I Ching, o Livro das Mutações - Livro Primeiro, Hexagrama 21: Shih Ho / Morder

Imagem de 'Shih Ho / Morder' - hexagrama número 21, de 64 que fazem parte do I Ching, o Livro das Mutações

Esse texto faz parte da série a respeito do I Ching, o Livro das Mutações, que publicamos no blog quinzenalmente. A proposta é apresentar os textos sobre os 64 hexagramas publicados nos livros Primeiro e Terceiro do livro de Richard Wilhelm.

Para entender melhor o que é o I Ching, sugerimos dar uma olhada no post:


Para consultar o índice dos 64 hexagramas, basta acessar:


Cada hexagrama inclui:

  • uma introdução geral, apresentando aspectos básicos do hexagrama;
  • nome do hexagrama (卦名 guàmíng), que por si só já é repleto de simbolismos;
  • texto, também chamado julgamento ou oráculo, que revela em linguagem simbólica o significado do hexagrama e possui poucas frases, tendo a ele sido adicionados comentários e interpretações ao longo dos séculos, a fim de ajudar o leitor a traduzir o ensinamento ancestral;
  • imagem ou símbolo, que apresenta uma mensagem adicional, com um modelo de conduta ou um conselho estratégico para lidar com a situação indicada pelo hexagrama; e
  • os textos das linhas, em número de seis, indicam alternativas ou transformações possíveis das condições retratadas no hexagrama - lembrando que as linhas são contadas de baixo para cima, sendo a linha inferior a primeira.


E isso é basicamente tudo que você precisa saber para continuar. Boa leitura!

Livro Primeiro (o Texto), Hexagrama 21: Shih Ho / Morder



Este hexagrama representa uma boca aberta (cf. hexagrama 27), com um obstáculo entre os dentes (na quarta posição). Como resultado os lábios não se podem juntar.

Para uni-los é necessário morder energicamente através do obstáculo. Sendo o hexagrama composto dos trigramas trovão e relâmpagos, indica como às vezes na natureza as obstruções são eliminadas de forma enérgica.

Mordendo com tenacidade se vence o obstáculo que impede os lábios de se unirem. Da mesma forma a tempestade, com o trovão e o relâmpago, supera a tensão perturbadora na natureza.

Processos e penalidades eliminam os distúrbios que criminosos e caluniadores causam à harmonia da vida social. O tema desse hexagrama é um processo penal, em distinção ao hexagrama 6, CONFLITO, que tratava de processos civis.

Julgamento


MORDER tem sucesso. É favorável administrar justiça.

Quando um obstáculo impede a união, o sucesso é obtido através de uma enérgica mordida. Isso é válido em todas as circunstâncias.

Se a união não é consolidada, isto se deve a alguém que cria intrigas, um traidor, alguém que arma obstáculos e interfere, freando o caminhar. É necessário, então, intervir de forma enérgica, para evitar danos permanentes.

Uma tal obstrução deliberada não desaparece por si mesma. Para detê-la e eliminá-la é preciso julgar e castigar.

Mas é importante que se proceda de modo correto. O hexagrama é formado pelos trigramas Li, clareza e Chên, movimento e agitação.

Li é maleável, Chên é rígido. Recorrendo-se apenas à rigidez e à agitação, causar-se-ia um castigo muito violento; porém, clareza e suavidade sozinhas seriam muito fracas.

Unidos, os atributos dos dois trigramas criam a medida justa. É importante que o homem que decide (representado pela quinta posição) seja de natureza gentil e ao mesmo tempo, por sua conduta no cargo em que ocupa, inspire respeito.


Imagem


Trovão e relâmpago: a imagem do MORDER. Assim os reis da antiguidade consolidavam as leis através de penalidades claramente definidas.

As penalidades são as aplicações individuais das leis. As leis especificam as penalidades.

A clareza prevalece quando se distingue nitidamente entre as penalidades leves e as graves, de acordo com o delito. Isso é simbolizado pela clareza do raio.

A lei é fortalecida pela correta aplicação da penalidade; isso é simbolizado pelo terror do trovão.

O objetivo dessa clareza e rigor é inspirar o devido respeito; as penalidades não têm seu fim em si mesmas. Os obstáculos, na vida social, aumentam quando há falta de clareza nos códigos penais e negligência em executá-los.

Só se podem fortalecer as leis tornando-as claras e executando-as com presteza e decisão.

Textos das linhas


Parede velha com grafites de uma boca com dentes quebrados e um olho arregalado: ilustra a seção a respeito dos textos das linhas de ''Shih Ho / Morder'', um dos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações


Nove na primeira posição significa: seus pés estão presos no cepo de modo que os dedos desaparecem. Nenhuma culpa.

Quando um homem é castigado em sua primeira tentativa de cometer um mal, a penalidade é leve. Só os dedos dos pés são presos no cepo.

Isto o impede de seguir pecando e redime-o de culpa. O texto é, portanto, uma advertência para deter-se a tempo no caminho do mal.

Seis na segunda posição significa: mordendo através da carne macia de modo que o nariz desaparece. Nenhuma culpa.

Nesse caso é fácil distinguir entre o certo e o errado. É como morder em carne macia.

Encontrando um pecador renitente, indignado, um homem se excede um pouco. O desaparecimento do nariz, ao morder, significa que com a irritação se perde a acuidade perceptiva.

Mas isso não é muito prejudicial, pois o castigo como tal é justo.



Seis na terceira posição significa: mordendo uma velha carne ressecada encontra-se algo venenoso. Pequena humilhação. Nenhuma culpa.

Um castigo deve ser aplicado por alguém que não dispõe de suficiente poder e autoridade para fazê-lo. Por isso os castigados não se submetem.

Trata-se de uma causa antiga, simbolizada pela carne de caça salgada e, ao lidar com ela, depara-se com dificuldades. A carne velha está estragada.

Ao ocupar-se do assunto, aquele que deve aplicar o castigo atrai sobre si um venenoso ódio e por isso se vê numa situação um tanto humilhante. Mas como o castigo é uma exigência do tempo, ele permanece livre de culpa.

