I Ching, o Livro das Mutações - Livro Primeiro, Hexagrama 4: Meng / A Insensatez Juvenil

Imagem de Meng, Insensatez Juvenil, quarto dos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações

Esse texto faz parte da série a respeito do I Ching, o Livro das Mutações, que estamos publicando no blog semanalmente. A proposta é apresentar os textos sobre os 64 hexagramas publicados nos livros Primeiro e Terceiro do livro de Richard Wilhelm.

Para entender melhor o que é o I Ching, sugerimos dar uma olhada no post:


Para consultar o índice dos 64 hexagramas, basta acessar:


Conforme aprendemos no post do primeiro link acima, cada hexagrama inclui:

  • nome do hexagrama (卦名 guàmíng), que por si só já é repleto de simbolismos;
  • texto, também chamado julgamento ou oráculo, que revela em linguagem simbólica o significado do hexagrama e possui poucas frases, tendo a ele sido adicionados comentários e interpretações ao longo dos séculos, a fim de para ajudar o leitor a traduzir o ensinamento ancestral;
  • imagem ou símbolo, que apresenta uma mensagem adicional, com um modelo de conduta ou um conselho estratégico para lidar com a situação indicada pelo hexagrama; e
  • Os textos das linhas, em número de seis, indicam alternativas ou transformações possíveis das condições retratadas no hexagrama.

Além disso, antes de entrar nos detalhes acima, há uma espécie de introdução que está identificada como "nota do autor".

E isso é basicamente tudo que você precisa saber para continuar. E boa leitura!

Livro Primeiro (o Texto), Hexagrama 4: Meng / A Insensatez Juvenil



Nota do autor


Este hexagrama nos apresenta a juventude e a insensatez de duas maneiras. O trigrama superior, Kên, tem como imagem a montanha e o inferior, K'an, tem como imagem a água.

A fonte que brota no sopé da montanha é a imagem da juventude inexperiente.

O atributo do trigrama superior é a Quietude, o atributo do inferior é o Abismal, perigo. Manter-se imóvel e perplexo diante de um perigoso abismo é também um símbolo de Insensatez Juvenil.

Mas os dois trigramas indicam ainda o caminho através do qual a Insensatez Juvenil pode ser superada.

A água tende necessariamente a seguir fluindo. Quando a fonte brota, não sabe, a princípio, para onde se dirigirá.

Entretanto, através de seu constante fluir preenche as depressões que impedem seu progresso e assim atinge o sucesso.

Julgamento


A INSENSATEZ JUVENIL tem sucesso.
Não sou eu quem procura o jovem insensato, é o jovem insensato quem me procura.
À primeira consulta eu respondo.
Se ele pergunta duas ou três vezes, torna-se importuno.
Ao que se torna importuno não dou nenhuma informação.
A perseverança é favorável.

Na juventude a insensatez não chega a ser um mal. Apesar dela, podemos chegar ao sucesso.

Para isso é necessário encontrar um instrutor experiente e ter a atitude correta em relação a ele. O jovem deve em primeiro lugar reconhecer sua inexperiência e procurar o instrutor.

Somente tal modéstia e interesse podem assegurar-lhe encontrar a necessária receptividade expressa na respeitosa aquiescência por parte do instrutor. Este deve esperar tranquilamente até ser procurado.

Não deve oferecer-se espontaneamente.


Só assim poderá a instrução se realizar no tempo certo e do modo adequado.

A resposta de um instrutor à pergunta do aprendiz deve ser clara e precisa como a que deseja obter aquele que consulta o oráculo. Ela deve então ser aceita como chave para solução de dúvidas e como base para decisão.

A insistência em perguntas tolas e desconfiadas serve apenas para incomodar o instrutor que deve ignorá-las em silêncio, assim como o oráculo que responde apenas uma vez, recusando as questões movidas pela dúvida.

Finalmente, valendo-se ainda da perseverança que não enfraquece até dominar, ponto por ponto, a aprendizagem, se chegará a um grande sucesso. O hexagrama aconselha, então, tanto ao instrutor quanto ao aprendiz.

Imagem


Uma fonte surge na base da montanha: a imagem da juventude.
Assim o homem superior fortalece seu caráter graças à meticulosidade em tudo que faz.

A fonte consegue fluir e superar a estagnação, preenchendo todas as depressões que encontra em seu caminho. Do mesmo modo, a formação do caráter consiste na meticulosidade que nada omite, porém, como a água, contínua e gradualmente preenche todos os espaços vazios e assim segue adiante.

Textos das linhas


Baixo relevo de um homem atrás de grades, ilustra a seção sobre textos das linhas de Meng / A Insensatez Juvenil - quarto dos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações

Linha móvel na primeira posição


Seis na primeira posição significa:
Para fazer com que o insensato se desenvolva
é favorável aplicar a disciplina.
Deve-se remover os grilhões.
Continuar assim traz humilhação.

A lei é o começo da educação. A juventude, em sua inexperiência, tende, ao início, a encarar tudo de maneira descuidada, como uma brincadeira.

Deve-se então mostrar-lhe a seriedade da vida.

É benéfico procurar o autodomínio através de uma rigorosa disciplina. Aquele que brinca com a vida nada realizará.

Mas a disciplina não deve degenerar em um treinamento militar, pois com o tempo isso teria um efeito humilhante sobre o educando, bloqueando até mesmo suas forças.

Linha móvel na segunda posição


Nove na segunda posição significa:
Suportar aos insensatos com benevolência traz boa fortuna.
Saber como tratar as mulheres traz boa fortuna.
O filho está apto a administrar a casa.

Essa linha representa um homem privado de poder externo, porém dotado da necessária força espiritual para suportar o peso de suas responsabilidades. Ele possui a superioridade interior e a força que lhe permitem tolerar gentilmente as deficiências decorrentes da insensatez humana.

Frente às mulheres enquanto sexo mais fraco, cabe uma atitude semelhante. Deve-se compreendê-las e mostrar-lhes reconhecimento com um espírito cavalheiresco.

Somente unindo força interna e discrição externa se poderá assumir a responsabilidade do comando de um organismo social de maiores proporções e obter um verdadeiro sucesso.


Linha móvel na terceira posição


Seis na terceira posição significa:
Não tome a uma jovem que,
ao ver um homem de bronze,
perde o domínio de si mesma.
Nada é favorável.

Uma pessoa fraca e inexperiente, lutando para ascender, perde facilmente sua própria individualidade se, diante de uma personalidade forte numa alta posição, passa a imitá-la como um escravo.

Essa atitude assemelha-se à de uma jovem que logo se entrega ao encontrar um homem forte. Não se deve ser complacente para com tal aproximação servil, pois isso seria nocivo tanto para o educando quanto para o educador.

A dignidade de uma jovem exige que ela espere até ser cortejada. É, pois, indigno tanto oferecer quanto aceitar tal oferecimento.

Linha móvel na quarta posição


Seis na quarta posição significa:
Insensatez juvenil limitada traz humilhação.

Não há esperanças para a insensatez juvenil quando se deixa enredar em fantasias ocas. Quanto mais teimosamente se aferrar a essas fantasias irreais, mais atrairá humilhações sobre si.

Diante da limitada insensatez, frequentemente o educador não terá outra saída senão abandoná-la a si própria durante algum tempo, sem protegê-la da humilhação decorrente de seu comportamento.

Muitas vezes este é o único caminho para a salvação.


Linha móvel na quinta posição


Seis na quinta posição significa:
Insensatez infantil traz boa fortuna.

Uma pessoa inexperiente que busca instrução com simplicidade, como uma criança, tem tudo a seu favor. Pois aquele que sem arrogância se subordina ao instrutor será certamente auxiliado.

Linha móvel na sexta posição


Nove na sexta posição significa:
Ao castigar a insensatez,
não é favorável cometer abusos.
É favorável apenas coibir abusos.

Às vezes, um insensato incorrigível deve ser punido. Aquele que não dá ouvidos às advertências deve sentir as consequências em sua própria carne.

A punição aqui difere de quando sacudimos alguém pela primeira vez, repreendendo-o por seu erro. Mas a aplicação da punição não deve ser conduzida com raiva, e sim limitar-se a uma defesa objetiva contra abusos injustificados.

O castigo nunca é um fim em si mesmo. Deve servir apenas ao restabelecimento da ordem.

Isso se aplica tanto à educação, quanto às medidas de um governo frente a uma população culpada de abusos. A intervenção do governo deve ser sempre preventiva e ter como único objetivo a segurança e a tranquilidade públicas.

