I Ching, o Livro das Mutações - Livro Primeiro, Hexagrama 11: T'ai / Paz

Imagem de T'ai / Paz, primeiro dos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações

Esse texto faz parte da série a respeito do I Ching, o Livro das Mutações, que estamos publicando no blog semanalmente. A proposta é apresentar os textos sobre os 64 hexagramas publicados nos livros Primeiro e Terceiro do livro de Richard Wilhelm.

Para entender melhor o que é o I Ching, sugerimos dar uma olhada no post:


Para consultar o índice dos 64 hexagramas, basta acessar:


Conforme aprendemos no post do primeiro link acima, cada hexagrama inclui:

  • nome do hexagrama (卦名 guàmíng), que por si só já é repleto de simbolismos;
  • texto, também chamado julgamento ou oráculo, que revela em linguagem simbólica o significado do hexagrama e possui poucas frases, tendo a ele sido adicionados comentários e interpretações ao longo dos séculos, a fim de para ajudar o leitor a traduzir o ensinamento ancestral;
  • imagem ou símbolo, que apresenta uma mensagem adicional, com um modelo de conduta ou um conselho estratégico para lidar com a situação indicada pelo hexagrama; e
  • Os textos das linhas, em número de seis, indicam alternativas ou transformações possíveis das condições retratadas no hexagrama.

Além disso, antes de entrar nos detalhes acima, há uma espécie de introdução que está identificada como "nota do autor".

E isso é basicamente tudo que você precisa saber para continuar. E boa leitura!

Livro Primeiro (o Texto), Hexagrama 11: T'ai / Paz



Nota do autor

O Receptivo, cujo movimento tende a descer, está acima; o Criativo, cujo movimento eleva-se, está abaixo. Assim, suas influências estão em harmonia e todos os seres florescem e prosperam.

O hexagrama está relacionado ao primeiro mês (fevereiro-março), no qual as forças da natureza preparam uma nova primavera.

Julgamento


Paz.
O pequeno parte, o grande se aproxima.
Boa fortuna.
Sucesso.

O hexagrama indica uma época em que o céu parece estar na terra. O céu colocou-se sob a terra e, assim, os dois princípios unem seus poderes em profunda harmonia. Essa união traz paz e bênção a todos os seres.

No âmbito humano isto representa uma época de harmonia social. Os poderosos voltam-se para os humildes, enquanto esses se mostram amistosos em relação àqueles, terminando assim toda hostilidade.

O princípio luminoso está no interior, no centro, em posição decisiva. O princípio da escuridão encontra-se do lado de fora. Assim, o princípio luminoso exerce uma poderosa influência, e o princípio obscuro submete-se. Deste modo ambos recebem o que lhes corresponde.

Quando, numa sociedade, os bons elementos detêm o comando em suas mãos, exercem uma influência sobre os maus elementos que, então, mudam para melhor. Quando, no homem, o espírito dos céus governa, sua natureza corpórea sofre essa influência, encontrando o seu lugar apropriado.

As linhas chegam ao hexagrama embaixo, abandonando-o em cima. Aqui são, portanto, os elementos pequenos, fracos e maus que estão partindo, enquanto os elementos grandes, fortes e bons ascendem.

Isso traz boa fortuna e sucesso.



Imagem


Céu e terra unem-se:
a imagem da paz.
Assim o governante divide e completa o curso do céu e da terra, favorece e regula os dons do céu e da terra e, desta forma, ajuda ao povo.

O céu e a terra estão em contato e combinam suas influências, propiciando uma época de florescimento e prosperidade geral. O governante dos homens deve regular essa corrente de energia. Isso se faz através da divisão.

Assim, os homens dividem o fluxo uniforme do tempo em estações, de acordo com a seqüência dos fenômenos naturais, e dividem também em pontos cardeais o espaço que envolve todas as coisas. Desse modo, a natureza, em sua pujante profusão de fenômenos, é delimitada e controlada.

Por outro lado, é necessário estimular a natureza em sua produtividade. Isso se consegue ajustando os produtos ao momento e lugar adequados, o que aumenta o rendimento natural.

Assim, a natureza recompensa o homem que a controlou e estimulou.

Textos das linhas


Visão interna da Muralha da China, ilustra a seção sobre textos das linhas de T'ai / Paz, um dos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações


Linha móvel na primeira posição


Nove na primeira posição significa:
Quando se arranca uma folha de grama, junto vem o torrão.
Cada qual de acordo com sua espécie.
Empreendimentos trazem boa fortuna.

Em épocas de prosperidade, cada homem capaz chamado a ocupar um cargo traz consigo companheiros igualmente aptos, assim como ao se puxar uma folha de grama arrancam-se sempre várias outras, pois os caules se entrelaçam nas raízes.

Em tais épocas, em que é possível se exercer uma ampla influência, o propósito do homem capaz é lançar-se à vida e realizar algo.

Linha móvel na segunda posição


Nove na segunda posição significa:
Suportar gentilmente os incultos, atravessar o rio com decisão, não negligenciar o longínquo, não privilegiar os companheiros.
Assim se poderá trilhar o caminho do meio.

Em épocas de prosperidade é, acima de tudo, importante possuir a grandeza interior que permite suportar pessoas imperfeitas.

Nas mãos de um grande mestre nenhum material é improdutivo, para tudo ele encontra utilidade. Porém essa generosidade não deve ser confundida de modo algum com negligência ou fraqueza.

É justamente em épocas de prosperidade que se deve estar sempre pronto para arriscar até empreendimentos perigosos, como a travessia de um rio, se for necessário. Do mesmo modo, não se deve neglicenciar o que está distante, mas atender, escrupulosamente, a tudo.

Deve-se evitar, em especial, cair em partidarismos ou sob o domínio de facções. Mesmo quando homens que pensam de maneira semelhante chegam, juntos, a uma certa proeminência, não devem por isso formar facção, mas cada qual deve cumprir o seu dever.

São esses quatro fatores que permitem superar o perigo de um gradual relaxamento, ameaça que se oculta em todo período de paz. Deste modo se encontra o caminho do meio para a ação.