Nove na quarta posição significa: mordendo a carne seca cartilaginosa. Recebendo flechas de metal. É favorável estar atento ao perigo e ser perseverante. Boa fortuna.

Existem grandes obstáculos a serem superados, poderosos inimigos a serem castigados. O desafio é árduo mas o esforço terá êxito.

Para superar as dificuldades deve-se ter a dureza do metal e a retidão de uma flecha. Quando se está cônscio dessas dificuldades e se permanece perseverante, atinge-se a boa fortuna.

Ao final, a difícil tarefa é realizada.



Seis na quinta posição significa: mordendo a carne seca musculosa. Recebendo ouro amarelo. Perseverantemente consciente do perigo. Nenhuma culpa.

O caso a ser resolvido não é fácil, porém está perfeitamente claro.

Como se tende, por natureza, à benevolência, deve-se realizar um esforço para ser como o ouro amarelo, isto é, verdadeiro como o ouro e imparcial como o amarelo, a cor que simboliza o meio.

Só quando se permanece consciente dos perigos decorrentes da responsabilidade que se assumiu é que se podem evitar erros.

Nove na sexta posição significa: o pescoço preso à canga de madeira de modo que as orelhas desaparecem. Infortúnio.

Ao contrário da linha inicial, esta se refere a um homem incorrigível. Como castigo, ele está preso pelo pescoço à canga de madeira, na qual suas orelhas desaparecem.

Isto significa que ele se torna surdo às advertências. Essa obstinação conduz ao infortúnio.

Depois de tudo

E aqui alcançamos o final do texto sobre o hexagrama Shih Ho / Morder, da primeira parte do livro I Ching, o Livro das Mutações.

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  • 22. Pi / Graciosidade (Beleza)

Hexagrama anterior:


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Créditos e referências

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I Ching, o Livro das Mutações - Livro Primeiro, Hexagrama 20: Kuan / Contemplação (a Vista)

Imagem de 'Kuan / Contemplação (a Vista)' - hexagrama número 20, de 64 que fazem parte do I Ching, o Livro das Mutações

Esse texto faz parte da série a respeito do I Ching, o Livro das Mutações, que publicamos no blog quinzenalmente. A proposta é apresentar os textos sobre os 64 hexagramas publicados nos livros Primeiro e Terceiro do livro de Richard Wilhelm.

Para entender melhor o que é o I Ching, sugerimos dar uma olhada no post:


Para consultar o índice dos 64 hexagramas, basta acessar:


Cada hexagrama inclui:

  • uma introdução geral, apresentando aspectos básicos do hexagrama;
  • nome do hexagrama (卦名 guàmíng), que por si só já é repleto de simbolismos;
  • texto, também chamado julgamento ou oráculo, que revela em linguagem simbólica o significado do hexagrama e possui poucas frases, tendo a ele sido adicionados comentários e interpretações ao longo dos séculos, a fim de ajudar o leitor a traduzir o ensinamento ancestral;
  • imagem ou símbolo, que apresenta uma mensagem adicional, com um modelo de conduta ou um conselho estratégico para lidar com a situação indicada pelo hexagrama; e
  • os textos das linhas, em número de seis, indicam alternativas ou transformações possíveis das condições retratadas no hexagrama - lembrando que as linhas são contadas de baixo para cima, sendo a linha inferior a primeira.


E isso é basicamente tudo que você precisa saber para continuar. Boa leitura!

Livro Primeiro (o Texto), Hexagrama 20: Kuan / Contemplação (a Vista)



Uma pequena variação de acento dá ao nome chinês desse hexagrama um duplo significado. Por um lado, representa a contemplação, por outro, o fato de ser contemplado, de ser um exemplo, um modelo.

Essas ideias são sugeridas pelo fato de o hexagrama poder ser relacionado com a forma de um tipo de torre, muito frequente na China antiga. Do alto dessas torres tinha-se uma ampla visão dos arredores e, por outro lado, quando situada no cume de uma montanha, a torre era vista de longe.

Assim, o hexagrama mostra um dirigente que contempla, ao alto, a lei dos céus, e em baixo, os costumes do povo. Graças a seu bom governo, ele se torna um elevado exemplo e modelo para o povo.

Este hexagrama está relacionado com o oitavo mês do calendário Chinês (setembro-outubro). A força luminosa se retira e a escuridão está novamente em ascensão.

Entretanto, esse aspecto não é relevante para a interpretação do hexagrama como um todo.

Julgamento


CONTEMPLAÇÃO. A ablução já foi realizada, mas ainda não a oferenda. Confiantes, eles erguem o olhar para ele.

O ritual de sacrifício na China começava com uma ablução e uma libação, com que se invocava a divindade. Em seguida se oferecia o sacrifício.

O lapso de tempo entre as duas cerimônias é o mais sagrado, o momento de suprema concentração interior. Quando a devoção é sincera, inspirada por uma fé verdadeira, sua contemplação tem um efeito transformador e inspira respeito naqueles que a presenciam.

Na natureza também se observa um rigor sagrado e grave que se manifesta na regularidade com que se desenrolam todos os fenômenos. A contemplação do sentido divino subjacente à ocorrência de todos os fenômenos no universo dá, ao homem destinado a liderar os outros, meios para realizar efeitos semelhantes.

Para isso é necessário a concentração interior que a contemplação religiosa desenvolve nos grandes homens, dotados de uma fé poderosa. Permite-lhes apreender as misteriosas e divinas leis da vida e, através da mais profunda concentração, chegarem a expressar essas leis em suas próprias pessoas.

De sua contemplação emana um poder espiritual oculto que influência e domina os homens, sem que eles estejam conscientes de como isso ocorre.


Imagem


O vento sopra sobre a terra: a imagem da CONTEMPLAÇÃO. Assim os reis da antiguidade visitavam as regiões do mundo, contemplavam o povo e o instruíam.

Quando o vento sopra sobre a terra, alcança todos os recantos e a grama inclina-se ante seu poder. Esses dois fatos encontram confirmação nesse hexagrama.

As duas imagens simbolizam a forma de agir dos reis da antiguidade.