Depois de tudo

E aqui alcançamos o final do texto sobre o hexagrama Meng / A Insensatez Juvenil, da primeira parte do livro I Ching, o Livro das Mutações.

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Próximo hexagrama:
  • 5. Hsu / A Espera (Nutrição)

Hexagrama anterior:


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Créditos e referências

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I Ching, o Livro das Mutações - Livro Primeiro, Hexagrama 3: Chun / Dificuldade Inicial

Imagem de Chun, Dificuldade Inicial, terceiro dos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações

Esse texto faz parte da série a respeito do I Ching, o Livro das Mutações, que estamos publicando no blog semanalmente. A proposta é apresentar os textos sobre os 64 hexagramas publicados nos livros Primeiro e Terceiro do livro de Richard Wilhelm.

Para entender melhor o que é o I Ching, sugerimos dar uma olhada no post:


Para consultar o índice dos 64 hexagramas, basta acessar:


Conforme aprendemos no post do primeiro link acima, cada hexagrama inclui:

  • nome do hexagrama (卦名 guàmíng), que por si só já é repleto de simbolismos;
  • texto, também chamado julgamento ou oráculo, que revela em linguagem simbólica o significado do hexagrama e possui poucas frases, tendo a ele sido adicionados comentários e interpretações ao longo dos séculos, a fim de para ajudar o leitor a traduzir o ensinamento ancestral;
  • imagem ou símbolo, que apresenta uma mensagem adicional, com um modelo de conduta ou um conselho estratégico para lidar com a situação indicada pelo hexagrama; e
  • Os textos das linhas, em número de seis, indicam alternativas ou transformações possíveis das condições retratadas no hexagrama.

Além disso, antes de entrar nos detalhes acima, há uma espécie de introdução que está identificada como "nota do autor".

E isso é basicamente tudo que você precisa saber para continuar. E boa leitura!

Livro Primeiro (o Texto), Hexagrama 3: Chun / Dificuldade Inicial



Nota do autor


O nome do hexagrama, Chun, representa propriamente um talo de grama que, no seu esforço de crescimento, encontra um obstáculo. Disso resulta o significado de Dificuldade Inicial.

O hexagrama indica a maneira como o céu e a terra dão origem aos seres individuais. Esse primeiro encontro entre o céu e a terra é cercado por dificuldades.

O trigrama inferior Chên é o Incitar, seu movimento tende para o alto, sua imagem é o trovão. O trigrama superior K´an é o Abismal, o perigoso; seu movimento tende para baixo, sua imagem é a chuva.

A situação é, portanto, de um denso caos. A atmosfera está carregada de trovão e chuva. Porém, o caos se dissolve.

Enquanto o Abismal desce, o movimento que tende para o alto ultrapassa o perigo. A tempestade traz alívio de tensão e todos os seres respiram aliviados.

Julgamento


DIFICULDADE INICIAL traz sublime sucesso favorecendo através da perseverança.
Nada deve ser empreendido.
É favorável designar ajudantes.

Tempos de crescimento implicam em dificuldades. Assemelham-se a um primeiro nascimento.

Mas essas dificuldades surgem da profusão de seres que lutam por adquirir forma. Tudo está em movimento; assim, com perseverança, há perspectivas de grande sucesso, apesar do perigo.

Quando tais épocas aparecem no destino do homem, tudo encontra-se ainda informe e obscuro. Portanto, é preciso esperar, pois qualquer movimento prematuro poderia ocasionar infortúnio.

É também de grande importância não permanecer sozinho. Devem-se convocar ajudantes, para com eles superar o caos. Isso não significa que se devam contemplar passivamente os acontecimentos.

É necessário cooperar e participar, encorajando e orientando.

Imagem


Nuvens e trovão:
a imagem da DIFICULDADE INICIAL.
Assim, o homem superior atua desembaraçando e pondo em ordem.

As nuvens e o trovão são representados por linhas ornamentais definidas, isto é, a ordem já está implícita dentro do caos da Dificuldade Inicial.

Assim também o homem superior deve, nesses momentos iniciais, estruturar e ordenar o vasto caos reinante, da mesma forma com que se desembaraçam os fios de seda emaranhados, juntando-os em meadas.

Para que cada um encontre o seu lugar entre a infinidade dos seres é necessário tanto separar quanto unir.

Textos das linhas


Foto de mulheres em uma corrida de obstáculos, ilustra a seção sobre textos das linhas de Chun / Dificuldade Inicial - terceiro dos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações

Linha móvel na primeira posição


Nove na primeira posição significa:
Hesitação e obstáculo
É favorável permanecer perseverante.
É favorável designar ajudantes.

Se alguém encontra obstáculos ao início de um empreendimento, não deve forçar o avanço e sim deter-se para refletir. Entretanto não deve se deixar desviar, mantendo a constância e a perseverança de modo a não perder de vista sua meta.

É importante procurar o auxílio certo. Só o encontrará evitando a arrogância e associando-se a seus semelhantes com espírito de humildade.

Desse modo atrairá aqueles que o ajudarão a enfrentar as dificuldades.

Linha móvel na segunda posição


Seis na segunda posição significa:
As dificuldades se acumulam.
O cavalo e a carroça se separam.
Ele não é um malfeitor.
Deseja cortejar no momento oportuno.
A jovem é casta, não se compromete.
Dez anos e então ela se compromete.

Alguém está diante de dificuldades e obstáculos. Repentinamente há uma mudança, como se alguém chegasse com cavalo e carroça, e os desatrelasse.

Isso ocorre tão inesperadamente que desconfia-se ser o recém-chegado um malfeitor. Pouco a pouco se verifica que ele não tem más intenções, mas procura estabelecer amizade e oferecer ajuda.

Mas o oferecimento não deve ser aceito, pois não procede da fonte certa. Deve-se esperar até que o prazo se cumpra; dez anos formam um ciclo completo de tempo.

As condições normais retornam para si próprias, e então podemos nos unir ao amigo que nos está destinado.

Usando a imagem de uma noiva que permanece fiel a seu amado em meio a graves conflitos, o hexagrama dá um conselho para essa condição excepcional. Quando, em épocas de dificuldades, um obstáculo é encontrado e um alívio inesperado é oferecido por uma fonte estranha, deve-se proceder com cautela, evitando assumir compromissos decorrentes de tal ajuda.

Em caso contrário, a liberdade de decisão seria tolhida. Caso se aguarde o momento adequado, tudo se tranqüilizará e o que se almejava será alcançado.


Linha móvel na terceira posição


Seis na terceira posição significa:
Quem caça o veado sem o guarda-florestal
só poderá se perder na floresta.
O homem superior compreende os sinais do tempo
e prefere desistir.
Continuar traz humilhação.

Se um homem quer caçar sem guia numa floresta desconhecida, se perderá. Não se deve tentar escapar das dificuldades de maneira irrefletida e sem orientação.

O destino não se deixa enganar. Um esforço prematuro, sem a necessária orientação, conduz ao fracasso e ao infortúnio.

Assim, o homem superior, identificando as sementes do que está para acontecer, prefere renunciar a um desejo do que provocar o fracasso e o infortúnio, tentando consegui-lo pela força.

Linha móvel na quarta posição


Seis na quarta posição significa:
O cavalo e a carroça se separam.
Busque união.
Ir adiante traz boa fortuna.
Tudo atua de modo favorável.

Alguém se encontra numa situação na qual o dever impõe agir, mas não dispõe de força suficiente.

Surge uma oportunidade para se fazer contatos. Deve-se aproveitá-la.

Um homem não deve permitir que uma falsa reserva ou um falso orgulho o detenha. É sinal de clareza interior dar o primeiro passo, mesmo quando isso envolve um certo grau de abnegação.

Não é vergonhoso aceitar ajuda numa situação difícil. Caso se encontre o ajudante certo, tudo irá bem.


Linha móvel na quinta posição


Nove na quinta posição significa:
Dificuldades em abençoar.
Uma pequena perseverança traz boa fortuna.
A grande perseverança traz infortúnio.

Alguém se encontra numa situação na qual é impossível exprimir suas boas intenções de modo a que tomem forma, e sejam compreendidas.

Outras pessoas interpõem-se e deformam tudo o que se fez.

É preciso então ser cauteloso e proceder por etapas. Não se deve forçar a realização de algo grandioso, pois o sucesso só é possível quando já se dispõe da confiança geral.

Somente o trabalho realizado em silêncio, com lealdade e consciência, poderá, pouco a pouco, levar a situação a se esclarecer e os obstáculos a desaparecerem.

