Sobre a Movimentação -- Capítulo IX do livro A Arte da Guerra de Sun Tzu


Um exército deve escolher lugares altos, evitar os baixos, valorizar a luz e fugir da sombra.

Yang Tze, ou Chang Jiang, um dos maiores rios da China e cenário de batalhas épicas na antiguidade
<< Ah, também é bom saber atravessar rios, viu? -- via Olhar das Montanhas >> 

Confesso que às vezes tem que se esforçar um pouco mais para entender o Sun Tzu.

O cara vem e escreve um capítulo com o nome "Manobras" e, dois capítulos depois, me aparece com um chamado "Sobre a movimentação"! Por que não faz um só, se as duas coisas são quase a mesma coisa?

Obviamente que pra bem responder a esta pergunta é necessário conhecer a fundo dois temas:

  1. a arte da guerra propriamente dita; e
  2. o id, o ego e o superego de um chinês de 2.500 anos atrás.


Nenhum do dois temas me é estranho, mas estou longe (muito longe mesmo) de ser uma sumidade em qualquer um deles.

No entanto, fica-me a impressão de que as "manobras" enfatizam mais a organização do exército (mesmo no campo de batalha) e de que as "movimentações" dizem mais respeito ao posicionamento do exército frente ao inimigo e à topografia.

Se eu estiver errado, por favor, deixe-me saber. Não sem antes terminar de ler este post e o que trata de manobras, claro.

As condições básicas



Pois bem, Sun Tzu começa o capítulo destacando 4 condições básicas que é necessário conhecer para se dar bem na peleja.

Todas tem a ver com o que escrevi ali em cima (posicionamento do exército em relação à topografia e ao inimigo) e, segundo o filósofo, o mítico Imperador Amarelo não apenas as conhecia, mas também as empregou para vencer os Quatro Soberanos dos Tempos Antigos.

São elas:

  1. Quando nas montanhas, ficar no alto, a favor da luz-- afastar-se de vales, precipícios, becos e desfiladeiros e usá-los contra os inimigos, forçando-os a ficarem de costas para o perigo
  2. Quando na água, não combater ali perto, permanecer em lugar elevado e a favor da luz -- também não atravessar se houver torrentes e correntezas fortes ou redemoinhos ("poços celestes")
  3. Quando no pântano, atravessá-lo o quanto antes e, caso atacado, ficar junto à vegetação rasteira, de costas para as árvores -- terrenos pantanosos são propícios para emboscadas e espionagem
  4. Quando em um terreno plano, buscar espaço para manobrar e, para proteger a vanguarda, manter lugares altos atrás e à direita


Após destrinchar esses conceitos, Sun Tzu passa a discorrer sobre o significado de determinados comportamento do ambiente e dos inimigos.

Do ambiente, é dito:

Quando as árvores se mexem, é porque o inimigo está marchando. Muitas marcas na vegetação rala podem ser uma armadilha ou pista falsa.
Pássaros voando significam emboscada; animais amedrontados, que uma tropa aguarda na tocaia; poeira densa no ar, carros que se aproximam; poeira baixa, soldados marchando; fumaça indica fogueiras e acampamentos; nuvens de pó suave significam o mesmo.

Conhece o inimigo e a ti mesmo



Sobre o inimigo, inúmeros comportamentos são avaliados, com seus respectivos significados.

Se ele

  • está perto, mas calmo -- está forte e preparado
  • chama para a luta de longe -- está em posição favorável
  • envia emissários: com palavras doces e humildes -- vai atacar; ríspidos e agressivos -- vai fugir; com justificativas razoáveis -- quer negociar
  • pede paz sem proposta ou acerto -- é traição
  • posiciona carros ligeiros nos flancos -- formam a frente de batalha
  • dispõe os carros em filas de combate -- espera reforços
  • tem metade das forças andando de um lado para o outro, avançando e recuando -- atrai para uma armadilha

Note que os comportamentos acima, aos quais chamarei "ativos", são intencionais e buscam provocar uma ação que resultará em vantagem ao inimigo.

Há também uma série de comportamentos que podemos chamar de "passivos" e que, se bem lidos, resultam em desvantagem para eles.


Ao ler tais comportamentos, é possível saber se eles (os inimigos) estão

  • famintos ou sedentos;
  • extenuados ou amedrontados;
  • cansados;
  • desorganizados;
  • desesperados;
  • no limite das forças;
  • indisciplinados;
  • se abandonaram o acampamento; ou
  • se o general não mais possui autoridade ou a lealdade dos soldados.

Seguindo uma das mais conhecidas frases de Sun Tzu - conheça o inimigo e a si mesmo -, o autor d'A Arte da Guerra finaliza o capítulo apresentando algumas atitudes que devem ser ponderadas no que diz respeito ao relacionamento do general com as tropas.

Elas tem a ver com

  • castigo e lealdade;
  • obediência e (in)submissão;
  • cortesia e "ardor marcial".

Tudo isso ligado, direta ou indiretamente, à clareza, sentido, confiabilidade e justiça das ordens, como podemos verificar no parágrafo derradeiro:

Quando as ordens são confiáveis e justas, elas serão cumpridas, estando o líder e a tropa em comum acordo.

Como sempre, a ideia de que, na arte da guerra, a inteligência (ou estratégia) deve prevalecer sobre a força bruta (ou pelo menos sustentá-la) perpassa todo o texto.

Pense nisso e comente.

Hasta!

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