Por um lado, graças a viagens regulares, eles observavam atentamente a vida de seu povo e nenhum costume em vigor lhes passava desapercebido. Com isso, exerciam, por outro lado, a influência necessária para mudar os hábitos inconvenientes.

Tudo isso indica o poder de uma personalidade superior. Um tal homem será capaz de perceber os verdadeiros sentimentos da grande massa da humanidade e por isso não poderá ser enganado.

Por outro lado, ele exercerá sua influência através da mera presença, e o impacto de sua personalidade fará com que todos sejam por ele orientados, assim como a grama pelo vento.

Textos das linhas


Homem do alto de uma torre a contemplar, por cima, a paisagem de montanhas cobertas por nuvens: ilustra a seção a respeito dos textos das linhas de ''Kuan / Contemplação (a Vista)'', um dos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações


Seis na primeira posição significa: contemplação pueril. Para um homem inferior, nenhuma culpa. Para um homem superior, humilhação.

Isso significa uma contemplação à distância, sem compreensão. Há um homem influente, mas sua atuação não é compreendida pelas pessoas comuns.

Isso não tem grande importância em relação às massas, pois são beneficiadas pela ação do sábio governante, mesmo sem compreendê-lo. Mas, para o homem superior, isso é uma desgraça.

Ele não deve satisfazer-se com uma contemplação superficial e irrefletida das forças dominantes; deve contemplá-las em conjunto e procurar compreendê-las.

Seis na segunda posição significa: contemplação através de uma brecha na porta. Favorável à perseverança de uma mulher.

Através de uma brecha na porta se tem uma visão restrita. Olha-se de dentro para fora.

A contemplação é limitada subjetivamente. Um homem relaciona tudo a si mesmo e é incapaz de se colocar no lugar do outro e compreender os motivos de sua ação.

Isso é apropriado a uma boa dona-de-casa, que não precisa entender dos assuntos do mundo. Para um homem que tem de atuar na vida pública, este modo egoísta e limitado de ver as coisas é evidentemente nefasto.



Seis na terceira posição significa: a contemplação de minha vida decide entre progresso ou retrocesso.

Este é o ponto de transição. Aqui o homem já não olha mais para fora, para receber imagens limitadas e confusas, porém dirige a contemplação a si mesmo em busca de orientação para suas decisões.

Essa introspeção representa a superação do egoísmo ingênuo daquele que vê a tudo de seu próprio ponto de vista. Ele começa a refletir e com isso se torna objetivo.

Porém, o autoconhecimento não consiste em alguém se ocupar dos seus próprios pensamentos; é, isto sim, voltar-se para as consequências do que criou.

É somente através dos efeitos resultantes de sua vida que uma pessoa pode julgar se o que realizou significa progresso ou retrocesso.

Seis na quarta posição significa: contemplação da luz do reino. É favorável exercer influência como convidado de um rei.

Isso descreve um homem que conhece os segredos do que faz um reino florescer. Tal homem deve ser colocado numa posição de autoridade em que possa exercer influência.

Ele deve ser como que um hóspede, isto é, deve ser reverenciado e deixado livre para agir com independência, e não ser usado como um instrumento.



Nove na quinta posição significa: contemplação de minha vida. O homem superior está livre de culpas.

Um homem que ocupa uma posição de autoridade, para o qual os outros erguem o olhar, deve estar constantemente disposto a analisar-se.

Porém, o correto modo de examinar-se não consiste numa passiva meditação sobre si mesmo e, sim, na análise dos efeitos que se produziram.Somente quando esses efeitos são benéficos e quando se tem uma boa influência sobre os outros é que a contemplação da própria vida trará ao homem a satisfação de se saber livre de erros.

Nove na sexta posição significa: contemplação da sua vida. O homem superior está livre de culpas.

Enquanto a linha anterior representa um homem que se contempla a si mesmo, aqui, na posição mais elevada, está excluído tudo o que é pessoal e relacionado ao ego.

Assim se tem a imagem de um sábio afastado dos assuntos do mundo. Liberto de seu ego, ele contempla as leis da vida, e reconhece que saber se manter livre de culpas é o supremo bem.

Depois de tudo

E aqui alcançamos o final do texto sobre o hexagrama Kuan / Contemplação (a Vista), da primeira parte do livro I Ching, o Livro das Mutações.

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Créditos e referências

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Concubinas - histórias de prazer e sacrifício na China de ontem e de hoje

Quatro atrizes em poses sensuais encenando espetáculo sobre concubinas da dinastia chinesa Tang

Pouco tempo depois que teve a ideia de escrever um livro sobre Sun Tzu e A Arte da Guerra, publiquei um post aqui, neste mesmo bom e velho blog, sobre uma suposta passagem da vida do general chinês em que ele teria  mandado decepar as cabeças de duas das concubinas favoritas do rei de Wu.

De lá para cá, escrevi muita coisa sobre a China antiga, mas diversos assuntos, por razões diversas, acabaram não sendo abordados aqui. E é exatamente de um desses assuntos, as famosas concubinas, que vamos tratar neste texto.

Vale dizer que alguns posts anteriores, além do já citado texto sobre as mulheres do rei de Wu, trataram de assuntos que tangenciavam de alguma forma essas nossas queridas beldades.

Podemos citar, por exemplo, um sobre as mulheres exemplares, outro sobre o papel das mulheres na guerra e, ainda, diversas das odes traduzidas do famoso Shiji, o Livro das Canções.

No entanto, como está claro, tais textos apenas tangenciavam o assunto - e eventualmente.

Faltava algo mais profundo, com mais informações. Agora, finalmente, vamos conhecer um pouco mais do fascinante universo das concubinas chinesas.

Para tanto, vamos usar basicamente trechos traduzidos do artigo The secret life of an ancient concubine, de April Holloway, publicado no site Ancient Origins.

Concubinas no mundo e na China



E começo destacando o fato de que, não apenas na China antiga, mas ao longo de toda a história da humanidade nas mais diversas sociedades, inclusive com outros nomes, as concubinas sempre existiram.