Linha móvel na terceira posição


Nove na terceira posição significa:
Não há planície que não seja seguida por uma escarpa.
Não há partida que não seja seguida por um retorno.
Aquele que se mantém perseverante quando em perigo permanece sem culpa.
Não lamenta essa verdade:
Usufrua a boa fortuna que ainda possui.

Tudo na terra está sujeito à mutação. À prosperidade segue-se a decadência. Esta é a eterna lei da terra.

O mal pode ser controlado, mas não permanentemente eliminado. Sempre voltará. Esta convicção poderia provocar melancolia, porém isso não deve acontecer. Ela deve servir, apenas, para que o homem não se deixe iludir quando a boa fortuna chega.

Se permanecer atento ao perigo, poderá prosseguir com perseverança e sem cometer erros. Enquanto a natureza interior do homem permanecer mais forte e mais rica que a fortuna externa, enquanto ele permanecer interiormente superior à sua sorte, a felicidade não o abandonará.

Linha móvel na quarta posição


Seis na quarta posição significa:
Ele desce voando sem se vangloriar de sua riqueza.
Junto a seu próximo, sincero e sem malícia.

Nas épocas em que há confiança mútua, os grandes vêm ao encontro dos humildes com simplicidade, sem se vangloriar de suas riquezas.

Isso não se deve à força das circunstâncias, mas corresponde a seus sentimentos mais profundos. A aproximação se dá com espontaneidade, pois está fundamentada numa convicção interior.


Linha móvel na quinta posição


Seis na quinta posição significa:
O soberano I concede sua filha em casamento.
Isso traz bênçãos e suprema boa fortuna.

O soberano I é Tang. O QUE COMPLETA.

Por um decreto seu, as princesas imperiais, apesar da posição hierárquica superior à dos maridos, lhes deviam obediência, como todas as outras esposas. Aqui também se indica uma união realmente modesta entre o alto e o baixo, que traz bênçãos e boa fortuna.

Linha móvel na sexta posição


Seis na sexta posição significa:
A muralha cai novamente no fosso.
Não use o exército agora.
Proclame suas ordens em sua própria cidade.
A perseverança traz humilhação.

Começou a ocorrer a mudança mencionada no meio do hexagrama. A muralha da cidade cai novamente no fosso do qual tinha sido erguida. Sobrevem o desastre.

Agora o homem deve se submeter ao destino, e não pretender detê-lo através de uma resistência violenta. O único recurso restante é resguardar-se em seu círculo mais íntimo.

Se quisesse, como de costume, perseverar na resistência ao mal, o colapso seria ainda mais completo, levando à humilhação.

Depois de tudo

E aqui alcançamos o final do texto sobre o hexagrama T'ai / Paz, da primeira parte do livro I Ching, o Livro das Mutações.

Caso tenha interesse, pode adquirir o livro clicando na imagem a seguir:



Para consultar o índice dos hexagramas, clique:


Próximo hexagrama:
  • 12. Pi / Estagnação

Hexagrama anterior:


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Créditos e referências

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Xamãs, xamanismo e os ossos oraculares da China antiga

Xamã mongol paramentada com uma roupa azul e adereços de penas e outras coisas na cabeça.

Você que me acompanha há mais tempo talvez saiba que a razão de ser deste blog é um livro que estou escrevendo, inspirado em Sun Tzu e seu famoso A Arte da Guerra. E devo dizer que, entre idas e vindas, despacito, ele está caminhando.

Aliás, este é um dos motivos pelos quais tive que diminuir a quantidade de textos novos aqui. Comecei a fazer pesquisas mais focadas em alguns temas que pretendo trabalhar na obra, e o texto que você está lendo agora já é resultado de uma dessas pesquisas.

E por que o xamanismo na China antiga?

Bem, em primeiro lugar, tive algumas ideias que podem ser interessantes para a história e que, obviamente, envolvem o tema. Em segundo lugar, não dá pra falar da China antiga sem falar de algo que era central para o cotidiano de então.

Concorda?

Comecemos, então, pelo começo: uma boa definição do que é xamanismo. E se você pensou que iríamos recorrer ao bom e velho dicionário, veja só o que diz nosso amigo Priberam:

Religião com práticas de magia, evocações e culto da natureza, presente em alguns povos da Ásia central e setentrional.



Simples assim - e pode acreditar, uma pesquisa em textos mais acadêmicos, não vai dar um resultado muito diferente disso aí.

Seguindo o jogo, adivinha qual país ocupa uma boa parte da Ásia central e da setentrional? Pois é, as evidências arqueológicas indicam que o xamanismo começou a ser praticado há mais de 4 mil anos na China.

Um exemplo encontra-se na escavação de dois túmulos de indivíduos de alto gabarito do Período Longshan (2.500 a 1.700 AEC - Antes da Era Comum), no cemitério de Taosi, província de Shanxi, que revelaram intactos quatro tambores de cerâmica - equipamento chave dos xamãs.

No entanto, o que de fato apresentou ao mundo os xamãs chineses foram os famosos Ossos Oraculares, sobre os quais iremos discorrer a seguir.

Xamã, os Ossos Oraculares e o caractere Wu


Fragmento de um osso usado como oráculo por xamãs na China antiga

O período da dinastia Shang, que durou de aproximadamente de 1.500 a 1.050 AEC, marcou o auge de uma prática de adivinhação que usava escápulas de bovinos ou (com menos frequência) plastrões de tartarugas. Eles eram aquecidos e o calor provocava rachaduras, posteriormente interpretadas pelo xamã.

Essa prática ficou conhecida como… Adivinha?

Descobertos no ano de 1.895 em Anyang, capital da dinastia Shang, os Ossos Oraculares continham inscrições que formavam a mais antiga escrita chinesa. Entre os caracteres dessa escrita, encontrava-se exatamente aquele que significa xamã: wu.

O caractere de wu (figura abaixo) parece retratar xamãs dançando em torno de um pilar ou as mangas compridas de vestes xamânicas rodopiando enquanto ela dança. Algumas formas arcaicas mostram mãos fazendo uma oferta que é recebida de cima.

