo mencionadas apenas esporadicamente nos textos históricos que dão conta de suas diversas batalhas.

Ataques importantes de Wu contra Ch'u foram lançados a partir de rotas aquáticas, ou pelo menos cruzando grandes rios, de modo que barcos para transporte eram inevitavelmente necessários. Isto era um limitador para o número de carruagens empregadas, já que elas eram difíceis de ser carregadas. Assim, as unidades de infantaria invariavelmente desempenhavam o papel central.

Esta visita marca, ainda, um ponto de virada no que diz respeito à correlação das forças militares e, pelo menos de forma simbólica, insere Wu culturalmente na esfera das províncias civilizadas. Além disso, Wu-Ch'en torna-se o primeiro "conselheiro convidado" a ser recebido em Wu, iniciando ali uma tradição que posteriormente resultaria na "contratação" de Wu Tzu-hsü e Sun Tzu.

And that's all, folks! No próximo texto vamos continuar desenvolvendo essa história até a famosa batalha de Chi-fu (não confundir com o mestre de Po, no filme Kung Fu Panda), ou um pouco antes disso.

Hasta!

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