Sobre isso, o artigo do Ancient Origins é cristalino:

Em muitas culturas e tradições religiosas antigas, governantes e membros de elite da sociedade não apenas tinham esposas, mas também concubinas. Elas normalmente serviam a um duplo propósito: aumentar o prestígio de um homem por meio da sua capacidade de produzir filhos e, claro, oportunidades ilimitadas para satisfazer os desejos sexuais. 
(...) A prática de tomar uma concubina remonta a milhares de anos nas civilizações da antiga Mesopotâmia e Babilônia, onde os membros da elite tomavam concubinas, muitas das quais eram escravas. No entanto, a primeira esposa sempre manteve um lugar de supermacia na família. Em algumas cidades-estado, as mulheres serviam como sacerdotisas e possuíam uma classificação social muito alta. Geralmente, essas mulheres não se casavam. Em algumas culturas da Mesopotâmia, os homens visitavam essas mulheres como prostitutas, o que a sociedade não apenas tolerava, mas considerava um cumprimento honorável do dever religioso, independentemente do estado civil do homem.

Voltando à China, o texto explica rapidamente como elas chegavam à corte:

Em muitas histórias, as concubinas eram levadas pela força e tinham suas vidas vendidas, mas esse nem sempre era o caso. Não era incomum em algumas culturas que as famílias mais pobres apresentassem suas filhas a um regente para ver se elas seriam escolhidas como concubinas. Isso muitas vezes servia ao duplo propósito de se livrar de uma boca extra para alimentar, bem como dar à filha uma vida de conforto, privilégio e proteção.

No entanto, não bastava passar a fazer parte do harém, já que

o concubinato era uma prática complexa em que as concubinas eram classificadas de acordo com seu nível de favor com o imperador. A situação das concubinas variava de pseudo-esposas bem tratadas a prostitutas mal tratadas. (...) Se uma concubina não tivesse filhos, a vida tornava-se menos agradável.

Mas a situação de uma concubina não era necessariamente imutável. Em muitos casos, havia a possibilidade de elas mudarem de status, como o texto do Ancient Origins explica:

Uma concubina poderia melhorar sua situação ao produzir um herdeiro (embora seus filhos fossem inferiores aos filhos legítimos) e poderia subir na escala social, caso caísse nas graças do governante. Um exemplo disto foi a consorte Wu. Ela era consorte e a concubina favorita do imperador Zuanzong da China. Conhecida por sua beleza, ela se elevou ao mais alto nível que uma concubina conseguiu. Depois que a esposa do imperador morreu em 724, a consorte Wu foi tratada como uma imperatriz por todos os criados que viviam no palácio.

Outro caso é o da famosa Imperatriz de Ferro, que virou até livro, sobre o qual falamos um pouco ao final deste post.

Ainda assim, essas duas mulheres foram excessão e não regra - inclusive devido ao grande número de mulheres que, segundo o site consultado, chegou a 20 mil na Cidade Probidida durante a dinastia Qing.

Vida diária de uma concubina na Cidade Proibida

Detalhe de tranca na porta dos aposentos das concubinas em um palácio chinês

Ainda de acordo com o texto do Ancient Origins, a respeito do cotidiano das concubinas imperiais, elas

eram guardadas por um número igualmente obsceno de eunucos (homens castrados) para garantir que não pudessem ficar grávidas de ninguém, a não ser do imperador.
A hierarquia interna era firme e inflexível e as consortes protegiam ferozmente seu ranking não oficial e faziam praticamente qualquer coisa para avançar. O ciúme e as discussões entre concubinas eram desenfreados e garantiam que a vida diária estava longe de ser uma vida de agradável lazer. Passar uma noite com o imperador era difícil, devido ao alto número de consortes disponíveis, de modo que as concubinas competiam ardorosamente umas contra as outras. 
Enquanto estava a serviço do palácio, nenhuma concubina podia se comunicar com o mundo exterior, pessoalmente ou mesmo por correio. Esta proibição chegou a tal ponto em que não se permitia que um médico entrasse no palácio e visse uma concubina doente. Sua doença era descrita e as prescrições adquiridas e administradas de acordo com o conselho do médico.

Por outro lado, havia algumas situações em que uma concubina poderia deixar o palácio:

Assim como o imperador poderia receber uma consorte como um presente de um governante estrangeiro, o mesmo imperador poderia escolher dar uma de suas concubinas como presente a um governante estrangeiro. No entanto, poderia argumentar-se que uma prisão tinha sido simplesmente substituída por outra. 
Algumas consortes foram autorizadas a retornar às suas famílias com uma pensão adequada após muitos anos de serviço. O período mínimo para servir foi fixado em cinco anos pelo imperador de Hongwu, em 1389. As consortes aposentadas eram livres para prosseguir uma vida normal, incluindo casar-se e estabelecer uma família. Muitas consortes muito velhas para serem úteis de alguma outra forma ao palácio imperial preferiam se tornar empregadas no palácio como criada ou buscar uma vida de monja.

Um aspecto espantoso, com requintes de crueldade mórbida, diz respeito ao fato de as consortes serem consideradas propriedade pessoal do regente. Segundo Holloway, elas

eram dele para fazer o que quisesse, o que incluia levá-las consigo para a vida após a morte. Em muitos túmulos antigos de nobres, encontramos os restos de várias mulheres de idade similar ou ligeiramente inferior enterradas perto de um único homem, um forte indicador de concubinato. As consortes imperiais eram executadas por eunucos de palácios ou optavam por se suicidar, normalmente se enforcando com um lenço de seda ou tomando veneno. 
Na primeira parte da dinastia Ming, as concubinas eram muitas vezes imoladas e enterradas em túmulos separados perto do imperador falecido. Em alguns casos, as consortes eram enterradas vivas em pé - esperando a chegada do imperador na vida após a morte.

A última concubina do último imperador da China



Os estertores finais da China imperial produziram, junto com um último imperador, também uma última concubina (pelo menos desse, vamos dizer assim, formato tradicional).