Caracteres chineses representando a palavra wu / xamã

Possivelmente, o glifo mais antigo a partir do qual o caractere wu surgiu representa um sifang - ou quadrante das direções, um conceito da China antiga que parece estar alinhado com o das direções geográficas - e também foi influenciado por um símbolo, que significa “dança”, mostrando uma pessoa com os braços estendidos em mangas compridas.

Alguns dos usos mais frequentes de wu nos Ossos Oraculares eram em relação aos sacrifícios espirituais e a ordens do tipo “trazer o wu”. Também havia inscrições nas quais constava, por exemplo, o texto “adivinhação, o wu proclama”.

Uma inscrição menciona um grupo de nove wu que fazia uma dança ritual antes de sacrifícios. Outras referem-se às mulheres xamãs Yang, Fang e Fan (juro que tentei encontrar alguma informação adicional sobre elas, em vão) realizando cerimônias de fazer chover.

E se ainda não deu para perceber, esclareço: o caractere wu parece estar muito associado a pessoas do sexo feminino. Esse artigo, de fato, defende exatamente a ideia de que originalmente xamãs eram apenas mulheres - embora ainda haja alguma controvérsia quanto ao assunto.

O xamã e o mundo sobrenatural



O xamã, muitas vezes recebia seu chamado depois de experimentar o estresse de risco de vida ou doença. A capacidade de superar tais experiências entrando em um estado alterado de consciência marcava o potencial xamã como alguém especial.

Isso era por vezes reforçado por iniciações fisicamente esgotantes. Sobreviver a tais iniciações significava que haviam dominado o controle sobre poderosas forças sobrenaturais.

As tarefas do xamã - que incluíam fazer chover, adivinhação e medicina - envolviam um elemento de performance por meio do uso da música e da dança. Estas performances ajudavam o xamã a contatar forças sobrenaturais relevantes, seja invocando os espíritos para possuí-los, seja por eles mesmos ascenderem ao reino espiritual.

Arqueólogos encontraram em toda a China, associadas a essas atividades, parafernálias xamânicas como ossos, penas, chifres, chocalhos, máscaras e, mais notavelmente, o tambor.

Substâncias psicotrópicas, que permitiam ao xamã entrar em contato com os espíritos, também desempenhavam seu papel. A dinastia Shang favorecia o vinho, a julgar pela quantidade de vasos de bebida encontrados em túmulos Shang e pelas freqüentes referências ao vinho nas inscrições dos Ossos Oraculares.

O xamã oferecia vinho aos antepassados e usava a bebida para viabilizar o estado mental necessário para a comunicação com os antepassados e os espíritos.

Os grandes vasos de bronze dos Shang são frequentemente decorados com representações de pássaros e animais, de animais compostos e dos seres transformando-se de um tipo em outro. Tais transformações são elementos-chave do xamanismo.

A propósito, a julgar por essa descoberta, eles usavam também uma certa erva mundialmente conhecida.

O papel e a ascensão dos xamãs


Outro xamã mongol, vestido dos pés à cabeça e portando um tambor



Dada sua suposta capacidade de interagir com as forças sobrenaturais e mesmo de controlar essas forças, os xamãs eram figuras tanto poderosas quanto perigosas. Não é de estranhar que eles tenham sido fundamentais para o sucesso de suas comunidades, uma vez que acreditava-se em suas supostas habilidades sobrenaturais.

E à medida em que a civilização chinesa se desenvolveu, tornou-se cada vez mais claro que a manipulação de rituais e estruturas religiosas eram métodos muito eficazes para o controle das massas.

Nesse contexto, a adivinhação foi provavelmente o aspecto mais abertamente político de práticas xamânicas. Se o conhecimento era poder, poderia haver algum mais poderoso que o conhecimento do futuro?

(Ok, talvez o do Flash, com sua capacidade de detonar as linhas temporais...)

Performances ritualísticas eram também um meio para reforçar a autoridade real. O sacrifício desempenhou um papel particularmente importante, que iria perdurar por boa parte da história chinesa.

Aliás, os muitos rituais exigidos do imperador, ou mesmo dos senhores feudais, confirmavam seu status e poder. Esse texto do site Daily Kos nos fornece uma boa visão de como eram os rituais da época:

Durante a dinastia Shang, o rei apresentaria perguntas aos antepassados em nome das pessoas. A cerimônia de adivinhação geralmente acontecia no palácio. Durante a cerimônia, os músicos reais tocavam. O especialista em adivinhação (ou xamã) trazia um osso - geralmente a escápula de bois ou ovelhas - ou um plastrão de tartaruga. O rei fazia a pergunta e o xamã a escrevia no osso. O xamã, ou às vezes o próprio rei, levava um pedaço de metal que tinha sido aquecido até que estivesse vermelho e tocava o osso. O osso rachava com o calor e as rachaduras corriam por ele e pelos caracteres da pergunta. Essas rachaduras podiam então ser interpretadas pelo rei e/ou pelo xamã. A interpretação seria escrita no osso, que era levado aos arquivos do palácio.

Todos esses aspectos permitiam que o grupo dominante ganhasse mais poder e sua autoridade religiosa, por sua vez, legitimava esse poder. É uma tática que, obviamente, continua a funcionar - e não apenas na China, como você bem sabe.

Tais desenvolvimentos acompanharam a mudança de status dos wu. As elites e pelo menos alguns dos xamãs fundiram-se, um fenômeno refletido em fontes literárias posteriores, como o Shiji de Sima Qian, do século II AEC.

Na obra são retratados (entre outras personas que incluem nosso Sun Tzu) os Três Soberanos, ou “Augustos”, e os Cinco Imperadores Lendários - aos quais são atribuídas atividades e habilidades xamânicas.

Os Três Soberanos e os Cinco Imperadores



Esses caras foram reis-sábios, em tese moralmente perfeitos, que teriam usado seus poderes mágicos para proteger seu povo e criar condições de convivência pacífica e harmoniosa.

De acordo com as tradições, a sabedoria, compaixão e poder esclarecido desses seres estavam além da compreensão mortal - e os benefícios que eles concediam àqueles que governavam eram imensuráveis.