Linha móvel na sexta posição


Seis na sexta posição significa:
O cavalo e a carroça separam-se.
Derramam-se lágrimas de sangue.

As dificuldades iniciais são pesadas demais para algumas pessoas. Elas ficam presas e já não encontram mais a saída. Cruzam os braços e renunciam à luta.

Uma tal resignação é o que há de mais triste. Por isso Confúcio faz a seguinte observação a respeito dessa linha:

Derramam-se lágrimas de sangue: não se deve persistir numa tal atitude.

Depois de tudo

E aqui alcançamos o final do texto sobre o hexagrama Chun / Dificuldade Inicial, da primeira parte do livro I Ching, o Livro das Mutações.

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I Ching, o Livro das Mutações - Livro Primeiro, Hexagrama 2: K'un / O Receptivo

Imagem de K'un, o Receptivo, segundo dos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações

Esse texto faz parte da série a respeito do I Ching, o Livro das Mutações, que estamos publicando no blog semanalmente. A proposta é apresentar os textos sobre os 64 hexagramas publicados nos livros Primeiro e Terceiro do livro de Richard Wilhelm.

Para entender melhor o que é o I Ching, sugerimos dar uma olhada no post:


Para consultar o índice dos 64 hexagramas, basta acessar:


Conforme aprendemos no post do primeiro link acima, cada hexagrama inclui:

  • nome do hexagrama (卦名 guàmíng), que por si só já é repleto de simbolismos;
  • texto, também chamado julgamento ou oráculo, que revela em linguagem simbólica o significado do hexagrama e possui poucas frases, tendo a ele sido adicionados comentários e interpretações ao longo dos séculos, a fim de para ajudar o leitor a traduzir o ensinamento ancestral;
  • imagem ou símbolo, que apresenta uma mensagem adicional, com um modelo de conduta ou um conselho estratégico para lidar com a situação indicada pelo hexagrama; e
  • Os textos das linhas, em número de seis, indicam alternativas ou transformações possíveis das condições retratadas no hexagrama.

Além disso, antes de entrar nos detalhes acima, há uma espécie de introdução que está identificada como "nota do autor".

E isso é basicamente tudo que você precisa saber para continuar. E boa leitura!

Livro Primeiro (o Texto), Hexagrama 2: K'un / O Receptivo



Nota do autor

Este hexagrama se compõe de seis linhas abertas. A linha aberta representa o poder primordial obscuro, maleável e receptivo de Yin. O atributo do hexagrama é a devoção e sua imagem, a terra.

É o perfeito complemento do Criativo, a contraparte, não seu oposto, pois o Receptivo não combate o Criativo, mas o completa. Representa a natureza em contraste com o espírito, a terra em contraste com o céu, o espaço em contraste com o tempo e o feminino-maternal em contraste com o masculino-paternal.

Aplicado ao âmbito humano o princípio dessa relação complementar encontra-se tanto nas relações entre homem e mulher quanto entre príncipe e ministro, e entre pai e filho. Mesmo no interior do indivíduo esta realidade aparece na coexistência do mundo espiritual com o mundo dos sentidos.

Não se deve, entretanto, ver aqui um real dualismo, pois existe entre os dois princípios um relacionamento claramente definido em termos hierárquicos. O Receptivo em si é, evidentemente, tão importante quanto o Criativo, mas o atributo da devoção define a posição desse poder primordial em relação ao Criativo.

O Receptivo deve ser ativado e dirigido pelo Criativo, quando, então, produzirá resultados benéficos. Só quando abandona essa posição e tenta colocar-se ao lado do Criativo como um ser igual torna-se nefasto.

A consequência seria, então, oposição e luta contra o Criativo, trazendo infortúnio para ambos.

Julgamento


O RECEPTIVO traz sublime sucesso, propiciando através da perseverança de uma égua.
Se o homem superior empreender algo e tentar dirigir, ele se desviará; porém se ele seguir, encontrará orientação.
É favorável encontrar amigos a oeste e ao sul, evitar amigos a leste e ao norte.
Uma perseverança tranquila traz boa fortuna.

Os quatro aspectos fundamentais do Criativo - "sublime sucesso, favorecido através da perseverança" - são também atribuídos ao Receptivo. Aqui, porém, a perseverança é definida com maior precisão como sendo a de uma égua.

O Receptivo designa a realidade espacial em contraste com a potencialidade espiritual do Criativo. O potencial torna-se real e o espiritual torna-se espacial através de uma definição especificamente qualificativa que limita e individualiza.

Por isso a qualificação "de uma égua" é adicionada à idéia de "perseverança". O cavalo pertence à terra como o dragão ao céu.

Percorrendo incansavelmente a vastidão das planícies, o cavalo simboliza a imensa extensão da terra. A égua foi escolhida como símbolo porque combina a força e a agilidade do cavalo com a docilidade e a devoção da vaca.

É apenas porque a natureza, em suas incontáveis formas, corresponde aos incontáveis impulsos do Criativo, que ela pode realizá-los. A riqueza da natureza jaz em seu poder de alimentar todos os seres, e sua grandeza em seu poder de lhes conceder beleza e esplendor.


Assim ela faz prosperar tudo que vive.

Enquanto o Criativo gera os seres, estes são partejados pelo Receptivo. Aplicado ao âmbito humano o hexagrama indica que se deve agir em conformidade com a situação.

Trata-se aqui de alguém que não se encontra numa posição independente, e sim atuando como assistente. Isso significa que ele deve realizar algo.

Não é sua tarefa tentar dirigir - isso apenas o desviaria de seu caminho - e sim se deixar conduzir. Se ele souber enfrentar o destino com uma atitude de aceitação, certamente encontrará a orientação correta.

Aqui o homem superior se deixa conduzir. Não avança às cegas, mas aprende a ver nas circunstâncias o que se espera dele, seguindo então esta exigência do destino.

Já que se deve realizar algo, são necessários auxiliares e amigos na hora do trabalho e do esforço, quando as idéias a serem cumpridas estiverem firmemente estabelecidas. O tempo do trabalho e do esforço é indicado pelo oeste e pelo sul, pois o sul e o oeste simbolizam o lugar onde o Receptivo trabalha para o Criativo - como a natureza no verão e no outono.

Se todas as forças não forem reunidas, o trabalho a ser realizado não será efetuado. Por isso encontrar amigos significa, aqui, realizar uma tarefa.

Mas além do trabalho e do esforço há também um tempo de planejar, e para isso se requer solidão. O leste simboliza o lugar em que um homem recebe ordens de seu mestre e o norte, o lugar em que presta contas do que realizou.

Neste momento ele precisa estar só e ser objetivo. Nesta hora sagrada ele deve evitar os companheiros, para que a pureza do momento não seja maculada pelo ódio e pela parcialidade.

Imagem


A condição da terra é a devoção receptiva.
Assim o homem superior com sua grandeza de caráter sustenta o mundo externo.

Assim como só existe um céu, existe apenas uma terra.

No hexagrama do céu a repetição do trigrama significa duração no tempo; no hexagrama da terra essa repetição de seu trigrama significa a extensão no espaço e a firmeza com que a terra sustenta e preserva tudo o que vive e se move sobre ela.

Em sua devoção, a terra sustenta, sem exceção, todas as coisas, boas e más.

Assim, o homem superior torna seu caráter amplo, puro, resistente, de modo a poder dar apoio aos homens e às coisas.

Textos das linhas


Pés de uma estátua cobertos por geada - ilustrando a seção sobre textos das linhas de K'un, o Receptivo - segundo dos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações

Linha móvel na primeira posição


Seis na primeira posição significa:
Quando se caminha pela geada,
o gelo sólido não estará longe.

Assim como o poder luminoso representa a vida, o poder obscuro e sombrio representa a morte. No outono, quando cai a primeira geada, o poder da escuridão e do frio começa a manifestar-se.

Depois dos primeiros indícios, os sinais da morte irão se multiplicando gradualmente, segundo leis imutáveis, até que chegue o rígido inverno com seu gelo.

O mesmo acontece na vida. A decadência surge, ao início sugerida através de sinais apenas perceptíveis, para em seguida se avolumar até a chegada da dissolução final.

Porém, na vida podem-se tomar precauções, se houver atenção aos primeiros sinais de decadência, evitando-a a tempo.

Linha móvel na segunda posição


O Seis na Segunda posição significa:
Reto, quadrado, grande.
Sem propósito, porém, nada permanece desfavorecido.