Trata-se de Li Yuqin, escravizada, segundo o texto do Ancient Origins, a partir dos 15 anos de idade (por volta de 1943),

quando a imperatriz de Pu Yi, Wan Rong, foi destruída pelo ópio, sua primeira concubina se divorciou dele e uma segunda concubina morreu em circunstâncias misteriosas. Os guardas do imperador decidiram que Pu Yi precisava de uma nova consorte e ele foi convidado a escolher com base em fotografias de estudantes locais. Ele escolheu Li Yuqin, que foi arrancada de sua casa e informada que ia ao palácio para aprender e estudar. A jovem não percebeu o que a esperava. "Porque eu pensei que fui lá para estudar, eu até levei a bolsa da escola. Eu era muito inocente então, pensando que eu poderia fugir se eu não gostasse. Na verdade, era absolutamente impossível fugir", disse Li Yuqin. 
Li permaneceu benevolente em seu julgamento de Pu Yi, e finalmente foi libertada da prisão em 1959 e enviada para trabalhar nos jardins botânicos de Pequim até a morte do imperador, sem filhos, de câncer, em 1967. "Pu Yi tem muitos aspectos, ele era tímido, suspeito, irritável ... mas como um ser humano, ele também sofreu muita dor e miséria muito mais pesada do que as pessoas comuns", disse ela.

Como deu para perceber, não apenas foi a última concubina, mas também consorte do último imperador da China - aliás, filme que infelizmente eu não assisti (ainda), mas no qual Li Yuqin não é retratada (a julgar pelos créditos disponíveis no IMDB).

Concubinas hoje, poliandria e concubinos

E se você pensa que a história acabou aí, pode ser que esteja redondamente sem noção. Pelo menos é o que deixa claro o site Facts and Details:

Sob o comunismo, as concubinas tornaram-se símbolos de corrupção e de decadência. O concubinato foi abolido pelos comunistas depois de 1949. Durante o período maoísta, as pessoas não se atreviam a ter relações extraconjugais com uma concubina, ou com qualquer outra, por medo de serem pegas e punidas. O concubinato tem retornado nos últimos anos. As mulheres jovens que se tornam concubinas costumam fazê-lo pelo dinheiro e abordam a questão como um negócio: sexo por uma vida confortável. As inteligentes economizam seu dinheiro e o investem ou iniciam negócios. Algumas acabam com todo seu dinheiro em roupas e luxos. 

O site dá ainda outra informação interessantíssima, a de que existe também "alguma poliandria entre as minorias tibetanas, Naxi e Pumi".

Não que não houvesse antes, especialmente se estamos a falar do caso da imperatriz Wu e seus concubinos. Mas deixemos de bestagem e continuemos, agora em direção à telona.

Adeus minha concubina, muito além de Cannes

Cena da peça "Adeus, minha concubina", encenada pela tradicional Ópera de Pequim

Pois é, dá pra fazer um texto sobre concubinas sem discorrer sobre o mais que famoso "Adeus, Minha Concubina"?

Acho que não. Então, vai.

O filme de Kaige Chen concorreu a meio mundo de prêmios em 1993, não ganhou o Oscar, mas levou os não menos importantes Cannes, BAFTA e Globo de Ouro - entre outros.

A sinopse a seguir, que está disponível no Filmow, dá uma boa ideia da obra:

Na Pequim de 1925, a academia "Toda Sorte e Felicidade" ensina a arte da interpretação a meninos pobres e sem lar. Um deles, Douzi (Mingwey Ma), é filho de uma prostituta. O garoto Shitou (Yang Fei) o protege e se torna seu amigo. É um lugar com um sistema de aprendizado puxado, dirigido pelo mestre Guan Jinfa (Lu Qi). Por seus traços femininos, Douzi é treinado a fazer papéis de mulher, enquanto Shitou, um tipo mais rude, papéis masculinos. Os anos passam, Douzi e Shitou aprofundam seus estudos e se tornam atores famosos da Ópera de Pequim. Cheng Dieyi (Leslie Cheung) e Duan Xiaolou (Zhang Fengyi), nomes que adotam na vida artística, continuam amigos e interpretam a peça Adeus Minha Concubina. Quando Xiaolou se apaixona pela prostituta Juxiam (Gong Li), a amizade começa a se desfazer e eles param de trabalhar juntos. Não bastasse, o exército japonês invade Pequim, Xiaolou é preso e Juxian pede a ajuda de Dieyi. É o momento para decidir se prevalecerá a amizade de Dieyi e Xiaolou ou o amor de Juxian e Xiaolou.

E acho que deu pra notar que o ponto central aí, para os nossos auspiciosos fins, é exatamente o trecho que informa que as personagens principais interpretam a peça "Adeus, Minha Concubina".

Sim, antes de ser um filme, "Adeus..." era uma peça - das mais famosas, entre as montadas pela não menos famosa Ópera de Pequim.

Segundo o informado no mesmo site China Link, a peça "retrata os últimos momentos de um proprietário de terras e de sua concubina preferida".

Tem mais: entre ser uma peça da Ópera e um filme premiado, a história da película foi um livro, de autoria da escritora Lillian Lee. Sim, "Adeus, Minha Concubina" é uma adaptação muitíssimo bem produzida.

E caso você tenha se interessado, pode ler uma resenha do livro aqui, e uma crítica do filme aqui.

Vale também mencionar, só a título de curiosidade curiosa, que o cinetoscópio elencou o filme entre os vinte e cinco melhores, dos ganhadores da Palma de Ouro em Cannes.