Entre os exemplos de iluminação, encontra-se o do Soberano Celestial, Fuxi, a respeito de quem se disse ter descoberto os oito trigramas - o bagua, que é a base do I Ching, sobre o qual nós já escrevemos aqui.

Ao Soberano Humano, Shennong, é creditada a invenção da agricultura e a introdução de ervas para fins medicinais. Por falar nisso, o Imperador Amarelo, Huangdi, é conhecido como ninguem menos que o pai da Medicina Chinesa.

Outro exemplo interessante é o do lendário Yu, o Grande. Sob o reinado do Imperador Shun, ele teria sido desafiado a subjugar a enchente do Rio Amarelo, uma tarefa que - por meio de uma combinação de talento mágico e tecnológico - teria realizado com grande sucesso.

E não foi só isso: em seguida, ele teria projetado um sistema de diques e canais que provou ser de grande e duradouro benefício para seu povo. O “Ritmo de Yu” - os passos de dança que o transportavam misticamente para as estrelas, onde recebia orientação dos deuses - é praticado ainda hoje em certas tradições taoístas.

A derrocada dos xamãs


Dançarina representa xamã em espetáculo na Coreia do Sul, vizinha à China

Após atingir seu ápice no período da dinastia Shang, o xamanismo na antiga China evoluiu para um mero ofício burocrático, especialmente durante o período Zhou Ocidental, 1.050 a 771 AEC, quando o poder do xamã diminuiu.

Houve uma separação cada vez maior entre os assuntos políticos e atividades religiosas. Imperadores já não empregavam xamãs como conselheiros da corte. Em vez disso, eles se tornaram profissionais de um status inferior, contratados pela necessidade de apenas lidar com questões mundanas como secas e doenças - um bom exemplo pode ser visto nesse post aqui.

Este “rebaixamento” do xamanismo, no entanto, não foi o caso em todos os lugares da China na era Zhou.

As conhecidas Canções do Sul (ou de Chu, em chinês Chu Ci), por exemplo, são uma antologia de poemas repletos de imagens xamânicas que tem origem no Reino de Chu - um estado famoso por suas crenças e rituais xamânicos (além de ser o grande inimigo do Reino de Wu, que deu fama a Sun Tzu).

Ban Gu, um historiador do primeiro século AEC, descreveu Chu como um lugar onde as pessoas

acreditam no poder de xamãs e espíritos e são muito viciadas em lascivos rituais religiosos.
A sobrevivência dos rituais e crenças xamânicos em Chu é um contraponto às mudanças de status dos xamãs em outros lugares na China. Mesmo assim, não impediu que ao longo do tempo os poderes espirituais do xamã fossem cooptados para a busca do poder político.

Questões em aberto


Bastão xamânico em forma de um animal fantástico (semelhante a um dragão)

Como tudo na China, os xamãs e o xamanismo são assuntos que dão pano pra muita manga. Aqui, a gente tratou apenas de algumas questões básicas, com foco especial na China do período em que Sun Tzu teria vivido e de períodos anteriores.

Um aspecto sobre o qual não consegui encontrar conteúdo, e que muito me interessa, diz respeito a predestinação. Haveria pessoas que já nasciam com o caminho traçado para se tornar um xamã? De que classe? Homens ou mulheres? Não encontrei respostas.

Sobre outras questões, como a ligação da cultura xamânica com as mulheres, não me aprofundei de propósito. Mas pode ser que num futuro não muito distante apareçam textos específicos por aqui.

Aguarde e confie!

Enquanto isso, espero seus comentários a respeito do texto. E se acha que pode ser útil para mais alguém, não tenha medo de compartilhar.

A torcida do Brasiliense agradece!

Zài jiàn!


Livros

Aqui temos links para alguns livros que encontrei na Amazon sobre o tema e que talvez possam interessar:






Links

Seguem links com muita informação sobre o assunto, todos em inglês (é difícil encontrar material bom na internet em português):


Créditos e referências

Ilustrações e fotos creditadas na ordem em que aparecem no post.


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I Ching, o Livro das Mutações - Livro Primeiro, Hexagrama 10: Lu / A Conduta (Trilhar)

Imagem de Lu / A Conduta (Trilhar), primeiro dos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações

Esse texto faz parte da série a respeito do I Ching, o Livro das Mutações, que estamos publicando no blog semanalmente. A proposta é apresentar os textos sobre os 64 hexagramas publicados nos livros Primeiro e Terceiro do livro de Richard Wilhelm.

Para entender melhor o que é o I Ching, sugerimos dar uma olhada no post:


Para consultar o índice dos 64 hexagramas, basta acessar:


Conforme aprendemos no post do primeiro link acima, cada hexagrama inclui:

  • nome do hexagrama (卦名 guàmíng), que por si só já é repleto de simbolismos;
  • texto, também chamado julgamento ou oráculo, que revela em linguagem simbólica o significado do hexagrama e possui poucas frases, tendo a ele sido adicionados comentários e interpretações ao longo dos séculos, a fim de para ajudar o leitor a traduzir o ensinamento ancestral;
  • imagem ou símbolo, que apresenta uma mensagem adicional, com um modelo de conduta ou um conselho estratégico para lidar com a situação indicada pelo hexagrama; e
  • Os textos das linhas, em número de seis, indicam alternativas ou transformações possíveis das condições retratadas no hexagrama.

Além disso, antes de entrar nos detalhes acima, há uma espécie de introdução que está identificada como "nota do autor".

E isso é basicamente tudo que você precisa saber para continuar. E boa leitura!

Livro Primeiro (o Texto), Hexagrama 10: Lu / A Conduta (Trilhar)



Nota do autor

A conduta significa, inicialmente, a maneira correta de se comportar. Acima está o céu, o pai; abaixo, o lago, a filha mais moça. Isso mostra a distinção entre alto e baixo; nela se fundamenta a tranqüilidade e a conduta correta na sociedade.

