As Nove Mudanças -- Capítulo VIII do livro A Arte da Guerra de Sun Tzu


Não suponha que o inimigo não virá, esteja pronto para recebê-lo. Torne-se invencível.

Soldados prestes a desembarcar na Normandia, na 2ª Guerra Mundial, dia D
Isso é que é turismo de aventura, não acha? -- via Universo da Logística

Antes de entrar nos "inicialmentes" deste capítulo VIII do livro A Arte da Guerra, é necessário fazer uma breve, brevíssima, consideração a respeito de uma pequena grande mudança que fiz em relação aos comentários do livro.

Quando tive a ideia de escrever uma obra literária tendo o Sun Tzu como personagem principal, a primeira coisa que fiz foi comprar o livro, por óbvio.

Acontece que o livro que comprei é uma tradução da tradução francesa pioneira do missionário jesuíta francês Amiot.


No meio de minhas pesquisas descobri que há um sério problema com esta tradução (a francesa, não a brasileira): aparentemente, o padre a "enriqueceu" utilizando-se de comentários próprios enxertados no meio do texto original, como se fossem frases de Sun Tzu mesmo.

Resolvi então comprar uma edição mais fiel ao texto antigo, agora traduzida diretamente do chinês para o português pelo sinólogo André Bueno. Resultado: um texto muito mais direto, muito mais simples, muito mais enxuto, sem muitos rodeios e explicações.

Muito mais chinês e ancestral!

Não me parece, no entanto, que o artifício de Amiot tenha desvirtuado significativamente o texto original. Até, pelo contrário, ajuda a entender melhor algumas ideias que no texto original ficam, para o leigo, incompletas.

Entendendo as diferenças



Exemplo claro está neste capítulo VIII mesmo, que abre, na tradução de Bueno, sentenciando a "regra geral para o início das operações militares", que consiste "na convocação de um general pelo seu governante". Ponto!

Imediatamente depois, sem mais nem menos, aparece mais uma relação de regras importantes:

  1. Não acampe em terreno baixo
  2. Seja diplomático na fronteira; faça aliados
  3. Não fique em terra ruim
  4. Em terra inóspita, planeje
  5. Em campo de morte, lute
  6. Algumas vias não devem ser percorridas
  7. Alguns exércitos não devem ser atacados
  8. Algumas cidades não devem ser sitiadas
  9. Alguns terrenos não devem ser disputados


Tudo mais ou menos fácil de entender, exceto pelos itens 3 e 5. Afinal, o que cargas d'água vem a ser "terra ruim"? Pior, qual será mesmo o significado de "campo de morte"?

Nada, absolutamente nenhuma explicação nos é fornecida no texto original.

Já a tradução francesa, didaticamente, nos ensina:

Encontrando-te em um campo de morte, busca o combate. Chamo de lugar de morte esses ermos onde não há nenhum recurso, onde se definha inelutavelmente pela insalubridade do ar, onde as provisões minguam sem esperança de serem repostas; onde as doenças começam a grassar no exército, prenunciando grandes flagelos. Se te encontrares em tais circunstâncias, precipita-te em deflagrar o combate. Asseguro-te que tuas tropas se mostrarão intrépidas no combate. Morrer pela mão do inimigo lhes parecerá suave em comparação com todos os males que as atormentam.

E pelas leituras que já fiz é isso mesmo. Um pouco melhor, não?

Ainda assim, mesmo achando que o sentido geral do antigo texto de Sun Tzu permanece refletido no texto de Amiot, daqui pra frente tudo vai ser diferente. Melhor dizendo, vamos fazer os comentários exclusivamente sobre o texto traduzido por André Bueno.

Aliás, já começamos a trabalhar assim desde o texto anterior (Manobras -- capítulo VII do livro A Arte da Guerra).

Desobediência civil made in China



Isto posto, continuemos, pois Sun Tzu disse:

Existem ordens vindas do soberano que não devem ser obedecidas.

E o restante do curto capítulo ajuda-nos a entender este gesto de "desobediência civil".

Pra começar, ele acrescenta que "os generais que conhecem as nove mudanças sabem como empregar suas tropas". As palavras-chave aqui são "conhecem" e "sabem".

Se os generais são bons oficiais, entendem do riscado, conseguem tirar proveito do terreno e das vantagens (é mestre na arte da guerra), eventualmente receberá ordens do soberano que ele sabe que serão desastrosas, que levarão suas tropas à ruína.

Nestes casos, sobra para o general ligar o "foda-se" e fazer o que ele sabe que tem que ser feito, mesmo que a consequência seja uma cabeça a menos no reino.


Isto seria, vamos dizer assim, o cúmulo do patriotismo.

É como se você fosse o Capitão América Jack Flag e ignorasse uma ordem do Barack Obama porque tem certeza de que o que você planeja fazer é o que realmente vai salvar os EUA de mais uma ameaça inter(urbana/nacional/planetária/estelar/galática).

Mais umas dicas aqui e ali, e o capítulo é finalizado com as cinco características que, para um general, são fatais e "provocarão desastres nas campanhas":

  1. Se temerário, morre logo.
  2. Se covarde, é capturado.
  3. Se exaltado , será humilhado.
  4. Se moralista, será difamado.
  5. Se bondoso, sofrerá.

A boa e velha sabedoria relacionada ao equilíbrio das coisas.

Como costuma dizer meu pai, nem muito doce, nem muito azedo.

Inté!

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