O símbolo do céu é o círculo; o da terra, o quadrado. Logo, o quadrangular é a qualidade primordial da terra.

Por outro lado, o movimento retilíneo ou de primeira grandeza é também a primeira qualidade do Criativo. Todas as figuras planas têm sua origem na linha reta e formam, por sua vez, as figuras sólidas.

Quando em matemática se estabelecem distinções entre linhas, planos e sólidos, verifica-se que das linhas retas resultam figuras sólidas. O Receptivo orienta-se segundo as propriedades do Criativo e as incorpora.

Assim o quadrado provém da linha reta e o cubo, do quadrado. Isso significa a simples devoção às leis do Criativo, sem nada acrescentar ou retirar.

Por isso o Receptivo não requer nenhum propósito e nenhum esforço especial, e tudo se desenrola da maneira adequada.

A natureza cria os seres sem erros, mostrando-se assim retilínea. Ela é tranquila e silenciosa, essa é a sua condição quadrangular. A todos dá apoio com equanimidade, essa é a sua grandeza.

Por isso ela atinge o que é justo para todos, sem artifícios, sem propósitos particulares. O homem atinge a culminância da sabedoria quando todas as suas ações tornam-se tão auto-evidentes em si mesmas quanto as da natureza.

Linha móvel na terceira posição



Seis na terceira posição significa:
Linhas ocultas. Alguém é capaz de permanecer perseverante.
Se acaso você está a serviço de um rei,
não procure trabalhos, porém leve à conclusão.

Se um homem está livre de vaidade, será capaz de ocultar suas habilidades de modo a não atrair a atenção cedo demais. Assim poderá atingir a maturidade em paz.

Se as circunstâncias o exigirem, ele poderá entrar na vida pública, porém de forma discreta.

O sábio deixa de bom grado a fama a outros. Ele procura liberar forças eficazes, sem se preocupar em ter atribuído a si os méritos do trabalho já realizado, isto é, ele completa suas obras de modo a serem frutíferas para o futuro.

Linha móvel na quarta posição


Seis na quarta posição significa:
Saco amarrado. Nenhuma culpa. Nenhum elogio.

O princípio da escuridão abre-se quando em movimento e fecha-se quando em repouso. A mais rigorosa reserva é aqui indicada.

O momento é perigoso; qualquer sinal de proeminência levará à animosidade por parte de adversários mais fortes caso o homem os desafie, ou a um falso reconhecimento baseado numa incompreensão, caso seja complacente.

Ele deve, portanto, manter a reserva, seja na solidão ou no turbilhão do mundo, pois, também aí, poderá ocultar-se de modo a passar desapercebido.

Linha móvel na quinta posição


Seis na quinta posição significa:
Roupa de baixo amarela traz suprema boa fortuna.

O amarelo é a cor da terra e do centro, o símbolo do que é autêntico e digno de confiança. A roupa de baixo é discretamente adornada, símbolo de aristocrático recato.

Quando alguém é chamado a atuar numa posição de destaque, porém, não independente, o verdadeiro sucesso dependerá de rigorosa discrição.

A autenticidade e o refinamento não devem destacar-se diretamente, porém devem expressar-se apenas de modo indireto como um efeito que surge do interior.


Linha móvel na sexta posição


Seis na sexta posição significa:
Dragões lutando no prado.
Seu sangue é negro e amarelo.

No ponto mais alto, o obscuro deve ceder ao luminoso. Se tentar manter uma posição que não lhe corresponde e, ao invés de servir, pretender dirigir, atrairá sobre si a ira do forte.

O resultado é uma luta na qual o obscuro será derrubado, porém com prejuízos para ambas as partes.

O dragão, símbolo do céu, vem combater o falso dragão que simboliza a atitude pretensiosa do princípio terrestre.

O azul-noite é a cor do céu, o amarelo é a cor da terra. Quando, portanto, o sangue negro e amarelo é derramado, isso indica que nessa luta antinatural os dois poderes primordiais sofrem dano.

Linhas móveis em todas as posições


Quando todas as linhas são seis, isso significa:
A perseverança constante é favorável.

Quando se tem apenas seis, o hexagrama do Receptivo transforma-se no hexagrama do Criativo.

Permanecendo firme no que é correto, conquista-se o poder da perseverança. Não há nenhum progresso, mas também nenhum retrocesso.

Depois de tudo

E aqui alcançamos o final do texto sobre o hexagrama K'un / O Receptivo, da primeira parte do livro I Ching, o Livro das Mutações.

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I Ching, o Livro das Mutações - Livro Primeiro, Hexagrama 1: Ch'ien / O Criativo

Imagem de Ch'ien, o Criativo, primeiro dos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações

Esse texto faz parte da série a respeito do I Ching, o Livro das Mutações, que estamos publicando no blog semanalmente. A proposta é apresentar os textos sobre os 64 hexagramas publicados nos livros Primeiro e Terceiro do livro de Richard Wilhelm.

Para entender melhor o que é o I Ching, sugerimos dar uma olhada no post:


Para consultar o índice dos 64 hexagramas, basta acessar:


Conforme aprendemos no post do primeiro link acima, cada hexagrama inclui:

  • nome do hexagrama (卦名 guàmíng), que por si só já é repleto de simbolismos;
  • texto, também chamado julgamento ou oráculo, que revela em linguagem simbólica o significado do hexagrama e possui poucas frases, tendo a ele sido adicionados comentários e interpretações ao longo dos séculos, a fim de para ajudar o leitor a traduzir o ensinamento ancestral;
  • imagem ou símbolo, que apresenta uma mensagem adicional, com um modelo de conduta ou um conselho estratégico para lidar com a situação indicada pelo hexagrama; e
  • Os textos das linhas, em número de seis, indicam alternativas ou transformações possíveis das condições retratadas no hexagrama.

Além disso, antes de entrar nos detalhes acima, há uma espécie de introdução que está identificada como "nota do autor".

E isso é basicamente tudo que você precisa saber para continuar. E boa leitura!

Livro Primeiro (o Texto), Hexagrama 1: Ch'ien / O Criativo



Nota do autor

O primeiro hexagrama se compõe de seis linhas inteiras. Essas linhas correspondem à energia que, em sua forma primordial, é luminosa, forte, espiritual, ativa.

O hexagrama é integralmente forte em sua natureza e, por estar livre de toda fraqueza, tem como essência a energia. Sua imagem é o céu. Sua força nunca é limitada por condições determinadas no espaço e por isso é concebida como movimento.

O tempo é a base desse movimento. Portanto, o hexagrama inclui também o poder do tempo e o poder de persistir no tempo, ou seja, a duração. O poder representado pelo hexagrama deve ser interpretado em dois sentidos: em termos de uma ação no universo e de sua ação no mundo dos homens.

Em relação ao universo o hexagrama expressa a atividade criativa e poderosa da Divindade.

Aplicado ao mundo dos homens ele representa a ação criativa dos santos e dos sábios, dos que governam e conduzem a humanidade e que, através de sua força, despertam e desenvolvem a natureza mais elevada dos seres humanos.

Julgamento


O CRIATIVO promove sublime sucesso, favorecendo através da perseverança.

De acordo com o sentido original, os atributos (sublime, sucesso, poder de favorecer ou propiciar, perseverança) devem ser considerados em pares. Para aquele que obtém esse oráculo, isso significa que o sucesso lhe chegará das profundezas primordiais do universo e que tudo dependerá dele procurar a sua felicidade e a dos outros através de um único caminho: a perseverança no bem.

Os significados específicos dos quatro atributos, já desde a antiguidade, foram objeto de discussão. A palavra chinesa interpretada como "sublime" significa literalmente "cabeça", "origem", "grande". Por isso, ao explicá-la, diz Confúcio:

Grande em verdade é o poder gerador do Criativo; a ele todos os seres devem seu começo. Esse poder permeia todo o céu.

Portanto, esse primeiro atributo é também inerente aos outros três. O começo de todas as coisas jaz, por assim dizer, no além, na condição de idéias que estão ainda por se realizar. Mas o Criativo tem também o poder de dar forma a esses arquétipos das idéias. Isso é indicado na palavra "sucesso".

Esse processo é representado por uma imagem da natureza: as nuvens passam, a chuva atua, e todos os seres individuais fluem para as suas formas próprias. Aplicados ao plano humano, esses atributos indicam ao homem superior o caminho para o grande êxito.

Por ver com muita clareza as causas e os efeitos, ele completa, no tempo certo, as seis etapas e sobe no momento adequado rumo aos céus, como que conduzido por seis dragões.