A concubina que criou a China moderna

Capa do livro "A Imperatriz de Ferro", de Jung Chang, sobre uma das mais famosas concubinas da China

Para (quase) finalizar, conforme prometido, vamos conhecer um pouco do livro A Imperatriz de Ferro: a concubina que criou a China moderna, de Jung Chang. Para isso, nada melhor que recorrer à sinopse disponível no site da Amazon:

Não há dúvida de que a imperatriz viúva Cixi (1835-1908) é a mulher mais importante da história chinesa. Tendo governado o país por décadas, ela hoje é considerada a principal responsável por ter conduzido o império medieval à era moderna. 
Aos dezesseis anos, numa seleção nacional para acompanhantes reais, Cixi foi escolhida para ser uma das concubinas do imperador. Quando ele morre, em 1861, é o filho de cinco anos de ambos que assume o trono. Mas a imperatriz organiza um golpe contra os regentes indicados pelo marido e passa a ser a verdadeira líder da China. 
A biógrafa Jung Chang descreve com toda vivacidade a luta de Cixi contra os enormes obstáculos que precisaram ser derrubados para mudar o império chinês. Ela foi a responsável por implantar os atributos de um Estado moderno, como a indústria, ferrovias, eletricidade e novos armamentos, e mesmo por avanços como a abolição de torturas milenares e o reconhecimento dos direitos das mulheres. A autora desmonta, portanto, a visão tradicional de que a imperatriz viúva não passava de uma déspota sanguinária e conservadora. 
Baseada em documentos fundamentais que só ficaram disponíveis recentemente, esta biografia veio para revolucionar o entendimento sobre um período crucial da história da China e do mundo. Narrado num ritmo rápido e envolvente, é tanto um panorama do nascimento de uma nação moderna como o retrato íntimo de uma grande mulher.
E para que não fique apenas no texto feito para vender da gigante amazônica aí, segue também um pedacinho do que foi publicado pela Christine Marote em nosso blog parceiro, China na Minha Vida:

Para mim, foi um livro que fez repensar o conceito que tinha de Cixi. Pelos demais livros que havia lido sobre ela, só se mostrava um lado de prazeres, gastos desnecessários e falta de competência na administração. “A Imperatriz de Ferro” mostra uma Cixi capaz de lutar pelos seus ideais e mudar a história da China. Realmente uma mão de ferro, determinada a conseguir o poder e manter o império sob seu comando. Claro que ela cometeu atos insanos também, mas que líder que, no final das contas, não comete. Ainda mais numa época em que eram dados ao Imperador o ‘poder do céu’! 
Não dá para deixar de lado o fato dela ter conseguido abrir a China para o mundo, aceitando os estrangeiros, recebendo autoridades ocidentais e dando alguns privilégios a eles. Se hoje estamos aqui, ela teve um papel nessa possibilidade de abertura. Um ‘chute inicial’, mas teve.

Se você se interessou pelo livro, dá pra comprar na Amazon, neste link. Vai lá!

Uma fonte para relaxar com sua concubina preferida (ou, os finalmentes)


Foto de uma fonte termal onde o imperador e a concubina saciavam seus desejos

Deu pra perceber que não era nada fácil a vida de uma concubina, mesmo daquelas que conseguiram se aproveitar de sua condição para ascender.

Naturalmente, ficaram de fora ainda muitas outras informações a respeito delas, inclusive sobre outras concubinas que se destacaram, como a não menos famosa Yang Guifei - paixão da vida do imperador Xuanzong (685-762).

A foto aí de cima, inclusive, tem a ver com a história de ambos. Quem sabe essa prosa não aparece por aqui num futuro qualquer?

Enquanto isso, espero que tenha gostado e que nos ajude a espalhar esse conteúdo por aí - ou pelo menos nos diga o que você achou, deixando seu comentário abaixo.

Zài jián!


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Créditos e referências

Ilustrações e fotos creditadas na ordem em que aparecem no post.


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I Ching, o Livro das Mutações - Livro Primeiro, Hexagrama 19: Lin / Aproximação

Imagem de 'Lin / Aproximação' - hexagrama número 19, de 64 que fazem parte do I Ching, o Livro das Mutações

Esse texto faz parte da série a respeito do I Ching, o Livro das Mutações, que publicamos no blog quinzenalmente. A proposta é apresentar os textos sobre os 64 hexagramas publicados nos livros Primeiro e Terceiro do livro de Richard Wilhelm.

Para entender melhor o que é o I Ching, sugerimos dar uma olhada no post:


Para consultar o índice dos 64 hexagramas, basta acessar:


Cada hexagrama inclui:

  • uma introdução geral, apresentando aspectos básicos do hexagrama;
  • nome do hexagrama (卦名 guàmíng), que por si só já é repleto de simbolismos;
  • texto, também chamado julgamento ou oráculo, que revela em linguagem simbólica o significado do hexagrama e possui poucas frases, tendo a ele sido adicionados comentários e interpretações ao longo dos séculos, a fim de ajudar o leitor a traduzir o ensinamento ancestral;
  • imagem ou símbolo, que apresenta uma mensagem adicional, com um modelo de conduta ou um conselho estratégico para lidar com a situação indicada pelo hexagrama; e
  • os textos das linhas, em número de seis, indicam alternativas ou transformações possíveis das condições retratadas no hexagrama - lembrando que as linhas são contadas de baixo para cima, sendo a linha inferior a primeira.


E isso é basicamente tudo que você precisa saber para continuar. Boa leitura!

Livro Primeiro (o Texto), Hexagrama 19: Lin / Aproximação



A palavra chinesa Lin tem uma série de significados, difíceis de sintetizar num único vocábulo de uma língua ocidental. As antigas interpretações do Livro das Mutações dão como primeiro significado "tornar-se grande".

O que se torna grande são os dois traços fortes que surgem e crescem embaixo, no hexagrama. Com eles o poder luminoso se expande.

Essa idéia se estende de modo a incluir o conceito de aproximar e, em específico, a aproximação do forte, do que está acima, em direção ao que se encontra abaixo. Finalmente, significa a atitude de condescendência da parte de um homem numa posição elevada em relação ao povo e, também, o início das negociações.

Este hexagrama está relacionado com o décimo segundo mês do calendário chinês (janeiro-fevereiro), quando o poder luminoso começa a ascender outra vez, após o solstício de inverno.

Julgamento


APROXIMAÇÃO tem sublime sucesso. A perseverança é favorável. Ao chegar o oitavo mês, haverá infortúnio.

O hexagrama como um todo anuncia uma época de progresso alegre e esperançoso. A primavera se aproxima. A alegria e tolerância fazem com que o alto e o baixo se aproximem. O sucesso é certo.

Mas é necessário trabalhar com determinação e perseverança de modo a aproveitar plenamente a favorabilidade de tal época. E mais ainda: a primavera não dura para sempre.

No oitavo mês, os aspectos se invertem. Restam então somente duas linhas fortes e luminosas que já não avançam, mas, ao contrário, recuam (ver o próximo hexagrama).