Por outro lado, no sentido de trilhar, Lu significa literalmente "pisar sobre algo". O pequeno e alegre Tui pisa sobre o grande e forte Ch'ien. O movimento dos dois trigramas básicos é ascendente.

O fato de que o forte pise no fraco é pressuposto no Livro das Mutações, não sendo por isso mencionado. O trilhar do fraco sobre o forte não é perigoso aqui, pois isso se dá em meio a uma alegria livre de arrogância, que faz com que o forte não se irrite, tudo aceitando de bom grado.

Julgamento


A conduta.
Trilhando sobre a cauda do tigre.
Ele não morde o homem.
Sucesso.

A situação é realmente difícil.

O mais forte e o mais fraco encontram-se muito próximos um do outro. O fraco segue a trilha do forte e o provoca. Mas o forte o aceita e não lhe causa nenhum mal, pois o contato dá-se de forma alegre e inofensiva.

Em termos de assuntos humanos, isso significa que se está lidando com pessoas selvagens e intratáveis. Neste caso o objetivo será alcançado se a conduta mantiver o decoro.

Atitudes gentis conseguem sucesso mesmo com pessoas irritáveis.



Imagem


Acima, o céu, abaixo, o lago:
a imagem da conduta.
Assim o homem superior discrimina entre o alto e o baixo e fortalece desse modo a mente do povo.

O céu e o lago evidenciam uma diferença de altitude inerente à essência dos dois e que, por isso, não desperta inveja. Assim, também entre os homens há, necessariamente, diferenças de nível.

É impossível chegar a uma igualdade universal. Porém, o que importa é que as diferenças de nível na sociedade humana não sejam arbitrárias e injustas, pois nesse caso a inveja e a luta de classes se seguiriam inevitavelmente.

Se, ao contrário, às diferenças de nível externo corresponderem diferenças de capacidade interna, e o valor interno for o critério para a determinação da hierarquia externa, a tranqüilidade reinará entre os homens e a sociedade encontrará ordem.

Textos das linhas


Tigre agachado, ilustra a seção sobre textos das linhas de Lu / A Conduta (Trilhar), um dos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações


Linha móvel na primeira posição


Nove na primeira posição significa:
Conduta simples. Progresso sem culpa.

Alguém está numa situação em que ainda não assumiu compromissos sociais. Se sua conduta for simples, permanecerá livre deles.

Estando satisfeito e evitando fazer exigências aos outros, ele poderá seguir calmamente suas predileções. O significado desse hexagrama não é estancar, porém seguir adiante.

Alguém se encontra, ao início, numa posição insignificante. Mas possui a força interna que possibilita o progresso. Se ele se contenta com a simplicidade, poderá seguir adiante sem culpas.

Quando um homem está insatisfeito com condições modestas, torna-se inquieto e ambicioso, querendo progredir, não para realizar algo de valor, mas apenas para escapar da pobreza e, ao atingir sua meta, torna-se arrogante e apegado ao luxo. Por isso seu progresso é acompanhado de culpa.

O homem capaz, ao contrário, está satisfeito com sua conduta simples. Ele quer avançar de modo a executar alguma coisa. Uma vez alcançado seu objetivo, algo é realizado e tudo fica bem.

Linha móvel na segunda posição


Nove na segunda posição significa:
Trilhando sobre um caminho plano e simples.
A perseverança de um homem obscuro traz boa fortuna.

Aqui é indicada a situação de um sábio solitário.

Ele mantém-se afastado do turbilhão ruidoso do mundo; nada procura, nada pede, nem se deixa ofuscar por objetivos sedutores. Permanece fiel a si mesmo, e assim segue por um caminho plano, sem ser molestado.

Como está satisfeito com o que tem e não desafia o destino, permanece livre de atribulações.


Linha móvel na terceira posição


Seis na terceira posição significa:
Um homem com uma só vista pode enxergar, um aleijado pode pisar.
Ele pisa na cauda do tigre.
O tigre morde o homem. Infortúnio.
Um guerreiro age assim em favor de seu grande príncipe.

Um homem com uma só vista certamente pode ver, mas não o suficiente para uma visão clara. Um aleijado pode certamente pisar, mas não o suficiente para avançar.

Se alguém com esses defeitos considera-se, entretanto, forte e se expõe ao perigo, provoca seu próprio infortúnio, pois tenta realizar algo que está acima de suas forças.

Esse modo temerário de investir, sem levar em conta suas próprias forças, pode no máximo justificar-se num guerreiro que luta pelo seu príncipe.

Linha móvel na quarta posição


Nove na quarta posição significa:
Ele pisa na cauda do tigre.
Cautela e circunspecção conduzem, ao final, à boa fortuna.

Isso se refere a um empreendimento perigoso. Existe a força interior necessária para realizá-lo, porém esse poder interno está aliado a uma cautela hesitante nas atitudes externas.

Essa linha contrasta com a anterior, na qual havia fraqueza interna forçando o avanço externo.

Aqui, o sucesso final está assegurado. Esse consiste em realizar o seu propósito, isto é, ultrapassar o perigo seguindo adiante.


Linha móvel na quinta posição


Nove na quinta posição significa:
Conduta decidida.
Perseverança com consciência do perigo.

Aqui está o dirigente do hexagrama como um todo. Alguém se vê forçado a uma conduta decidida.

Mas ao mesmo tempo é necessário permanecer consciente do perigo inerente a tal atitude, em especial quando ela deve ser prolongada. Só a consciência do perigo possibilita o sucesso.

Linha móvel na sexta posição


Nove na sexta posição significa:
Contemple sua conduta e examine os sinais favoráveis.
Quando tudo estive completo, virá suprema boa fortuna.

O trabalho terminou.

Se o homem quiser saber se a boa fortuna se seguirá, deve então olhar para trás, para sua conduta e para as conseqüências dela advindas. Se os resultados forem bons, a boa fortuna é certa.

Ninguém conhece a si próprio. Só pelas conseqüências de suas ações, pelos frutos de seu trabalho, poderá o homem avaliar o que o espera.

Depois de tudo

E aqui alcançamos o final do texto sobre o hexagrama Lu / A Conduta (Trilhar), da primeira parte do livro I Ching, o Livro das Mutações.