As seis etapas são as seis diferentes posições (linhas) existentes no hexagrama, representadas adiante pelo símbolo do dragão. Aqui se indica que o caminho para o sucesso consiste em apreender e realizar o sentido do universo (Tao), o qual, como lei perene, perpassa o início e o fim das existências, originando todos os fenômenos condicionados pelo tempo.

Assim, cada etapa alcançada torna-se preparação para a seguinte. O tempo já não constitui um obstáculo e sim um meio para atualizar o que permanecia potencial. O ato de criação se exprime nos dois atributos


  • "sublime"; e 
  • "sucesso". 


A tarefa da conservação manifesta-se na contínua atualização e diferenciação da forma.

Isso será expresso nos termos "favorecendo" ou "propiciando" (criando o que corresponde à essência de um dado ser) e "perseverança" (literalmente "correto e firme"). O curso do Criativo modifica e modela os seres até que cada um alcance sua verdadeira e específica natureza, e os mantém, então, em concordância com a grande harmonia.

Assim o Criativo se revela como o que favorece ou propicia através da perseverança. Aplicado à esfera humana, isso mostra como o homem superior traz ao mundo paz e segurança em virtude de sua ação ordenadora.

Ele eleva-se acima da multidão de seres e todas as terras se unem em paz.

Outra linha de reflexão prossegue distinguindo as palavras "sublime", "sucesso", "favorecer", "perseverança" e as associa às quatro virtudes cardeais da humanidade:

  • Ao "sublime", que, como princípio fundamental engloba todos os demais atributos, se relaciona o amor. 
  • Ao atributo "sucesso" relacionam-se os costumes, que regulam e organizam as expressões de amor, levando-as ao sucesso. 
  • Ao atributo "favorecer" relaciona-se a justiça, que cria as condições nas quais cada ser obtém aquilo que corresponde à sua natureza, aquilo que lhe é devido e que constitui sua felicidade. 
  • Ao atributo "perseverança" relaciona-se a sabedoria, que discerne as leis imutáveis presentes em todos os acontecimentos e assim estabelece condições duradouras. 

Essas reflexões já sugeridas no comentário intitulado Wen Yen (v. Livro Terceiro) formaram, mais tarde, o elo que uniu a filosofia das cinco etapas (elementos) da mutação proposta no Livro da História (Shu Ching) com a filosofia do Livro das Mutações, que se baseia na polaridade de princípios positivos e negativos.

Com o tempo o relacionamento entre esses dois sistemas de pensamento deu origem a um simbolismo numérico que foi se tornando cada vez mais complexo.

Imagem


O movimento do céu é poderoso.
Assim, o homem superior torna-se forte e incansável.

Como só existe um céu, a repetição do trigrama Ch’ien, que tem o céu como imagem, indica o movimento do céu. Uma rotação completa do céu constitui um dia e a repetição do trigrama significa que os dias se seguem uns aos outros.

Isso gera a ideia de tempo. Já que é o mesmo céu que se move com poder incansável, sugere também a ideia de duração tanto no tempo como além dele, um movimento que jamais se detém ou reduz seu ritmo, assim como os dias seguem-se uns aos outros continuamente.

Essa duração no tempo é a imagem da força inerente ao Criativo. O sábio extrai dessa imagem o modelo segundo o qual ele deverá desenvolver-se de modo a tornar sua influência duradoura.

Ele deve tornar-se integralmente forte, eliminando de maneira consciente tudo que é degradante e inferior. Assim, ele se torna incansável em virtude de uma limitação consciente de seu campo de atividade.

Textos das linhas


Estátua de um dragão chinês colorido sobre um telhado, ilustra a seção sobre textos das linhas de Ch'ien, o Criativo - primeiro dos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações


Linha móvel na primeira posição


Nove na primeira posição significa:
Dragão oculto. Não atue.

O dragão tem, na China, uma conotação completamente diferente daquela que tem no Ocidente. Simboliza a força propulsora, eletricamente carregada, dinâmica, que se manifesta nas tempestades.

No inverno essa força recolhe-se de volta à terra; no começo do verão reativa-se, surgindo no céu como relâmpago e trovão. Como conseqüência as forças criativas na terra redespertam-se.

Essa força criadora ainda está oculta na terra e, assim, seus efeitos, por enquanto, não são perceptíveis. Aplicado às circunstâncias humanas, isso significa que um grande homem ainda não é reconhecido como tal.

Entretanto, ele permanece fiel a si mesmo. Não permite que êxitos e fracassos exteriores o influenciem, mas, confiante em sua força, espera no momento propício.

Portanto, aquele que, consultando o oráculo, obtém essa linha deve aguardar com tranqüilidade e paciência. O momento oportuno virá. Não há necessidade de temer que uma poderosa vontade não prevaleça.

Mas é preciso não desperdiçar prematuramente suas energias tentando obter algo, pela força, antes de seu tempo.

Linha móvel na segunda posição


Nove na segunda posição significa:
Dragão aparecendo no campo.
É favorável procurar o grande homem.

Começam a manifestar-se aqui os efeitos do poder luminoso. Aplicado ao âmbito humano, significa que o grande homem aparece em seu campo de atividade. Não ocupa uma posição de comando, encontra-se ainda entre subalternos.

Porém, o que o distingue dos outros é sua seriedade de propósitos, sua absoluta confiabilidade e a influência que exerce, sem esforço consciente, sobre seu ambiente. Um tal homem está destinado a ter grande influência e a conduzir o mundo à ordem.

Por isso é favorável ir ao seu encontro.


Linha móvel na terceira posição


Nove na terceira posição significa:
O homem superior permanece criativamente ativo o dia todo.
Preocupações ainda o envolvem ao anoitecer.
Perigo. Nenhuma culpa.

Uma esfera de influência se abre para o grande homem. Sua fama começa a difundir-se. Multidões vêm a ele. Sua força interna está à altura do aumento de atividade externa. Há muito que fazer e até mesmo à noite, enquanto outros repousam, planos e preocupações o pressionam.

Mas um perigo ameaça nessa transição do plano inferior para as alturas. Grandes homens arruinaram-se quando foram cercados pela multidão e por ela arrastados a seus próprios rumos.

Nesse caso a ambição teria corrompido a integridade interior. Mas tentações não podem macular a verdadeira grandeza.

Aquele que permanecer em empatia com o tempo que surge e suas exigências, será assim prudente o suficiente para evitar desvios e culpas.

Linha móvel na quarta posição


Nove na quarta posição significa:
Voo hesitante sobre as profundezas.
Nenhuma culpa.

Alcançou-se aqui o ponto de transição, onde a liberdade de escolha pode atuar. Uma dupla possibilidade é apresentada ao grande homem:


  • elevar-se tornando-se influente, ou 
  • recolher-se à solidão e desenvolver-se em silêncio.


Ele pode seguir o caminho do herói ou o do santo sábio que busca reclusão. Não há regra que determine o caminho certo.

Todo aquele que se encontra em tal situação deve decidir livremente, de acordo com os princípios mais profundos de sua natureza interna. Se ele atua com toda veracidade e solidez, encontra o caminho que lhe corresponde e este será para ele o caminho certo e sem culpa.


Linha móvel na quinta posição


O Nove na quinta posição significa:
Dragão voando nos céus.
É favorável ver o grande homem.

O grande homem chegou, aqui, à esfera dos seres celestiais. Sua influência se estende, tornando-se visível em todo o mundo. Todo aquele que o contempla pode considerar-se abençoado.

Confúcio faz o seguinte comentário a respeito desta linha:

As coisas que se harmonizam em tom, vibram em conjunto. As coisas que, entre si, têm afinidade em suas essências mais íntimas atraem-se mutuamente. A água flui para o que é úmido, o fogo volta-se para o que é sexo. As nuvens (o sopro dos céus) seguem o dragão, o vento (o sopro da terra) segue o tigre. Ergue-se assim o sábio, e todos os seres seguem-no com o olhar. O que nasce do céu tende para o que está acima; o que nasce da terra tende para o que está abaixo. Cada um segue o que lhe corresponde.

Linha móvel na sexta posição


Nove na sexta posição significa:
Dragão arrogante terá motivo de arrependimento.

Quando alguém pretende subir tão alto que perde o contato com o resto da humanidade isola-se e isso conduz, necessariamente, ao fracasso. Aqui há uma advertência contra aspirações titânicas que excedem as forças disponíveis.

A conseqüência seria uma queda nas profundezas.

Linhas móveis em todas as posições


Quando todas as linhas são noves, isso significa:
Aparece uma revoada de dragões sem cabeça.
Boa fortuna.