É necessário refletir a tempo sobre esta inversão. Enfrentando o mal antes de ele se manifestar, antes mesmo de seus primeiros sinais, é possível dominá-lo.


Imagem


A terra acima do lago: a imagem da APROXIMAÇÃO. Assim o homem superior é inesgotável em sua disposição de ensinar e ilimitado em sua tolerância e proteção ao povo.

Ao alto, a terra faz fronteira com o lago. Isso simboliza a aproximação e a condescendência do homem em posição elevada para com os que estão abaixo.

As duas partes da imagem indicam sua atitude para com eles. Assim como o lago é inesgotável em sua profundidade, o sábio é inesgotável em sua disposição de instruir os homens.

Assim como a terra é ilimitadamente vasta, sustentando e protegendo todas as criaturas, assim também o sábio sustenta e protege todos os homens, sem impor limites nem excluir qualquer parte da humanidade.

Textos das linhas


Primavera anunciada por diversos tipos de flores amarelas, brancas, azuis, rosas e vermelhas: ilustra a seção a respeito dos textos das linhas de ''Lin / Aproximação'', um dos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações


Nove na primeira posição significa: aproximação em conjunto. A perseverança traz boa fortuna.

O bem começa a prevalecer e a encontrar apoio em círculos influentes. Isso é também um incentivo para que pessoas capazes se aproximem.

É favorável aderir a essa tendência de ascensão. Porém, é preciso não se deixar desviar pela corrente do tempo.

É necessário permanecer persistente no bem. Isso traz boa fortuna.

Nove na segunda posição significa: aproximação conjunta. Boa fortuna! Tudo é favorável.

Quando o estímulo à aproximação vem do alto e o homem possui em seu interior a força e a integridade que tornam prescindíveis as advertências, a boa fortuna se seguirá.

Nem deve o futuro ser causa de qualquer preocupação. Ele está consciente de que tudo na terra é transitório e que a cada ascensão segue-se um declínio.

Mas não deve deixar que essa lei universal do destino o confunda. Tudo está sendo favorável.

Assim, ele percorrerá os caminhos da vida veloz, honesta e valentemente.



Seis na terceira posição significa: aproximação confortável. Nada que seja favorável. Se o homem chegar a se entristecer por este motivo, ficará livre de culpa.

Um homem avança sem encontrar dificuldades, alcança poder e influência.

Mas, por isso mesmo, corre o risco de acomodar-se e, por um excesso de confiança, deixar que uma atitude de cômoda displicência se evidencie no contato com as pessoas. Isso seria certamente nocivo.

Mas é possível uma mudança de atitude. Arrependendo-se de sua atitude errônea e assumindo a responsabilidade inerente a uma posição influente, ele se livrará de culpas.

Seis na quarta posição significa: aproximação total. Nenhuma culpa.

Enquanto as três linhas inferiores indicam a ascensão ao poder e à influência, as três superiores mostram a atitude dos homens que ocupam posições elevadas em relação aos subalternos, a quem concedem influência.

Aqui se fala de um homem liberal, numa posição elevada, que se aproxima de uma pessoa capaz e a convida para participar de seu círculo de amizades, sem se preocupar com a diferença de classe.

Isso é muito favorável.



Seis na quinta posição significa: sábia aproximação. Isto é correto para um grande príncipe. Boa fortuna.

Um príncipe ou alguém em posição de liderança deve ter a sabedoria de atrair para si homens capazes, exímios na direção de negócios.

Sua sabedoria consiste tanto em saber selecionar a pessoa adequada como em evitar interferir, deixando-a livre para agir por si mesma.

Pois só mediante tal atitude de reserva se encontrarão as pessoas acertadas, que preencham todos os requisitos.

Seis na sexta posição significa: aproximação magnânima. Boa fortuna. Nenhuma culpa.

Um sábio, que deixou para trás o mundo, que interiormente já se retirou da vida, pode, em determinadas circunstâncias, decidir voltar mais uma vez a este mundo, aproximando-se dos homens.

Isso significa grande boa fortuna para os homens a quem ele instrui e ajuda. Mas também, para ele, este ato de magnânima humildade não implica culpa.

Depois de tudo

E aqui alcançamos o final do texto sobre o hexagrama Lin / Aproximação, da primeira parte do livro I Ching, o Livro das Mutações.

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Próximo hexagrama:

Hexagrama anterior:


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Ilustrações e fotos creditadas na ordem em que aparecem no post.


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I Ching, o Livro das Mutações - Livro Primeiro, Hexagrama 18: Ku / Trabalho Sobre o que se Deteriorou

Imagem de 'Ku / Trabalho Sobre o que se Deteriorou' - hexagrama número 18, de 64 que fazem parte do I Ching, o Livro das Mutações

Esse texto faz parte da série a respeito do I Ching, o Livro das Mutações, que publicamos no blog quinzenalmente. A proposta é apresentar os textos sobre os 64 hexagramas publicados nos livros Primeiro e Terceiro do livro de Richard Wilhelm.

Para entender melhor o que é o I Ching, sugerimos dar uma olhada no post:


Para consultar o índice dos 64 hexagramas, basta acessar:


Cada hexagrama inclui:

  • uma introdução geral, apresentando aspectos básicos do hexagrama;
  • nome do hexagrama (卦名 guàmíng), que por si só já é repleto de simbolismos;
  • texto, também chamado julgamento ou oráculo, que revela em linguagem simbólica o significado do hexagrama e possui poucas frases, tendo a ele sido adicionados comentários e interpretações ao longo dos séculos, a fim de ajudar o leitor a traduzir o ensinamento ancestral;
  • imagem ou símbolo, que apresenta uma mensagem adicional, com um modelo de conduta ou um conselho estratégico para lidar com a situação indicada pelo hexagrama; e
  • os textos das linhas, em número de seis, indicam alternativas ou transformações possíveis das condições retratadas no hexagrama - lembrando que as linhas são contadas de baixo para cima, sendo a linha inferior a primeira.


E isso é basicamente tudo que você precisa saber para continuar. Boa leitura!