Caso tenha interesse, pode adquirir o livro clicando na imagem a seguir:



Para consultar o índice dos hexagramas, clique:


Próximo hexagrama:
  • 11. T'ai / Paz

Hexagrama anterior:


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Créditos e referências

Ilustrações e fotos creditadas na ordem em que aparecem no post.


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I Ching, o Livro das Mutações - Livro Primeiro, Hexagrama 9: Hsiao Ch'u / O Poder de Domar do Pequeno

Imagem de Hsiao Ch'u / O Poder de Domar do Pequeno, primeiro dos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações

Esse texto faz parte da série a respeito do I Ching, o Livro das Mutações, que estamos publicando no blog semanalmente. A proposta é apresentar os textos sobre os 64 hexagramas publicados nos livros Primeiro e Terceiro do livro de Richard Wilhelm.

Para entender melhor o que é o I Ching, sugerimos dar uma olhada no post:


Para consultar o índice dos 64 hexagramas, basta acessar:


Conforme aprendemos no post do primeiro link acima, cada hexagrama inclui:

  • nome do hexagrama (卦名 guàmíng), que por si só já é repleto de simbolismos;
  • texto, também chamado julgamento ou oráculo, que revela em linguagem simbólica o significado do hexagrama e possui poucas frases, tendo a ele sido adicionados comentários e interpretações ao longo dos séculos, a fim de para ajudar o leitor a traduzir o ensinamento ancestral;
  • imagem ou símbolo, que apresenta uma mensagem adicional, com um modelo de conduta ou um conselho estratégico para lidar com a situação indicada pelo hexagrama; e
  • Os textos das linhas, em número de seis, indicam alternativas ou transformações possíveis das condições retratadas no hexagrama.

Além disso, antes de entrar nos detalhes acima, há uma espécie de introdução que está identificada como "nota do autor".

E isso é basicamente tudo que você precisa saber para continuar. E boa leitura!

Livro Primeiro (o Texto), Hexagrama 9: Hsiao Ch'u / O Poder de Domar do Pequeno



Nota do autor

O hexagrama significa o poder do pequeno, do sombrio, que retém, amansa, freia. Na quarta posição, o lugar do ministro, há uma linha fraca que limita todas as demais linhas fortes.

Sua imagem é a do vento soprando nas alturas do céu. Ele retém as nuvens, o sopro ascendente do Criativo, para que se condensem. Mas ainda não é suficientemente forte para transformá-las em chuva.

O hexagrama apresenta uma configuração de circunstâncias na qual o forte é temporariamente contido pelo fraco. Uma tal situação só pode ter êxito através da suavidade.

Julgamento


O poder de domar do pequeno tem sucesso.
Nuvens densas, nenhuma chuva vinda de nossa região oeste.

Esse simbolismo se refere às condições vigentes na China na época do Rei Wen. Oriundo do oeste, ele encontrava-se então no leste, na corte do poderoso tirano Chou Hsin.

Ainda não era o momento para atuar em grande escala. Ele podia apenas conter o tirano, até certo ponto, através de uma persuasão amável. Por isso, a imagem de numerosas nuvens que prometem à terra umidade e bênçãos, sem que, por hora, chegue a haver chuva.

A situação não é desfavorável. Há perspectivas de um sucesso final. Mas existem ainda obstáculos no caminho. Só se podem tomar medidas preparatórias. Pode-se exercer influência apenas através dos limitados recursos de persuasão amável.

Ainda não é o momento para uma ação enérgica e em grande escala. Porém, dentro de certos limites, pode-se exercer uma influência que contenha e domestique.

Para se realizar o propósito intencionado é necessário uma firme determinação interna e uma suave adaptabilidade externa.



Imagem


O vento percorre os céus: a imagem do poder de domar do pequeno.
Assim o homem superior aperfeiçoa a forma externa de sua natureza.

O vento pode reunir as nuvens no céu, mas sendo apenas ar, sem corpo sólido, não é capaz de produzir efeitos grandiosos ou duradouros.

Assim, em épocas em que não é possível uma grande atuação exterior, resta ao homem a possibilidade de aprimorar as expressões de seu ser mediante pequenas coisas.

Textos das linhas


Lua cheia, ilustra a seção sobre textos das linhas de Hsiao Ch'u / O Poder de Domar do Pequeno, um dos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações


Linha móvel na primeira posição


Nove na primeira posição significa:
Retorno ao caminho. Como poderia haver culpa nisso?
Boa fortuna.

É próprio à natureza do homem forte pressionar para adiante. Com isso, ele encontra obstáculos. Retorna então ao caminho próprio à sua situação no qual é livre para avançar ou recuar.

É sábio e razoável não tentar obter as coisas através da violência e da força. Aplicado à natureza do assunto em pauta, isso trará boa fortuna.

Linha móvel na segunda posição


Nove na segunda posição significa:
Ele deixa-se conduzir ao retorno.
Boa fortuna.

Há um desejo de avançar, mas, antes de prosseguir, um homem vê, através do exemplo de seus semelhantes, que esse caminho está bloqueado.

Num tal caso, quando o impulso para avançar não está de acordo com o tempo, o homem sensato e resoluto não irá se expor a um fracasso pessoal, mas recuará com os companheiros que pensam como ele.

Isso traz boa fortuna, pois assim ele não se expõe inutilmente.


Linha móvel na terceira posição


Nove na terceira posição significa:
Os raios soltam-se da roda da carroça.
O homem e a mulher viram os olhos.

Tenta-se aqui avançar violentamente, conscientes que o poder que bloqueia é fraco. Porém, como em virtude das circunstâncias é de fato o elemento fraco que detém o poder, essa tentativa de um ataque precipitado fracassará.

Circunstâncias externas impedem o progresso, assim como uma carroça não pode avançar quando se soltam os raios de suas rodas. Ainda não se dá importância a essa indicação do destino e por isso surgem controvérsias desagradáveis, como uma discussão conjugal.