Quando todas as linhas são noves, todo o hexagrama entra em movimento e se transforma no hexagrama Kun, O Receptivo, cuja característica é a devoção. A força do Criativo se une à suavidade do Receptivo.

A força está indicada pela revoada dos dragões, e a suavidade pelo fato de suas cabeças estarem ocultas. Isso significa que a suavidade na ação, unida à força de decisão, traz boa fortuna.

Depois de tudo

E aqui alcançamos o final do texto sobre o hexagrama Ch'ien / O Criativo, da primeira parte do livro I Ching, o Livro das Mutações.

Caso tenha interesse, pode adquirir o livro clicando na imagem a seguir:



Para consultar o índice dos hexagramas, clique:


Próximo hexagrama:

Hexagrama anterior:


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Créditos e referências

Ilustrações e fotos creditadas na ordem em que aparecem no post.


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I Ching, o Livro das Mutações e os segredos do oráculo chinês

3 Hexagramas, com seu nome em inglês, do I Ching, o Livro das Mutações

É praticamente impossível, para alguém que tem o mínimo de interesse pela China, não se deparar em algum momento com um dos mais antigos sistemas oraculares do mundo, o I Ching, o Livro das Mutações.

Mesmo quem não está nem aí para o país asiático, não tem como escapar do assunto - que penso ser mais famoso que o horóscopo chinês, o calendário chinês e o ano novo chinês.

Eu, então, que escrevo sobre as coisas da China especialmente relacionadas a Sun Tzu e A Arte da Guerra há algum tempinho, já estava mais que devendo um texto sobre o famoso oráculo.

Na verdade, sabia que era importante conhecer mais o I Ching, uma vez que desde os primórdios da China ele era parte essencial da cultura, com soberanos e personalidades das mais diversas estirpes, vez ou outra, apelando aos seus préstimos.

Um deles, no entanto, não parece ter sido o Sun Tzu. Aliás, tenho certeza de que você se lembra de sua famosa frase:

Proíbe os augúrios para evitar as dúvidas, e os soldados nunca te abandonarão.

Por outro lado, Confúcio parece não apenas ter recebido influência do I Ching, mas também influenciado seu desenvolvimento.

Mas o que vem a ser mesmo esse negócio?

Aqui, vale uma espiadinha no que o site da Superinteressante publicou a respeito do assunto:

O I Ching é a base da sabedoria chinesa, um conjunto de estudos que analisa o mundo e o homem, passando por astronomia, matemática, fenômenos, etc. O Livro das Mutações é a obra sagrada e milenar sobre esse ensinamento, que tem como um dos objetivos o autoconhecimento. É mais famoso no mundo ocidental por ser um oráculo (ensina dois rituais, um com moedas e outro com varetas para que o leitor o consulte com perguntas), o que de fato é, mas não apenas.

Claro, isso aí é só o começo. Ao longo deste post, vamos passear um pouco pela história do I Ching, na primeira parte, e entender um pouco mais seu conteúdo e sua utilização como oráculo, na segunda parte.

Junto com o texto, como sempre, há muitos links onde poderá obter mais informações complementares sobre o Livro das Mutações e, ao final, dicas de livros para se aprofundar no assunto.

Espero que seja do seu agrado… Vem comigo!

A história do I Ching



O mais antigo dos Cinco Clássicos chineses possui uma história de mais de dois milênios e meio, sendo influente e lido em todo o mundo, fornecendo inspiração para os mundos da religião, psicanálise, negócios, literatura e arte - para dizer o mínimo.

Em sua origem, tratava-se de nada mais que um manual de adivinhação, tendo sido transmutado com o passar do tempo em um texto cosmológico com uma série de comentários filosóficos conhecidos como as Dez Asas - sobre as quais escrevemos um pouco mais adiante.

O núcleo do I Ching é um texto de adivinhação da dinastia Zhou Ocidental chamado Zhou Yi - ou, as Mudanças de Zhou, no bom e velho mandarim -, sendo que um texto muito parecido com a forma atual já existia entre os séculos X e IV AEC.

Tradicionalmente, o Zhou Yi foi atribuído aos heróis culturais Rei Wen de Zhou e Duque de Zhou, mas também foi associado ao lendário Fu Xi, que teria observado os padrões do mundo e criado os oito trigramas (bāguà), segundo o principal textos das Dez Asas,

para se familiarizar completamente com o numinoso e brilhante e para classificar a miríade de coisas.

O Clássico dos Ritos afirma que os hexagramas do Zhou Yi foram derivados de um conjunto inicial de oito trigramas - assim como na lenda de Fu Xi. No entanto, ao longo da dinastia Han houve diversas opiniões sobre a relação histórica entre os trigramas e os hexagramas.

As narrativas dos Anais da Primavera e Outono de Zuo Zhuan e do Guoyu contêm as mais antigas descrições de adivinhação usando o Zhou Yi. Ambos os textos descrevem mais de vinte doutrinas conduzidas por adivinhos profissionais para famílias reais, entre 671 AEC e 487 AEC.

Uma delas, inclusive, está representada no post que publicamos aqui sobre Tian Wan, um provável ancestral de Sun Tzu.

Em relação à autoria, eventualmente um consenso se formou em torno da tese do acadêmico Ma Rong, do século II EC, que atribuiu o Zhou Yi a um trabalho conjunto, mas obviamente não concomitante, de Fu Xi, do Rei Wen de Zhou, do Duque de Zhou e de Confúcio - atribuição que já não é geralmente aceita.

Em 136 AEC - influenciado por um amplo leque de influências culturais que incluíam o confucionismo, o taoísmo, o legalismo, a cosmologia do yin-yang e a teoria física Wu Xing -, o Imperador Wu de Han nomeou o Zhou Yi “o primeiro dentre os clássicos”, dando-lhe o nome de Clássico das Mudanças ou I Ching - que hoje em dia é mais conhecido no Brasil com o nome Livro das Mutações.

A edição oficial do texto foi literalmente canonizada em pedra, como um dos clássicos de pedra Xiping. O I Ching canonizado tornou-se o texto padrão por mais de dois mil anos, até versões alternativas do Zhou Yi e textos relacionados serem descobertos no século 20.

O I Ching e as Dez Asas (ou: voar, voar… subir, subir…)


Painel com os 8 trigramas do I Ching, o Livro das Mutações, ao redor do símbolo de yin-yang
Parte da canonização do Zhou Yi ligou-o a um conjunto de comentários chamados Dez Asas - produzidos muito tempo depois do Zhou Yi, mas que reflete um reconhecimento generalizado na China antiga, encontrado no Zuo Zhuan e em outros textos pré-Han, de que o I Ching era um rico documento moral e simbólico, útil para mais do que mera adivinhação.

Na Minhateca há uma relação sintética delas, que reproduzo a seguir (de forma ainda mais sintética):

  1. T’uan Chuan, Comentários Sobre os Julgamentos, parte I;
  2. T’uan Chuan, parte II;
  3. Hsiang Chuan, Comentários Sobre as Imagens, parte I;
  4. Hsiang Chuan, parte II;
  5. Hsi Tz’u ou Ta Chuan, o Grande Comentário, parte I;
  6. Hsi Tz’u ou Ta Chuan, parte II;
  7. Wên Yen, Comentários Sobre as Palavras do Texto;
  8. Shuo Kua, Discussão dos Trigramas;
  9. Hsu Kua,Sequência ou Ordem dos Hexagramas; e
  10. Tsa Kua, Coletânea de Indicações.

Provavelmente, as mais importantes das Dez Asas são as que formam o chamado Grande Comentário (5 e 6), que data de cerca de 300 AEC. Ele apresenta o I Ching como um microcosmo do universo e uma descrição simbólica dos processos de mudança e explica como os oito trigramas procediam da eterna unidade do universo através de três bifurcações.

Ainda segundo o Grande Comentário, ao participar da experiência espiritual do I Ching o indivíduo pode entender os padrões mais profundos do universo - será que a pessoa meio que se transforma num Dr. Manhattan?

Pense nisso!

As Dez Asas eram tradicionalmente atribuídas a Confúcio, possivelmente devido a uma leitura errada dos Registros do Grande Historiador. Entretanto, em que pese esse pequeno detalhe, a associação de Confúcio com o I Ching deu peso ao texto, especialmente no período das dinastias Han e Tang.

O I Ching na dinastia Han Oriental



Durante a Dinastia Han Oriental, (25 EC a 220 EC) a interpretação do I Ching foi dividida em duas escolas, a partir de uma disputa sobre pequenas diferenças entre as diferentes edições do texto recebido.