Livro Primeiro (o Texto), Hexagrama 18: Ku / Trabalho Sobre o que se Deteriorou



O ideograma chinês Ku representa uma tigela em cujo conteúdo proliferam vermes. Isso significa o que se deteriorou.

Isso ocorreu porque a suave indiferença do trigrama inferior uniu-se à rígida inércia do trigrama superior, resultando em estagnação. Como isso implica em culpa, tal condição exige a remoção da causa.

Por isso, o significado do hexagrama não é simplesmente "o que se deteriorou" e sim TRABALHO SOBRE O QUE SE DETERIOROU.

Julgamento


TRABALHO SOBRE O QUE SE DETERIOROU tem sublime sucesso. É favorável atravessar a grande água. Antes do ponto de partida, três dias, depois do ponto de partida, três dias.

Aquilo que se deteriorou por culpa dos homens pode ser pelo seu trabalho restaurado. O que levou a esse estado de corrupção não foi um destino imutável, como na época da ESTAGNAÇÃO, mas sim o uso abusivo da liberdade.

O trabalho visando à melhoria das condições é promissor, pois está em harmonia com as possibilidades do momento. O homem não deve recuar amedrontado diante do trabalho e do perigo - simbolizados pela travessia da grande água -, e sim empenhar-se nele com energia.

O sucesso, entretanto, depende de uma deliberação correta. Isso está expresso nas frases: "antes do ponto de partida, três dias" e "depois do ponto de partida, três dias".

Deve-se conhecer as causas da deterioração para, então, se poder afastá-las; por isso é necessário cautela no período que antecede o ponto de partida. Depois, deve-se cuidar para que o novo caminho seja iniciado com segurança, de maneira a evitar um retrocesso.

Por isso, a cautela é importante também depois do ponto de partida. A indiferença e a inércia que provocaram a deterioração devem ser substituídas pela decisão e energia, para que após o final surja um novo começo.


Imagem


O vento sopra na base da montanha: a imagem da Deterioração. Assim o homem superior agita os homens e lhes fortalece o espírito.

Quando o vento sopra na base da montanha, é por ela rechaçado. Tal movimento danifica a vegetação, o que torna necessário melhorias.

Assim também, atitudes e hábitos aviltantes levam a sociedade humana a deteriorar-se.

Para eliminá-los, o homem superior deve regenerar a sociedade. Seus métodos devem se derivar também dos dois trigramas básicos, mas de modo a que seus efeitos se desenvolvam numa seqüência ordenada.

O homem superior deve remover a estagnação sacudindo a opinião pública, assim como age o vento sacudindo tudo, para, em seguida, fortalecer e tranquilizar o caráter dos homens - assim como a montanha oferece tranquilidade e alimento a tudo que vive ao seu redor.

Textos das linhas


Tigela preta com sementes secas sobre uma superfície vermelha: ilustra a seção a respeito dos textos das linhas de ''Ku / Trabalho Sobre o que se Deteriorou'', um dos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações


Seis na primeira posição significa: corrigindo o que foi deteriorado pelo pai. Se há um filho, nenhuma culpa permanecerá sobre o pai que partiu. Perigo. Ao final, boa fortuna.

O rígido apego à tradição provocou a decadência. Porém, essa deterioração não está ainda profundamente enraizada, não sendo, por isso, difícil a recuperação.

É como se um filho compensasse a deterioração que seu pai deixou que se instalasse. Nenhuma culpa afetará, então, a memória do pai.

Porém, não se deve ignorar o perigo ou abordar a questão de modo superficial. Somente se o homem permanece consciente do perigo que toda reforma implica é que tudo irá bem ao final.

Nove na segunda posição significa: corrigindo o que foi deteriorado pela mãe. Não se deve ser demasiado perseverante.

Isso se refere a erros provocados pela fraqueza e que levaram à decadência; por isso o simbolismo do que foi deteriorado pela mãe.

Neste caso, ao se corrigirem os erros, deve-se proceder com uma certa consideração e amabilidade. Para não causar ferimentos, é necessário evitar uma atitude rude.



Nove na terceira posição significa: corrigindo o que foi deteriorado pelo pai. Haverá um pouco de remorso. Nenhuma grande culpa.

Descreve-se aqui um homem que age com um certo excesso de energia ao corrigir os erros do passado.

Por isso, vez ou outra surgirão, sem dúvida, pequenas discordâncias e aborrecimentos. Mas em ações corretivas é preferível o excesso de rigor à insuficiência.

Portanto, mesmo tendo, às vezes, algum motivo de remorso, se permanecerá livre de qualquer culpa séria.

Seis na quarta posição significa: tolerante para com o que foi deteriorado pelo pai. Continuando, se encontrará humilhação.

Isso indica a situação de um homem que, por fraqueza, não enfrenta a deterioração que vem do passado e que agora começa a se manifestar. Ele permite que a deterioração siga o seu curso.

Se isso prosseguir, a conseqüência será a humilhação.



Seis na quinta posição significa: corrigindo o que foi deteriorado pelo pai. Encontram-se elogios.

Um homem está diante da deterioração nascida da negligência em épocas passadas.

Ele não possui a força para afastar a corrupção sozinho. Encontra, porém, auxiliares capazes com cujo apoio, ainda que não podendo criar algo inteiramente novo, conseguirá realizar uma reforma profunda.

Isso também é louvável.

Nove na sexta posição significa: ele não está servido de reis e príncipes. Propõe para si objetivos mais elevados.

Nem todo homem é obrigado a envolver-se nos assuntos do mundo. Há alguns cujo desenvolvimento interior lhes permite deixar que o mundo siga seu rumo, sem se envolverem em reformas na vida pública.

Mas isso não implica no direito a uma atitude passiva ou meramente crítica.

Tal recolhimento é justificado apenas quando o homem se dedica a realizar em si mesmo os ideais mais elevados da humanidade. Pois, ainda que distante, o sábio cria para o futuro valores humanos incomparáveis.

Depois de tudo

E aqui alcançamos o final do texto sobre o hexagrama Ku / Trabalho Sobre o que se Deteriorou, da primeira parte do livro I Ching, o Livro das Mutações.

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