Certamente essa não é uma condição propícia, pois, apesar das circunstâncias favorecerem o lado fraco em seus intentos, as dificuldades são numerosas demais para que se possa garantir um resultado feliz. Como consequência, o elemento forte não pode utilizar seu poder para exercer a influência correta sobre os que estão em seu poder.

Ele foi rechaçado lá onde esperava uma vitória fácil e, com isso, de certa forma, comprometeu-se.

Linha móvel na quarta posição


Seis na quarta posição significa:
Se você é sincero, o sangue desaparece e o medo afasta-se.
Nenhuma culpa.

Se alguém se encontra numa situação difícil e de grande responsabilidade como conselheiro de um homem poderoso, deve refreá-lo, para que prevaleça o que é correto.

Nisso jaz um perigo tão grande que se pode temer até um derramamento de sangue. Mas o poder da verdade desinteressada é maior que todos esses obstáculos.

Tamanho é seu impacto que o objetivo é atingido, desaparecendo o temor, assim como todo o perigo de derramamento de sangue.


Linha móvel na quinta posição


Nove na quinta posição significa:
Se você é sincero e leal em sua aliança, será rico em seu semelhante.

A lealdade conduz a uma aliança firme, pois se fundamenta numa complementação entre as pessoas. No mais fraco, a lealdade consiste na devoção, e no mais forte, em ser digno de confiança.

Essa complementação mútua conduz a uma verdadeira riqueza, que se manifesta plenamente quando o homem não a retém para si, mas procura compartilhá-la com o seu próximo. Alegria compartilhada, alegria redobrada.

Linha móvel na sexta posição


Nove na sexta posição significa:
A chuva vem, o repouso chega.
Isso se deve ao efeito duradouro do caráter.
A mulher cai em perigo devido à perseverança.
A lua está quase cheia.
Se o homem superior persistir, o infortúnio virá.

O sucesso foi atingido. O vento juntou as nuvens, causando a chuva. Uma posição firme foi alcançada.

Isso foi conseguido graças à acumulação progressiva de pequenos efeitos, resultantes da reverência a um caráter superior. Mas um tal sucesso, obtido pouco a pouco, exige muita cautela. Seria uma perigosa ilusão julgar que se pode fazer alarde de uma tal vitória.

O princípio feminino, o elemento fraco que alcançou a vitória, não deve jamais se vangloriar de tal conquista, pois isso levaria ao perigo. O poder sombrio da lua é maior quando a lua está quase cheia. É no plenilúnio, quando a lua está em direta oposição ao sol, que se inicia, inexorável, o minguante.

Em tais circunstâncias o homem deve se contentar com o que foi alcançado. Avançar mais ainda antes do momento apropriado levaria ao infortúnio.

Depois de tudo

E aqui alcançamos o final do texto sobre o hexagrama Hsiao Ch'u / O Poder de Domar do Pequeno, da primeira parte do livro I Ching, o Livro das Mutações.

Caso tenha interesse, pode adquirir o livro clicando na imagem a seguir:



Para consultar o índice dos hexagramas, clique:


Próximo hexagrama:

Hexagrama anterior:


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Créditos e referências

Ilustrações e fotos creditadas na ordem em que aparecem no post.


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I Ching, o Livro das Mutações - Livro Primeiro, Hexagrama 8: Pi / Manter-se Unido (Solidariedade)

Imagem de Pi, Manter-se Unido (Solidariedade), oitavo dos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações

Esse texto faz parte da série a respeito do I Ching, o Livro das Mutações, que estamos publicando no blog semanalmente. A proposta é apresentar os textos sobre os 64 hexagramas publicados nos livros Primeiro e Terceiro do livro de Richard Wilhelm.

Para entender melhor o que é o I Ching, sugerimos dar uma olhada no post:


Para consultar o índice dos 64 hexagramas, basta acessar:


Conforme aprendemos no post do primeiro link acima, cada hexagrama inclui:

  • nome do hexagrama (卦名 guàmíng), que por si só já é repleto de simbolismos;
  • texto, também chamado julgamento ou oráculo, que revela em linguagem simbólica o significado do hexagrama e possui poucas frases, tendo a ele sido adicionados comentários e interpretações ao longo dos séculos, a fim de para ajudar o leitor a traduzir o ensinamento ancestral;
  • imagem ou símbolo, que apresenta uma mensagem adicional, com um modelo de conduta ou um conselho estratégico para lidar com a situação indicada pelo hexagrama; e
  • Os textos das linhas, em número de seis, indicam alternativas ou transformações possíveis das condições retratadas no hexagrama.

Além disso, antes de entrar nos detalhes acima, há uma espécie de introdução que está identificada como "nota do autor".

E isso é basicamente tudo que você precisa saber para continuar. E boa leitura!

Livro Primeiro (o Texto), Hexagrama 8: Pi / Manter-se Unido (Solidariedade)



Nota do autor


As águas sobre terra fluem convergindo sempre que podem, como por exemplo no mar, onde todos os rios se encontram. Simbolicamente isso representa a união e suas respectivas leis.

A mesma idéia é sugerida pelo fato de todas as linhas do hexagrama serem maleáveis, à exceção da linha na quinta posição, a do dirigente. Ao centro da união, numa posição de liderança, está um homem de vontade firme; sob sua influência unem-se as linhas maleáveis.

Por sua vez, esta personalidade forte e capaz de liderar une-se também aos outros, encontrando neles o complemento de sua própria natureza.

Julgamento


MANTER-SE UNIDO traz boa fortuna.
Indague ao oráculo mais uma vez se você possui elevação, constância e perseverança; então, não há culpa.
Os inseguros gradualmente se aproximam.
Aquele que chega tarde demais encontra o infortúnio.

Aqui o que se requer é a união com os outros de modo a que, graças a um espírito de solidariedade, possa haver uma complementação e ajuda entre todos. Uma tal união requer uma figura central em torno da qual as pessoas se congreguem.

Tornar-se um centro de influência unindo as pessoas é uma tarefa grave e de pesadas responsabilidades. Requer grandeza interior, firmeza e força.