A primeira escola, conhecida como Crítica do Novo Texto, era mais igualitária e eclética, e procurou encontrar paralelos simbólicos e numerológicos entre o mundo natural e os hexagramas. Seus comentários serviram de base para a Escola de Imagens e Números.

A outra escola, a Crítica do Velho Texto, era mais acadêmica e hierárquica, e focada no conteúdo moral do texto, servindo de base para a Escola de Significados e Princípios.

Os estudiosos do Novo Texto distribuíram versões alternativas do texto e integraram livremente comentários não-canônicos em seu trabalho, além de propagar sistemas alternativos de adivinhação como o Tai Xuan Jing.

Com a queda dos Han, os estudos de I Ching deixaram de ser organizados em escolas sistemáticas. O escritor mais influente desse período pós-Han foi Wang Bi, que descartou a numerologia dos comentadores Han e integrou a filosofia das Dez Asas diretamente no texto central do I Ching, criando uma narrativa tão persuasiva que os comentaristas Han não eram mais considerados significativos.

Um século depois, Han Kangbo acrescentou comentários sobre as Dez Asas ao livro de Wang Bi, criando um texto chamado Zhouyi Zhu. A principal interpretação rival foi um texto prático sobre adivinhação editado por pelo adivinho Guan Lu.

O I Ching nas Dinastias Tang e Song


Capa do livro Zhou Yi, sobre o I Ching, o Livro das Mutações
No início da Dinastia Tang (618 a 907) o Imperador Taizong ordenou a Kong Yingda a criação de (mais) uma edição canônica do I Ching. Escolhendo o Zhouyi Zhu do século III como comentário oficial, ele acrescentou um comentário adicional, desenhando os níveis mais sutis das explicações de Wang Bi, e criando o Zhouyi Zhengi.

Ainda no período dos Tang, tornou-se amplamente utilizado outro método de adivinhação, empregando moedas, que ainda é usado hoje em dia.

Durante o período da Dinastia Song (960 a 1.279 EC), o Zhouyi Zhengi veio a tornar-se a edição padrão do I Ching, que estava sendo lido como um trabalho de filosofia intrincada, um ponto de partida para examinar grandes questões metafísicas e éticas. Cheng Yi, patriarca da escola neo-confucionista Cheng-Zhu, leu o I Ching como um guia para a perfeição moral.

Ele descreveu o texto como uma maneira de os ministros formarem facções políticas honestas, erradicar a corrupção e resolver problemas no governo. O estudioso Shao Yong, contemporâneo de Cheng Yi, reorganizou os hexagramas em um formato que se assemelha aos números binários modernos, embora ele não pretendesse que seu arranjo fosse usado matematicamente.

O I Ching e a escola Neo-confucionista



Zhu Xi,neo-confucionista do século XII e co-fundador da escola Cheng-Zhu, rejeitou ambas as escolas do I Ching da Dinastia Han, propondo que o texto era uma obra de adivinhação, não de filosofia.

E apesar de ainda o considerar útil para a compreensão das práticas morais dos antigos, sua contribuição foi mesmo na linha profética. A reconstrução de Zhu Xi da adivinhação com talos de milefólio, baseada em parte no texto do Grande Comentário, das Dez Asas, tornou-se a forma padrão e ainda está em uso em pleno século XXI.

À medida em que a China entrou no início do período moderno, o I Ching assumiu uma relevância renovada no estudo confucionista e taoista. O Imperador de Kangxi gostava especialmente do I Ching e ordenou novas interpretações dele.

Os eruditos da dinastia Qing concentraram-se mais intensamente na compreensão da gramática pré-clássica, auxiliando o desenvolvimento de novas abordagens filológicas no período moderno.

O I Ching na Coréia e no Japão


Bandeira da Coréia, com seus 4 característicos trigramas do I Ching, o Livro das Mutações
Em 1557, o neo-confucionista coreano Yi Hwang produziu um dos mais influentes estudos de I Ching do início da era moderna, no qual alegava que o espírito era um princípio (li) e não uma força material (qi). Hwang acusou a escola neo-confucionista de ter interpretado mal Zhu Xi e sua crítica provou-se influente não só na Coréia, mas também no Japão.

Além desta contribuição, o I Ching não foi central para o desenvolvimento do confucionismo coreano e, no século XIX, os estudos sobre a obra foram integrados no movimento de reforma do Silhak.

No Japão medieval, ensinamentos secretos sobre o I Ching foram divulgados pelo mestre Rinzai Zen Kokan Shiren e pelo xintoísta Yoshida Kanetomo. Os estudos do texto no Japão assumiram uma nova importância no período Edo, durante o qual mais de mil livros de mais de 400 autores foram publicados sobre o assunto.

A maioria destes livros eram trabalhos sérios da filologia, reconstruindo usos e comentários antigos para finalidades práticas, embora uma minoria considerável estivesse focada em numerologia, simbolismo e adivinhação. Durante este tempo, mais de 150 edições de comentários chineses anteriores foram reimpressas no Japão, incluindo vários textos que se perderam na China.

No início do período Edo, escritores como Itō Jinsai, Kumazawa Banzan e Nakae Toju classificaram o I Ching como o maior dos clássicos confucionistas. Muitos autores tentaram, ainda, usar o I Ching para explicar a ciência ocidental.

Um escritor, Shizuki Tadao, até tentou empregar a mecânica newtoniana e o princípio copernicano dentro de uma cosmologia de I Ching. Esta linha de argumento foi retomada mais tarde na China por Zhang Zhidong, oficial e erudito da Dinastia Qing.

O I Ching na Europa e no mundo moderno



Leibniz (sim, o famoso matemático), se correspondia com jesuítas na China e escreveu o primeiro comentário europeu sobre o I Ching em 1703, argumentando que provava a universalidade dos números binários e do teísmo (mas não vamos entrar nesses detalhes aqui).

Na sequência, foi criticado por Hegel, que proclamou que o sistema binário e caracteres chineses eram “formas vazias” que não conseguiam articular as palavras faladas com a clareza do alfabeto ocidental - seja lá o que ele quis dizer sobre isso.

No século XX, Jacques Derrida identificou o argumento de Hegel como logocêntrico, mas aceitou sem questionar a premissa de que a língua chinesa não pode expressar idéias filosóficas.

Depois da Revolução Xinhai, o I Ching deixou de fazer parte da filosofia política chinesa, mas manteve a influência cultural como o texto mais antigo da China. Tomando emprestado de Leibniz, escritores chineses ofereceram paralelos entre o I Ching e assuntos como álgebra linear e lógica em ciência da computação, com o objetivo de demonstrar que a antiga cosmologia chinesa havia antecipado as descobertas ocidentais.

O sinologista Joseph Needham tomou a posição oposta, argumentando que o I Ching tinha de fato impedido o desenvolvimento científico, incorporando todo o conhecimento físico em sua metafísica. O psicólogo Carl Jung interessou-se pela possível natureza universal das imagens do I Ching, e introduziu uma influente tradução alemã de Richard Wilhelm, discutindo suas teorias de arquétipos e sincronicidade.

Jung escreveu:

Mesmo para o olho mais preconceituoso, é óbvio que este livro representa uma longa admoestação ao escrutínio cuidadoso do próprio caráter, atitude e motivos.

O livro teve um impacto notável na contracultura de 1960 e em personalidades culturais do século XX, tais como Philip K. Dick, João Cage, Jorge Luis Borges e Herman Hesse. Por outro lado, o período moderno também trouxe um novo nível de ceticismo e rigor para os estudos de I Ching.

Li Jingchi passou várias décadas produzindo uma nova interpretação do texto, que foi publicado postumamente em 1978. Gao Heng, um especialista na China pré-Qin, reinvestigou seu uso como um oráculo da dinastia Zhou. Edward Shaughnessy propôs uma nova data para os vários estratos do texto.

Novas descobertas arqueológicas permitiram um nível mais profundo de entendimento sobre como o texto foi usado nos séculos anteriores à dinastia Qin. Os proponentes das recém-reconstruídas leituras da Dinastia Zhou Ocidental, que muitas vezes diferem grandemente das leituras tradicionais do texto, são às vezes chamados de “escola modernista”.

Entendendo o I Ching e seus hexagramas


Relação dos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações

O I Ching usa um tipo de divinação chamada cleromancia, que produz números aparentemente aleatórios.

Quatro números, de 6 a 9, são transformados em um hexagrama (卦 guà), que pode então ser procurado no livro I Ching, organizado na ordem conhecida como Seqüência do Rei Wen - assim chamada em alusão ao rei Wen de Zhou, que fundou a dinastia Zhou e supostamente reformou o método da interpretação.

O hexagrama, a unidade básica do Zhou Yi, é uma figura composta por seis linhas horizontais empilhadas (爻 yáo), sendo que cada linha pode estar quebrada ou ininterrupta. A Seqüência agrupa os hexagramas em pares, cada um com seu equivalente de cabeça para baixo, embora em oito casos os hexagramas sejam emparelhados com seus inversos.

A tabela a seguir lista os hexagramas (verdes) na Sequência do Rei Wen, mas fique sabendo que a atribuição de números, binários ou decimais, a hexagramas específicos é uma invenção moderna.

O mais antigo manuscrito conhecido, encontrado em 1987 e agora mantido pela Biblioteca de Xangai, foi quase certamente organizado na seqüência de King Wen.

Embora não pareça evidente que a ordem dos hexagramas tenha sido de interesse especial aos autores originais do Zhou Yi, e atualmente se utilize a sequência acima, outra ordem, encontrada em Mawangdui em 1973, organiza os hexagramas em oito grupos compartilhando o mesmo trigrama superior.

Os hexagramas e seus elementos



O texto recebido do Zhou Yi contém todos os 64 hexagramas possíveis, que revelam em detalhes as 64 etapas dos ciclos universais do céu e da terra, de acordo com a visão dos chineses antigos.

Constantino K. Riemma, no site I Ching, nos ensina que cada hexagrama inclui:

  • O nome do hexagrama (卦名 guàmíng), que por si só já é repleto de simbolismos;
  • O texto, também chamado julgamento ou oráculo, que revela em linguagem simbólica o significado do hexagrama e possui poucas frases, tendo a ele sido adicionados comentários e interpretações ao longo dos séculos, a fim de para ajudar o leitor a traduzir o ensinamento ancestral;
  • A imagem ou símbolo, que apresenta uma mensagem adicional, com um modelo de conduta ou um conselho estratégico para lidar com a situação indicada pelo hexagrama; e
  • Os textos das linhas, em número de seis, indicam alternativas ou transformações possíveis das condições retratadas no hexagrama.

Como exemplo, vamos usar o texto do Livro Primeiro, da tradução de Richard Wilhelm, para o hexagrama de número 11:

O julgamento seria:

PAZ.
O pequeno parte, o grande se aproxima.
Boa fortuna.Sucesso.

A imagem:

Céu e terra unem-se:
a imagem da PAZ. Assim o governante divide e completa o curso do céu e da terra, favorece e regula os dons do céu e da terra e desta forma ajuda ao povo.

As linhas, de 1 a 6:

Nove na primeira posição significa:
Quando se arranca uma folha de grama,
junto vem o torrão.
Cada qual de acordo com sua espécie.
Empreendimentos trazem boa fortuna.

Nove na segunda posição significa:
Suportar gentilmente os incultos,
atravessar o rio com decisão,
não negligenciar o longínquo,
não privilegiar os companheiros.
Assim se poderá trilhar o caminho do meio.

Nove na terceira posição significa:
Não há planície que não seja seguida por uma escarpa.
Não há partida que não seja seguida por um retorno.
Aquele que se mantém perseverante quando em perigo
permanece sem culpa.
Não lamenta essa verdade:
usufrua a boa fortuna que ainda possui.

Seis na quarta posição significa:
Ele deve voando sem se vangloriar de sua riqueza.
Junto a seu próximo, sincero e sem malícia.

Seis na quinta posição significa:
O soberano concede sua filha em casamento.
Isso traz bênçãos e suprema boa fortuna.

Seis na sexta posição significa:
A muralha cai novamente no fosso.
Não use o exército agora.
Proclame suas ordens em sua própria cidade. A perseverança traz humilhação.

E, além de uma nota do autor para o hexagrama, cada item acima tem um texto adicional, que se pretende explicativo, como o seguinte, referente ao texto da linha 6:

Começou a ocorrer a mudança mencionada no meio do hexagrama. A muralha da cidade cai novamente no fosso do qual tinha sido erguida. Sobrevêm o desastre. Agora o homem deve se submeter ao destino, e não pretender detê-lo através de uma resistência violenta.

O único recurso restante é resguardar-se em seu círculo mais íntimo. Se quisesse, como de costume, perseverar na resistência ao mal, o colapso seria ainda mais completo, levando à humilhação.

Basicamente, quando se faz uma consulta ao I Ching, o acaso escolhe um hexagrama e alguém interpreta toda essa treta aí de cima, a respeito do hexagrama em questão.

Tá bom, Gameirinho, mas como eu consulto o I Ching? Resposta: olhe para baixo!

Como consultar o I Ching


Moedas usadas para consultar o I Ching, o Livro das Mutações
Embora atualmente também se usem métodos alternativos, como dados especiais e cartomancia, a forma mais comum de adivinhação com o I Ching em uso hoje é uma reconstrução dos métodos descrito nas histórias do Zuo Zhuan, no Grande Comentário das Dez Asas, no Huainanzi e no Lunheng.

A partir da descrição do Grande Comentário, o neo-confucionista Zhu Xi reconstruiu um método de adivinhação com talos de milefólio (ou varetas) que ainda é usado em todo o Extremo Oriente. No período moderno, Gao Heng tentou sua própria reconstrução, diferente da de Zhu Xi.

Muitos entendidos no assunto, baseados nos métodos acima referenciados, fazem a consulta com o lançamento de moedas.

Como objetivo desse post não é entrar nos detalhes, digamos, místicos do I Ching, mas apenas apresentar o mais didaticamente possível a história e as principais características do Livro das Mutações, vamos apenas reproduzir um breve texto sobre como consultar o I Ching, utilizando o lançamento das moedas, direto do site Personare:

A pessoa formula uma pergunta precisa, sobre algum esclarecimento do qual tem curiosidade em saber. Depois disso, são lançadas moedas para a obtenção da resposta. Estes instrumentos são agrupados seis vezes, formando linhas, também chamadas de hexagramas - que podem ser firmes ou maleáveis/mutáveis. Linhas firmes ocorrem quando as moedas caem em lados diferentes. Quando caem todas do mesmo lado, dá-se a linha mutável - a ocorrência de uma linha como essa, ou mais, cria um novo hexagrama, representando o que acontecerá no futuro em relação à pergunta feita pelo consulente.

Cada uma dessas linhas sorteadas contém um significado específico baseado no princípio da dualidade Ying e Yang, através do qual compreendemos que não existe bom ou mau, positivo ou negativo, mas uma complementaridade entre opostos. A ideia é equilibrar tudo que existe ao nosso redor.

Para entender como é a consulta ao I Ching usando varetas, vale fazer uma visita a este link. Este outro link também explica o uso das varetas, além de detalhar como usar as moedas.

Se você entende de inglês, pode dar uma olhada nos vídeos a seguir, disponíveis também no site do Lars Bo Christensen:




Conhece a ti mesmo e aos demais

Como deu para notar, há pelo menos duas maneiras de olhar para o I Ching, o Livro das Mutações:

  • A primeira, é como um tratado filosófico-espiritual, onde se encontram ensinamentos da milenar sabedoria chinesa;
  • A segunda, um oráculo puro e simples, como o tarô ou os búzios (mal comparando, talvez).

Há também a possibilidade de ignorar por completo a obra chinesa mais lida em todo o mundo - o que de fato a maioria das pessoas faz - e deixar passar uma oportunidade de conhecer mais a fundo o pensamento chinês.

Para nós, pessoas comuns, não há problema.

Mas se eu tivesse que lidar com os chineses, seja no âmbito governamental, seja no âmbito comercial, sem dúvida tentaria entender melhor essa ideia que está embrenhada na mente coletiva chinesa, tanto quanto o taoismo e o confucionismo.

Como diz uma das famosas frases de Sun Tzu:

Quando conheces a ti mesmo e conheces os demais, a vitória não é um perigo; quando conheces o céu e a terra, a vitória é inesgotável.

Zài Jiàn!

Livros sobre I Ching, o Livro das Mutações

Preparei uma lista de livros que podem ser úteis a quem quiser se aprofundar no assunto. O primeiro é o grande clássico moderno, a partir do qual deriva parte significativa dos demais livros e conteúdos sobre o I Ching.





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Créditos e referências

Ilustrações e fotos creditadas na ordem em que aparecem no post.


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