Assim sendo, quem deseja unir os outros em torno de si deve, antes, se perguntar se está à altura de um tal encargo. Aquele que tentasse realizar uma tal tarefa sem possuir uma verdadeira vocação provocaria uma confusão ainda maior do que se não tivesse havido união alguma.

Mas quando existe um ponto de convergência real, aqueles que ao início estavam hesitantes e incertos pouco a pouco aproximam-se espontaneamente. Os retardatários se verão prejudicados, pois é importante que se realize a união no momento oportuno.

Relacionamentos formam-se e se consolidam de acordo com leis internas definidas. Vivências compartilhadas fortalecem esses vínculos.

Aquele que chega tarde demais, deixando, por isso, de participar dessas experiências básicas, terá de sofrer as conseqüências de seu atraso, encontrando a porta fechada. Se um homem reconhece a necessidade da união mas não encontra em si mesmo a força suficiente para ser o centro, é então seu dever tornar-se membro de alguma outra comunidade.

Imagem


Sobre a terra há água:
a imagem do MANTER-SE UNIDO.
Assim os reis da antigüidade concediam direitos feudais sobre os diferentes estados e mantinham relações amistosas com os senhores feudais.

A água preenche os espaços vazios que encontra na terra e se mantém firmemente aderida a ela. A organização social da China antiga baseava-se nesse princípio de preservar a união entre os vassalos e os governantes.

As águas fluem unindo seus cursos porque estão todas sujeitas às mesmas leis. Assim também a sociedade humana deve igualmente manter-se unida através de uma comunidade de interesses que possibilite a cada um sentir-se parte do todo.

O poder central de um organismo social deve procurar fazer com que cada membro encontre um verdadeiro interesse em manter-se unido, como era o caso na relação paternal existente entre o rei e os vassalos na antiga China.

Textos das linhas


Jarro de barro preso a um poste por um fio, ilustra a seção sobre textos das linhas de Pi / Manter-se Unido (Solidariedade) - oitavo dos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações

Linha móvel na primeira posição


Seis na primeira posição significa:
Mantenha-se solidário a ele com sinceridade e lealdade.
Não há culpa nisso.
A verdade é como um cântaro de barro cheio.
Assim, ao final, a boa fortuna vem de fora.

Para se formar relacionamentos a única base acertada é a completa sinceridade.

Essa atitude representada pela imagem de um cântaro de barro cheio, no qual o conteúdo é tudo e a forma vazia nada, se expressa não em palavras inteligentes, mas através da força interior. E essa força é tão poderosa que é capaz de atrair para si a boa fortuna do exterior.

Linha móvel na segunda posição


Seis na segunda posição significa:
Mantenha-se unido a ele interiormente.
A perseverança traz boa fortuna.

O homem que atende de forma correta e perseverante aos apelos que vêm do alto e que o exortam à ação, torna seus relacionamentos interiorizados e não se perde.

Porém, quando o homem liga-se aos outros com a atitude servil de quem ambiciona ascender, perde a si mesmo e não segue o caminho do homem superior, que jamais abandona sua dignidade.


Linha móvel na terceira posição


Seis na terceira posição significa:
Você une-se às pessoas erradas.

Freqüentemente o homem se encontra entre pessoas com as quais não possui afinidade. Ele não deve se deixar levar, pela força do hábito, a uma falsa intimidade.

Talvez seja desnecessário acrescentar que isso seria nefasto.

A única atitude acertada diante de tais pessoas é manter uma sociabilidade sem intimidade. Só assim nos manteremos livres para um relacionamento futuro com aqueles que nos são semelhantes.

Linha móvel na quarta posição


Seis na quarta posição significa:
Mantenha-se unido a ele também exteriormente.
A perseverança traz boa fortuna.

Aqui as relações com um homem que é o centro da união estão firmemente estabelecidas.

Assim se pode e se deve mostrar adesão abertamente. Mas deve-se permanecer firme sem se deixar desviar por nada.


Linha móvel na quinta posição


Nove na quinta posição significa:
Manifestação de solidariedade.
Durante a caçada o rei usa batedores somente em três lados e renuncia à caça que foge pela frente.
Os cidadãos não precisam ser advertidos.
Boa fortuna.

Nas caçadas reais da China antiga era costume que os animais fosse cercados pelos batedores por apenas três lados. O animal cercado tinha então uma chance de escapar pelo quarto lado.

Caso não fugisse por esse rumo mantido livre, teria de passar por uma porta atrás da qual encontrava-se o rei, pronto para atirar. Só eram alvejados os animais que passavam por ali.

Deixava-se escapar os animais que fugiam pela frente. Este costume correspondia à atitude própria a um rei de não converter a caçada numa carnificina, porém só abater os animais que, por assim dizer, se expunham livremente.

Aqui se indica um governante ou um homem influente que atrai as pessoas. Aqueles que vêm a ele são aceitos; os que não vêm, ele deixa que sigam seus rumos. Não convida nem adula ninguém; todos vêm por iniciativa própria.

Desta maneira forma-se uma dependência voluntária por parte dos que a ele se unem. As pessoas não precisam reprimir-se, mas podem expressar suas opiniões abertamente.

Medidas policiais são desnecessárias; todos, por livre iniciativa, mostram-se devotados para com o governante.

Esse princípio de liberdade é válido para a vida em geral. Não se deve implorar o favor das pessoas. Se alguém desenvolve em si mesmo a pureza e a força necessárias para ser um centro de união, os homens que lhe são destinados aproximam-se por si mesmos.

Linha móvel na sexta posição


Seis na sexta posição significa:
Ele não encontra uma cabeça para manter-se unido.
Infortúnio.

A cabeça é o princípio. Sem um começo acertado, não pode haver um final correto.

Se uma pessoa perde o momento próprio à união e, amedrontada, hesita em aderir plena e verdadeiramente, lamentará seu erro quando for tarde demais.

Depois de tudo

E aqui alcançamos o final do texto sobre o hexagrama Pi / Manter-se Unido (Solidariedade), da primeira parte do livro I Ching, o Livro das Mutações.

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Créditos e referências

Ilustrações e fotos creditadas na ordem em que aparecem no post.


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